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Mulher de blusa amarela a ouvir uma médica de bata branca com um tablet durante a consulta
Tratamentos

Enxaqueca: que médico consultar e como preparar a tua consulta

Por Laurine Nicoletti11 min

Tens enxaqueca há anos e nunca falaste a sério com um médico? Ou as crises estão a ficar mais frequentes e não sabes se deves ir ao médico de família, marcar um neurologista ou procurar uma consulta de cefaleias? Se te perguntas enxaqueca: que médico consultar, a resposta curta é: começa quase sempre pelo teu médico de família, e avança para o neurologista ou para um centro especializado quando for preciso.

Neste artigo explicamos a quem te podes dirigir, em que situações não vale a pena esperar, que perguntas levar para a consulta e como chegar com um histórico claro das tuas crises. Não fazemos diagnósticos nem dizemos o que deves tomar: isso é sempre com o teu médico.

Em resumo

  • O médico de família é, em regra, o primeiro passo e, se for preciso, encaminha-te para o especialista.
  • Deves procurar avaliação médica se as crises forem frequentes ou incapacitantes, se aumentarem, se mudarem de padrão ou se o tratamento habitual deixar de resultar (SNS 24).
  • O neurologista ou a consulta de cefaleias fazem sentido quando a enxaqueca não está controlada, é crónica ou há dúvidas no diagnóstico.
  • Um registo simples das crises (datas, duração, intensidade, desencadeantes, medicação usada) torna a consulta muito mais útil.

Enxaqueca: que médico consultar primeiro?

O primeiro médico a consultar é, normalmente, o médico de família (ou o médico assistente que te acompanha). Ele pode avaliar as tuas crises e, se for preciso, encaminhar-te para outro especialista.

Na consulta, o médico começa pela conversa: como é a dor, quanto dura, o que a acompanha, com que frequência surge. Como explica a CUF, o diagnóstico faz-se sobretudo com a história clínica e o exame físico, incluindo o exame neurológico. Só nalguns casos o médico pede exames complementares, como uma ressonância magnética ou uma TAC cerebral.

Se queres perceber melhor o panorama das opções disponíveis antes de ir, o nosso guia sobre os tratamentos da enxaqueca dá-te uma visão geral. E se ainda duvidas de que o que tens seja mesmo enxaqueca, vê a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça.

Como marcar a consulta

Podes marcar consulta no teu centro de saúde ou, se tiveres dúvidas sobre os teus sintomas ou sobre a necessidade de cuidados, contactar a Linha SNS 24 (808 24 24 24), como indica o SNS 24. Se tens seguro de saúde ou preferes o setor privado, também podes marcar diretamente uma consulta de Neurologia ou de Cefaleias.

Há ainda iniciativas de associações de doentes. A MiGRA Portugal, por exemplo, lançou uma plataforma digital para consultas de enxaqueca. Vale a pena ver se é uma opção que te serve.

Em que casos deves marcar consulta sem esperar?

Deves marcar consulta sem esperar quando a enxaqueca começa a mudar ou a pesar na tua vida. O SNS 24 aconselha avaliação médica se:

  • tiveres dores de cabeça frequentes ou incapacitantes;
  • as crises estiverem a aumentar de frequência ou de intensidade;
  • as características da dor mudarem;
  • o tratamento habitual deixar de funcionar;
  • precisares muitas vezes de medicamentos para tratar as crises;
  • os sintomas de aura forem novos ou diferentes do habitual;
  • a enxaqueca interferir de forma significativa com a vida pessoal, familiar, profissional ou escolar.

Muita gente vive anos com crises e vai "aguentando". Segundo estudos citados pela MiGRA Portugal, cerca de 40% das pessoas com enxaqueca e outras cefaleias não têm qualquer acompanhamento médico. Se te reconheces nisto, não estás sozinha, e pedir ajuda não é exagero.

Se a dor de cabeça é diária ou quase, lê também dor de cabeça todos os dias: porquê e quando falar com o médico. Para saber como esta realidade se vê em números, tens a enxaqueca em números, no mundo e em Portugal.

Quando não é para marcar consulta, mas para pedir ajuda urgente

Há sinais que pedem avaliação urgente. O SNS 24 refere: uma dor de cabeça súbita e muito intensa, alteração da consciência, dificuldade súbita em falar, perda de força ou de sensibilidade, alteração visual importante, ou febre com agravamento do estado geral. Nestes casos, liga 112.

Não é para assustar: a esmagadora maioria das dores de cabeça não é grave. Mas convém conheceres estes sinais. No nosso artigo sobre quando ir às urgências por causa de uma dor de cabeça explicamos melhor cada situação.

Quando faz sentido ir ao neurologista?

O neurologista faz sentido quando a enxaqueca não está controlada com o acompanhamento nos cuidados primários, quando é crónica ou quando o diagnóstico levanta dúvidas. Na prática, é normalmente o médico de família que decide o encaminhamento, e o SNS 24 refere precisamente esse papel de ponte para o especialista.

Se quiseres saber mais sobre algumas opções de tratamento antes da consulta, temos artigos informativos sobre os triptanos, os anti-CGRP e o Botox para enxaqueca crónica. Nenhum deles substitui a avaliação médica: quem decide se um tratamento é adequado para ti é o teu médico.

E uma crise que dura dias?

Se uma crise se arrasta durante vários dias, também é motivo para falar com o médico. Explicamos isso em enxaqueca que não passa: porque dura dias e quando falar com o médico.

Para quem é uma consulta ou centro de cefaleias?

Uma consulta ou unidade de cefaleias é para quem precisa de uma avaliação mais especializada das dores de cabeça e das dores da face. A Unidade de Enxaqueca e outras Cefaleias da CUF, por exemplo, tem como objetivo o diagnóstico e o tratamento das cefaleias e das algias faciais, incluindo a enxaqueca, a cefaleia de tensão, a cefaleia em salvas e a nevralgia do trigémeo.

Estes centros costumam trabalhar com neurologistas dedicados a esta área. Podem articular-se com outras especialidades, como Oftalmologia, Otorrinolaringologia, Psicologia, Nutrição ou Medicina Dentária, conforme o caso. A CUF descreve também a sua consulta de cefaleia como uma consulta que combina avaliação neurológica, exames dirigidos quando necessário e opções terapêuticas adaptadas a cada pessoa.

Pergunta ao teu médico de família se existe uma consulta de cefaleias e qual é o caminho na tua zona.

Como chegar à consulta com um histórico claro?

Chegar com um histórico claro é a melhor forma de aproveitar os poucos minutos de consulta. Em vez de tentares lembrar-te de tudo no momento ("foi no mês passado? Ou há dois?"), levas dados concretos que ajudam o médico a perceber o padrão das tuas crises.

A CUF recorda que as pessoas com enxaqueca devem construir calendários que permitam identificar os seus indícios e o impacto na qualidade de vida, sendo o primeiro passo da prevenção identificar os fatores que precipitam as crises.

O que registar

Não precisas de um romance. Para cada crise, anota:

  • data e hora em que começou e quando acabou (a duração);
  • intensidade da dor, por exemplo numa escala de 0 a 10;
  • sintomas associados: náuseas, sensibilidade à luz ou ao ruído, aura;
  • possíveis desencadeantes: sono, stress, ecrãs, alimentação, fase do ciclo menstrual, mudanças de tempo;
  • o que tomaste e se ajudou, e quantos dias por mês precisas de medicação;
  • o impacto: faltaste ao trabalho ou à faculdade? Tiveste de cancelar planos?

Tens mais ideias no nosso artigo sobre o que anotar no diário de enxaqueca e no guia para identificar os desencadeantes.

Pequenos detalhes que ajudam

Leva também a lista de todos os medicamentos e suplementos que tomas (incluindo a pílula, se for o caso), os exames e receitas anteriores e, se souberes, o que existe de enxaqueca na tua família. A enxaqueca tem um componente hereditário, e esse dado ajuda o médico.

Se as crises coincidem com a menstruação, diz-lho. Pode ser relevante ler antes sobre a enxaqueca menstrual e sobre pílula e enxaqueca.

Que perguntas podes fazer durante a consulta?

Podes fazer todas as perguntas que te ajudem a perceber o diagnóstico e o plano. Escrevê-las antes evita sair do consultório com a sensação de que te esqueceste do mais importante. Algumas ideias:

  • O que tenho? Tenho enxaqueca com ou sem aura? É de outro tipo? (Se quiseres, vê os tipos de enxaqueca).
  • Preciso de algum exame? Porquê, ou porque não?
  • Que opções existem para tratar as crises e para as prevenir? Quais as vantagens e os efeitos secundários?
  • Quando devo usar a medicação de crise, e como evito usá-la em excesso?
  • Que sinais me devem fazer voltar mais cedo ou procurar ajuda urgente?
  • Quando devo voltar para reavaliar o plano? Como saberemos se está a resultar?
  • O que posso fazer no dia a dia (sono, alimentação, stress, ecrãs) para reduzir as crises?
  • Faz sentido ser vista por um neurologista ou numa consulta de cefaleias?

Não tenhas receio de dizer o que sentes sobre o tratamento. Segundo a MiGRA Portugal, uma grande parte das pessoas com enxaqueca mostra-se insatisfeita com o tratamento atual, e dizê-lo ao médico é o primeiro passo para ajustar o plano.

E se a enxaqueca for de uma criança ou adolescente?

Numa criança ou adolescente, o primeiro passo também é falar com o pediatra ou o médico assistente. Segundo a CUF, na maioria dos casos o questionário sobre as características da dor, a observação cuidadosa e o exame neurológico completo bastam para o diagnóstico, sem exames complementares.

A mesma fonte indica que as dúvidas sobre uma possível doença cerebral surgem em menos de 5% dos casos, e que uma dor persistente e constante, que não cede às medidas habituais, deve ser observada. A terapêutica global da enxaqueca deve ser orientada pelo neurologista, e há neuropediatras com experiência em cefaleias.

Se és mãe, pai ou cuidadora, o nosso guia sobre enxaqueca em crianças e adolescentes ajuda-te a preparar essa consulta. O registo das crises também funciona aqui: pede à criança, com palavras dela, para descrever o que sente.

Depois da consulta: o que fazer com o que o médico disse?

Depois da consulta, o essencial é seguir o plano combinado, continuar a registar as crises e voltar à consulta no prazo acordado. Se saíste com dúvidas, não tens de ficar com elas: volta a contactar o centro de saúde ou o consultório.

Alguns hábitos que ajudam:

  • Escreve, logo à saída, o que percebeste e o que ficou combinado.
  • Mantém o registo das crises: é assim que tu e o médico veem se o plano está a funcionar.
  • Não alteres, nem suspendas, nem acrescentes medicação por tua conta. Qualquer mudança deve ser falada com o médico.
  • Se algo mudar (crises novas, efeitos secundários, aura diferente), contacta o médico em vez de esperar pela próxima consulta.
  • Se sentires que o acompanhamento não chega, pergunta se faz sentido uma segunda opinião ou uma consulta de cefaleias.

Se quiseres complementar o que o médico propõe com medidas do dia a dia, vê como aliviar uma enxaqueca sem medicamentos. É um complemento, não uma substituição do acompanhamento.

Por onde começar?

Começa pelo médico de família, com um registo simples das tuas crises na mão. Se a enxaqueca não estiver controlada, for crónica ou houver dúvidas sobre o diagnóstico, o médico pode encaminhar-te para um neurologista ou para uma consulta de cefaleias. Se aparecerem sinais de alarme, não esperes: liga 112.

Nada disto exige que tenhas tudo perfeito. Basta que tenhas datas aproximadas, o que sentes e o que te preocupa. O resto constrói-se, consulta a consulta.

Perguntas frequentes

Que médico devo consultar para a enxaqueca?

O primeiro passo é o médico de família. Se a situação for complexa ou não estiver controlada, o médico pode encaminhar-te para um neurologista ou uma consulta de cefaleias.

Preciso de fazer uma TAC ou ressonância para saber se tenho enxaqueca?

Nem sempre. Segundo a CUF, o diagnóstico do tipo de cefaleia baseia-se sobretudo na história clínica e no exame neurológico, e só nalguns casos o médico pede exames como ressonância magnética ou TAC. A decisão é sempre do teu médico.

Quando é que uma dor de cabeça é uma urgência?

Segundo o SNS 24, uma dor de cabeça súbita e muito intensa, a alteração da consciência, a dificuldade súbita em falar, a perda de força ou de sensibilidade, uma alteração visual importante ou febre com agravamento do estado geral podem indicar uma situação urgente. Nesses casos, liga 112 ou dirige-te ao serviço de urgência.

O que devo levar à primeira consulta de enxaqueca?

Leva um registo das crises (datas, duração, intensidade, sintomas e possíveis desencadeantes), a lista dos medicamentos que tomas e o que já tentaste. Podes usar um caderno ou uma app como a Mellow, que reúne esses dados e os mostra em calendário e estatísticas. Quanto mais concreto for o histórico, mais fácil é para o médico perceber o teu padrão.

Posso ir diretamente a um neurologista sem passar pelo médico de família?

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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