
Enxaqueca em números: o que dizem os estudos no mundo e em Portugal
Já te disseram que a tua enxaqueca "é só uma dor de cabeça"? Ou deixaste de marcar planos porque nunca sabes em que dia a próxima crise vai chegar? Ver a enxaqueca em números ajuda a perceber uma coisa simples: não estás sozinha, e o que sentes é um problema de saúde reconhecido e muito comum.
Neste artigo reunimos o que dizem os estudos e os especialistas, no mundo e em Portugal: quantas pessoas têm enxaqueca, quem é mais afetado, quanto custa e porque continua a ser tão subvalorizada. Também dizemos onde os números são incertos, porque nem todas as estimativas coincidem. Se quiseres uma visão mais ampla do tema, tens o nosso espaço Tudo sobre a enxaqueca.
Em resumo
- A enxaqueca afeta cerca de 1,3 mil milhões de pessoas no mundo, segundo dados destacados no Dia Europeu da Enxaqueca.
- Em Portugal, estima-se que cerca de dois milhões de pessoas tenham enxaqueca, e cerca de 780 mil com episódios que causam incapacidade significativa.
- Depois da adolescência, a enxaqueca afeta duas a três vezes mais mulheres do que homens.
- É apontada como a principal causa de incapacidade entre os 15 e os 49 anos, mas continua subdiagnosticada.
Enxaqueca em números: quantas pessoas a têm no mundo?
A enxaqueca afeta cerca de 1,3 mil milhões de pessoas em todo o mundo, segundo números divulgados no Dia Europeu da Enxaqueca, o que a coloca entre as doenças neurológicas mais frequentes. Para teres uma ideia, é mais ou menos uma pessoa em cada seis.
Estes valores são estimativas, e podem variar consoante o estudo, o ano e o método usado para contar. Em geral, as estimativas mundiais assentam em grandes análises populacionais, que misturam inquéritos, registos de saúde e modelos estatísticos. Por isso, mais importante do que o número exato é a ordem de grandeza: falamos de mais de mil milhões de pessoas.
Esta frequência também aparece em valores mais prudentes para populações específicas. A CUF refere que a enxaqueca afeta entre 8% e 15% da população ocidental.
Quantas pessoas têm enxaqueca em Portugal?
Em Portugal, estima-se que a enxaqueca afete cerca de dois milhões de pessoas, e que cerca de 780 mil tenham episódios com incapacidade significativa. Mas atenção: as estimativas nacionais não são todas iguais.
O Observador fala em cerca de 15% da população, ou seja, mais de 1,5 milhões de pessoas. O consenso das sociedades científicas portuguesas publicado em 2025 também indica uma prevalência de cerca de 15%. Uma notícia sobre o Dia Europeu da Enxaqueca chega a mencionar 16% a 20% dos portugueses.
Porque há esta diferença? Estudos diferentes usam critérios de diagnóstico e grupos de pessoas diferentes. O que todos mostram é que falamos de um a dois milhões de portugueses, e que muitos nunca receberam um diagnóstico formal.
Porque afeta mais as mulheres e em que idade aparece?
Depois da adolescência, a enxaqueca afeta duas a três vezes mais mulheres do que homens, e as hormonas femininas parecem ter um papel importante. A CUF explica que a doença está muito associada ao ciclo reprodutivo: é mais frequente depois da primeira menstruação ou durante o período menstrual, pode agravar-se com a pílula ou terapêutica hormonal, e tende a atenuar-se ou desaparecer na gravidez ou na menopausa.
Quanto à idade, a enxaqueca é descrita como a principal causa de incapacidade entre os 15 e os 49 anos. Ou seja, atinge sobretudo quem está a estudar, a começar a trabalhar, a construir uma vida. Se esta é a tua realidade, vale a pena ler também o nosso artigo sobre a enxaqueca hereditária, para perceber o papel da genética.
Nem tudo está explicado. Os estudos mostram uma ligação forte com as hormonas, mas não sabemos ainda porque razão algumas mulheres são muito mais sensíveis do que outras às mudanças hormonais.
E a enxaqueca crónica?
A enxaqueca crónica afeta apenas uma parte das pessoas com enxaqueca. Em linguagem simples, é a enxaqueca que aparece em 15 ou mais dias por mês, durante mais de três meses.
Parece pouco, mas em números absolutos são muitos milhões de pessoas em todo o mundo. E é o grupo em que o impacto no dia a dia costuma ser maior: faltas ao trabalho, planos cancelados, cansaço e preocupação constante com a próxima crise.
Passar de crises ocasionais para crónicas não acontece de um dia para o outro. Fatores como o uso excessivo de analgésicos e a falta de acompanhamento médico podem contribuir. Por isso, o diagnóstico cedo e o seguimento com um profissional de saúde importam tanto. Se já falaste com o teu médico sobre isto, o nosso artigo sobre o Botox para enxaqueca crónica explica uma das opções que existem, de forma informativa.
Quanta incapacidade causa a enxaqueca?
A enxaqueca está entre as doenças que mais incapacidade causam: o consenso nacional de 2025 coloca-a em segundo lugar entre as doenças com mais anos vividos com incapacidade. Isto não quer dizer que cada crise te deixe incapacitada para sempre, mas que, somando as crises de milhões de pessoas ao longo dos anos, o peso total é enorme.
Esta incapacidade vai além da dor. Segundo a notícia do Índice, a enxaqueca pode interferir nas relações familiares e sociais, nas atividades de lazer, nas tarefas domésticas e no desempenho profissional.
Também há uma parte invisível: o medo da próxima crise. Muitas pessoas com enxaqueca organizam a vida em função disso, sem que ninguém à volta perceba.
Quanto custa a enxaqueca?
A enxaqueca tem um custo económico elevado, sobretudo pela perda de produtividade e não tanto pelos tratamentos. As perdas de produtividade ligadas à enxaqueca e às cefaleias têm um grande impacto no absentismo e na economia do país.
Uma estimativa frequentemente citada em Portugal fala em cerca de 954 milhões de euros por ano em perda de produtividade, com apenas uma pequena parte devida a faltas ao trabalho. A maior fatia vem de estar no trabalho com crise, a render menos. Trata-se de uma estimativa baseada em estudos anteriores, por isso deve ser lida como ordem de grandeza.
Os valores variam muito conforme o método, mas o recado é o mesmo: as crises custam caro a quem as vive e a quem emprega.
Porque é considerada uma doença subvalorizada?
A enxaqueca é considerada subvalorizada porque continua a ser subdiagnosticada, banalizada e com acesso desigual a cuidados. Segundo o consenso português de 2025, cerca de 40% das pessoas com cefaleias em Portugal não têm acompanhamento médico, e cerca de 1,5 milhões beneficiariam dele, com 90% a poderem ser seguidas nos cuidados de saúde primários.
A MiGRA Portugal refere ainda que o acesso a uma consulta de neurologia pode demorar até 15 anos. Em muitos casos, as pessoas recorrem à automedicação ou a consultas pontuais, o que atrasa um diagnóstico estruturado, como descreve o neurologista Filipe Palavra num artigo de opinião.
O mesmo texto lembra que existem tratamentos mais recentes, como os anticorpos monoclonais anti-CGRP, mas o acesso continua desigual, condicionado por critérios de comparticipação. Se tens dúvidas sobre se podes beneficiar de alguma opção, esse é um assunto para falares com o teu médico de família ou neurologista.
O que significam estes números para ti?
Estes números dizem que a tua enxaqueca é real, comum e merece ser levada a sério. Mas as estatísticas descrevem populações, não dizem nada sobre o teu caso: para isso, o melhor ponto de partida são os teus próprios dados.
Aqui ficam algumas ideias práticas:
- Anota as tuas crises. Data, duração, intensidade e o que aconteceu nas horas anteriores. Em poucas semanas começam a surgir padrões.
- Repara na frequência. Se tens crises mais de quatro vezes por mês, ou se estás a recorrer muitas vezes a analgésicos, fala com o teu médico. É nestas situações que um acompanhamento faz mais diferença.
- Leva números à consulta. Em vez de dizeres "tenho muitas dores de cabeça", podes dizer "tive seis crises no último mês, com duração média de um dia".
- Não te compares. Há quem tenha duas crises por ano e quem tenha várias por semana. Ambas as situações são válidas e merecem atenção.
- Conhece os teus limites e os teus recursos. Se o ecrã te incomoda, por exemplo, vê o nosso artigo sobre enxaqueca e ecrãs. E para explorar formas de lidar com as crises, passa pelo espaço Tratamentos da enxaqueca.
Nenhum destes passos substitui uma avaliação médica. Servem para te ajudar a chegar à consulta mais preparada e a teres mais controlo sobre o que se passa contigo.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas têm enxaqueca no mundo?
Estima-se que a enxaqueca afete cerca de 1,3 mil milhões de pessoas em todo o mundo, segundo números divulgados no Dia Europeu da Enxaqueca. Estes valores são estimativas e variam consoante o estudo.
Quantos portugueses têm enxaqueca?
Em Portugal, estima-se que cerca de dois milhões de pessoas tenham enxaqueca, e cerca de 780 mil com episódios que causam incapacidade significativa, de acordo com a imprensa de saúde. Outras fontes, como o consenso de 2025, apontam para cerca de 1,5 milhões de pessoas.
Porque é que a enxaqueca é mais comum nas mulheres?
Depois da adolescência, a enxaqueca afeta duas a três vezes mais mulheres, e a CUF associa-a ao ciclo reprodutivo. Os estudos indicam um papel das hormonas, mas ainda não explicam porque algumas mulheres são mais sensíveis do que outras.
A enxaqueca crónica é comum?
A enxaqueca crónica afeta uma minoria das pessoas com enxaqueca. Caracteriza-se por dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, e o diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde.
Preciso de ir ao médico se tenho enxaqueca?
Sim, um diagnóstico correto e o acompanhamento médico são fundamentais para reduzir a frequência e a intensidade das crises, segundo a notícia do Índice. Segundo o consenso nacional, a maior parte dos casos pode ser acompanhada nos cuidados de saúde primários, por isso o teu médico de família é um bom primeiro passo.
Fontes
- Enxaqueca afeta 1,3 mil milhões no mundo e continua banalizada
- 1.300 milhões de pessoas sofrem de enxaqueca em todo o mundo e a doença continua subdiagnosticada e banalizada - News Farma
- Enxaquecas: doença afeta cerca de dois milhões de pessoas em Portugal
- Enxaqueca: o que é, sintomas e tratamento
- O que é a enxaqueca? Dez respostas sobre a dor de cabeça crónica que afeta mais de um milhão e meio de portugueses
- Gestão das cefaleias em Portugal: consenso das Sociedades Portuguesas de cefaleias e neurologia, associação portuguesa de medicina geral e familiar e MiGRA
- Dia Europeu da Enxaqueca. "Atinge 16 a 20% dos portugueses"
- Enxaqueca e cefaleias: MiGRA Portugal debate acesso a cuidados de saúde no Parlamento
- Dia Mundial da Enxaqueca: Enxaqueca em Portugal: os paradoxos do retrato possível
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
Artigos relacionados
Glossário da enxaqueca: os termos que ouves explicados de forma simples
Glossário da enxaqueca em linguagem simples: aura, fotofobia, cefaleia, crónica, triptanos, anti-CGRP e mais. Percebe o que o médico diz e o que sentes.
Causas da enxaqueca: o que se passa no teu cérebro
Causas da enxaqueca explicadas sem jargão: um cérebro mais sensível, o nervo trigémeo, o CGRP, a hereditariedade e o que a ciência ainda não sabe.



