
Causas da enxaqueca: o que se passa no teu cérebro
Tens uma crise e perguntas-te: porquê eu? Porque é que um dia de pouco sono, uma mudança de tempo ou uma refeição saltada bastam para me deitar abaixo, quando outras pessoas passam por isso sem problema? As causas da enxaqueca não se resumem a uma só coisa, mas a ciência já explica muito do que acontece: um cérebro mais sensível e mais excitável, um circuito de dor (o nervo trigémeo e uma molécula chamada CGRP) e uma predisposição que muitas vezes vem da família.
Neste artigo explicamos tudo isto em linguagem simples, sem jargão e sem promessas milagrosas. Se quiseres uma visão geral do tema, tens o nosso guia Tudo sobre a enxaqueca. Aqui vamos ao detalhe: o que se passa dentro da cabeça, e o que ainda ninguém sabe.
Em resumo
- A enxaqueca é uma doença do cérebro, não "só uma dor de cabeça": resulta de um sistema nervoso que reage de forma mais intensa a estímulos que, noutras pessoas, passam despercebidos.
- A dor surge quando o nervo trigémeo é ativado e liberta substâncias como o CGRP, que causam inflamação e sensibilizam as vias da dor.
- A predisposição pode ser hereditária, mas não é uma sentença: ter familiares com enxaqueca aumenta a probabilidade, não a garante.
- Os desencadeantes (stress, sono, alimentação) fazem disparar uma crise num cérebro já predisposto; não são a causa de fundo.
Porque é que o cérebro com enxaqueca reage com mais força?
O cérebro de quem tem enxaqueca é, de forma geral, mais excitável e mais sensível: responde com mais intensidade a estímulos como a luz, o som, os cheiros ou as mudanças de rotina. A CUF descreve a enxaqueca como uma afeção do cérebro provocada por uma combinação de processos: excitação e depressão de células, dilatação de artérias e libertação de substâncias químicas.
Isto explica algo que muitas pessoas notam sem saber nomear: entre crises, a sensibilidade à luz, ao ruído ou aos odores pode já estar um pouco aumentada. Na crise, esses sintomas ganham força e, por isso, a luz incomoda, o barulho dói e um perfume pode dar náuseas. Se quiseres perceber melhor a ligação com o estômago, temos um artigo sobre enxaqueca e náuseas.
E antes da dor? As fases iniciais
Muitas crises começam horas ou até dois dias antes da dor, com sinais discretos: cansaço, irritabilidade, vontade de comer certos alimentos, bocejos, rigidez no pescoço, maior sensibilidade à luz e ao som. Esta fase chama-se pródromo, e a literatura médica portuguesa aponta para o envolvimento de zonas profundas do cérebro, como o hipotálamo e o tronco cerebral, no trabalho "Enxaqueca: da teoria à prática", da Universidade de Coimbra.
Isto tem uma consequência prática importante: às vezes, aquilo que parece ser um desencadeante (a vontade súbita de comer doces, por exemplo) é já um sinal de que a crise começou. Falamos disto mais à frente. E se quiseres ver como se desenrolam as fases, tens o artigo Quanto tempo dura uma enxaqueca? As 4 fases de uma crise.
O nervo trigémeo e o CGRP: como a dor se monta
A dor da enxaqueca nasce da ativação do sistema trigémino-vascular, o circuito formado pelo nervo trigémeo (que leva as sensações da cara e da cabeça ao cérebro) e pelos vasos sanguíneos e membranas que envolvem o cérebro. A ativação deste sistema liberta neuropéptidos como o CGRP, a substância P e o PACAP, o que promove inflamação neurogénica estéril, vasodilatação e sensibilização das vias da dor.
Traduzindo: o nervo trigémeo "acorda", liberta mensageiros químicos, e as zonas à volta dos vasos ficam inflamadas e mais sensíveis. Os vasos sanguíneos entram na história, mas como parte de uma cadeia maior, e não como a única causa.
O que é o CGRP?
O CGRP (péptido relacionado com o gene da calcitonina) é uma molécula que o nosso organismo produz naturalmente e que, no contexto da enxaqueca, tem um papel de destaque. Uma monografia da Universidade de Coimbra sobre o papel do CGRP refere que os níveis de CGRP estão elevados durante uma crise e que a infusão de CGRP na veia desencadeou uma crise de enxaqueca sem aura em cerca de 60% dos doentes estudados.
Esta descoberta abriu caminho a tratamentos preventivos dirigidos a esta molécula: os anticorpos monoclonais anti-CGRP. Se queres perceber como funcionam, lê Anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado. Quem decide se um tratamento destes faz sentido é o teu médico, caso a caso.
O que acontece no cérebro durante a aura?
A aura é provocada por uma onda de atividade elétrica que atravessa o córtex cerebral, a camada exterior do cérebro, e que depois deixa essa zona "em silêncio" durante algum tempo. Este fenómeno chama-se depressão alastrante cortical (ou depressão alastrante de Leão, em homenagem ao investigador que a descreveu). Um trabalho do Repositório da Universidade do Porto descreve-a como uma onda de despolarização que avança pelo córtex a cerca de 3 a 5 mm por minuto.
É por esta onda avançar devagar que os sintomas da aura também surgem de forma gradual, como luzes a cintilar, manchas na visão ou formigueiro, e tendem a durar entre alguns minutos e cerca de uma hora. Se a aura te soa familiar, tens um artigo dedicado: Enxaqueca com aura: como reconhecer os sinais antes da crise.
Nem toda a gente com enxaqueca tem aura, e nem todas as auras vêm antes da dor. Há vários tipos de enxaqueca, e a base de sensibilidade do cérebro é comum a todos. Se tiveres sintomas novos, súbitos ou diferentes do habitual, fala com um profissional de saúde.
A enxaqueca é hereditária?
Há uma componente genética clara: ter familiares próximos com enxaqueca aumenta a probabilidade de a ter, mas não é uma certeza. A CUF refere que a enxaqueca pode ser hereditária e que se pensa existir uma suscetibilidade genética. Estudos em famílias e em gémeos idênticos sugerem o envolvimento de fatores genéticos, sobretudo na enxaqueca com aura, como se pode ler num capítulo de tese da Universidade de Coimbra.
Não existe um "gene da enxaqueca" único. O que se sabe é que vários genes, cada um com um pequeno efeito, parecem contribuir para um cérebro mais sensível, e que isso se combina com o ambiente e com os hábitos de vida. É por isso que há quem tenha enxaqueca sem ninguém na família, e quem tenha vários familiares afetados e nunca tenha uma crise.
Para aprofundar, temos o artigo Enxaqueca hereditária: é genética e vais transmiti-la aos teus filhos?.
Porque é que a enxaqueca afeta mais as mulheres?
A enxaqueca é duas a três vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens, a partir da puberdade, e as hormonas parecem ter um papel importante. A CUF aponta várias características associadas ao ciclo reprodutivo feminino: maior frequência depois da primeira menstruação ou durante a menstruação, agravamento ocasional com a pílula ou com terapêutica hormonal, e melhoria ou desaparecimento durante a gravidez ou a menopausa.
O mecanismo exato não está totalmente esclarecido. Sabe-se que as variações hormonais ao longo do ciclo se relacionam com o aparecimento das crises em muitas mulheres, e é por isso que o registo do ciclo ajuda tanto a perceber padrões. Podes ler mais em Enxaqueca e ciclo menstrual e em Pílula e enxaqueca.
Os desencadeantes não são as causas
Um desencadeante é aquilo que faz disparar uma crise num cérebro já predisposto; não é o que cria a enxaqueca. A CUF lista como desencadeantes frequentes certos alimentos, alterações do ritmo do sono, stress, menstruação, jejum e exercício físico, no seu artigo sobre enxaqueca.
A diferença entre causa e desencadeante é libertadora. Se tiveres uma crise depois de uma semana má, não "causaste" a tua enxaqueca: o teu cérebro, que já é mais sensível, reagiu à soma de várias coisas. E é por isso que um mesmo fator pode provocar uma crise num dia e nada no dia seguinte: normalmente, é a soma que conta.
Para descobrir os teus, o mais útil é observar com método. O nosso guia Como identificar os desencadeantes da enxaqueca mostra como fazer isso passo a passo, e o artigo sobre o diário de enxaqueca diz o que vale a pena anotar.
O que a ciência ainda não sabe
Apesar dos avanços, a fisiopatologia da enxaqueca ainda não é totalmente conhecida, e há perguntas em aberto. A própria literatura portuguesa sobre o tema, como a monografia Enxaqueca: da teoria à prática, assume que muitos aspetos continuam por esclarecer.
Estas são algumas das questões que a investigação ainda tenta responder:
- Onde começa exatamente uma crise? Há indícios de que as zonas profundas do cérebro (como o hipotálamo) participam desde o início, mas a sequência exata não está fechada.
- Porque é que a crise surge num dia e não noutro? O mesmo desencadeante pode ter efeitos diferentes, e ainda não sabemos prever com precisão quando vai acontecer.
- Quais são todos os genes envolvidos? Foram identificadas variantes associadas à enxaqueca, mas, no conjunto, só explicam uma parte da predisposição.
- Porque é que os tratamentos funcionam em umas pessoas e não noutras? Dois cérebros com enxaqueca podem não ter o mesmo "motor" por trás da crise.
Dizer isto com honestidade não tira valor ao que já se sabe. Significa apenas que a ciência continua a avançar, e que a tua experiência pessoal, registada com cuidado, é uma informação valiosa.
O que fazer com tudo isto no dia a dia?
Perceber as causas não elimina as crises, mas ajuda a agir com menos culpa e mais método. Há três ideias práticas que podes tirar daqui:
- Não te culpes. A enxaqueca é uma característica do funcionamento do cérebro, não um sinal de fraqueza ou de "exagero".
- Observa os padrões. Como o cérebro é sensível à soma de fatores, anotar sono, stress, ciclo, alimentação, ecrãs e tempo ajuda a ver o que se repete. Podes ainda ver a ligação com a pressão atmosférica e o stress.
- Leva informação à consulta. Um registo de crises, com datas, duração e intensidade, dá ao médico uma base concreta para avaliar o teu caso e decidir se faz sentido um tratamento preventivo ou outra abordagem. Qualquer decisão sobre medicação deve ser tomada com um profissional de saúde.
Se as crises se tornarem mais frequentes, mudarem de padrão ou vierem com sinais novos, convém falar com o médico. E se tens dúvidas sobre quando ir às urgências, o artigo Dor de cabeça: quando ir às urgências e quando podes esperar pode ajudar.
Se quiseres perceber melhor os números, vê Enxaqueca em números. E se algum termo te parecer estranho, o Glossário da enxaqueca explica-os de forma simples.
Perguntas frequentes
O que causa a enxaqueca?
Não há uma causa única: a enxaqueca resulta de um cérebro mais sensível e excitável, da ativação do sistema trigémino-vascular com libertação de moléculas como o CGRP e, em muitos casos, de uma predisposição genética. Os desencadeantes, como o stress ou a falta de sono, fazem disparar as crises num cérebro já predisposto.
A enxaqueca é uma doença do cérebro ou dos vasos sanguíneos?
É sobretudo uma doença do cérebro e do sistema nervoso. Os vasos sanguíneos participam na cadeia de acontecimentos, mas a explicação atual dá um papel central à ativação do nervo trigémeo e às moléculas que ele liberta.
Se a minha mãe tem enxaqueca, vou ter também?
Não necessariamente. Ter familiares próximos com enxaqueca aumenta a probabilidade, mas a predisposição envolve vários genes e fatores do ambiente, por isso nada é garantido. Se isto te preocupa, fala com o teu médico.
Porque é que a enxaqueca aparece mais nas mulheres?
As hormonas femininas parecem ter um papel importante: a enxaqueca é mais frequente depois da primeira menstruação e tende a melhorar na gravidez e na menopausa, segundo a CUF. O mecanismo exato ainda não está completamente esclarecido.
Posso evitar as causas da enxaqueca?
A predisposição, como a genética, não se escolhe nem se muda. O que podes fazer é perceber os teus desencadeantes e falar com o médico sobre as opções de prevenção e tratamento que fazem sentido para ti.
Fontes
- Enxaqueca: o que é, sintomas e tratamento
- Amnésia global transitória: uma síndrome enigmática
- Logotipo Afya
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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