← Voltar ao blog
Jovem ruivo de olhos fechados com a mão na têmpora, ao lado de nuvem de chuva, barômetro e sol
Desencadeantes

Pressão atmosférica e enxaqueca: o que dizem as fontes e como saber se te afeta

Por Laurine Nicoletti10 min

Acordas com o céu cinzento e, a meio da manhã, a cabeça começa a latejar. Ou então a dor chega horas antes da trovoada, e tu já sabes que vai chover sem ver a previsão. Se isto te soa familiar, é natural que te perguntes se a pressão atmosférica e a enxaqueca estão mesmo ligadas.

A resposta curta: muitas pessoas com enxaqueca reconhecem o tempo como desencadeante, e há explicações possíveis, mas o efeito é muito pessoal e o mecanismo não está totalmente esclarecido. Neste artigo vemos o que é a pressão atmosférica, o que dizem as fontes em português, que mudanças de tempo se associam mais às crises e como podes verificar se isto se aplica a ti. Faz parte do nosso grupo de artigos sobre como prevenir a enxaqueca.

Em resumo

O que é a pressão atmosférica e porque muda?

A pressão atmosférica é o peso do ar que está por cima de nós, e muda porque as massas de ar se deslocam e aquecem ou arrefecem de forma diferente. Em meteorologia, o valor médio é de cerca de 1013 mb (milibares), e as aplicações costumam mostrá-lo em hectopascais (hPa), uma unidade equivalente.

Abaixo desse valor falamos de baixas pressões ou depressões, e acima de altas pressões ou anticiclones. Segundo o tempo.pt, as depressões estão normalmente associadas a nuvens, chuva e vento forte, enquanto os anticiclones se associam a céu limpo e tempo seco.

Para ti, o que conta é que a pressão sobe e desce ao longo dos dias, sobretudo quando passam depressões e frentes. Em Portugal, com o Atlântico à porta, estas passagens são frequentes no outono e no inverno.

A pressão atmosférica pode desencadear uma crise de enxaqueca?

Pode, para algumas pessoas: as fontes em português referem a variação da pressão barométrica como um dos desencadeantes meteorológicos possíveis. Segundo o ZAP, entre 30% e 50% das pessoas com enxaqueca apontam as mudanças de tempo como um dos fatores que provocam as crises.

Repara que se trata de pessoas que dizem reconhecer esse padrão. É um dado útil, mas não significa que a pressão seja a causa em todos os casos, nem que o tempo seja o único desencadeante.

A Sociedade Portuguesa de Cefaleias, citada pelo Viral SAPO, inclui entre os fatores climáticos o tempo quente, enevoado e abafado, e refere também a pressão barométrica, as mudanças sazonais, a altitude, a humidade e os relâmpagos. O mesmo texto lembra que um desencadeante não afeta todas as pessoas com enxaqueca e pode variar ao longo da vida.

E os números dos estudos?

O tempo.pt resume alguns trabalhos sobre o tema. Um estudo da Universidade de Cincinnati observou que um aumento de 5,5 °C na temperatura ambiente se associou a cerca de 6% mais atendimentos hospitalares por dor de cabeça.

Outra investigação publicada no Journal of Headache and Pain, segundo a mesma fonte, concluiu que um aumento de 26,5% na humidade se correlacionou com uma probabilidade 28% maior de enxaqueca, sobretudo nos períodos mais quentes do ano. Uma correlação quer dizer que as duas coisas aparecem juntas, não que uma provoque a outra.

Porque é que o teu cérebro poderia reagir à pressão?

Ainda não se sabe ao certo, e o que existe são hipóteses. De acordo com o ZAP, acredita-se que a queda da pressão possa influenciar a pressão dentro do crânio ou o comportamento dos vasos sanguíneos do cérebro, estimulando terminações nervosas sensíveis à dor.

A mesma fonte nota que as pessoas com enxaqueca tendem a ter um sistema nervoso mais sensível, e que variações como a pressão, a temperatura, a humidade ou a qualidade do ar podem ativar certas vias cerebrais ligadas à dor.

Na prática, a ideia é esta: o teu cérebro de pessoa migrenosa reage com mais facilidade a mudanças do ambiente. A pressão seria apenas um dos estímulos possíveis, e raramente atua sozinha.

Que mudanças de tempo se associam mais às crises?

As mais citadas são as descidas de pressão antes de tempestades, o calor com ar abafado, as variações rápidas de temperatura e de humidade. Não existe uma lista universal, e o que desencadeia uma crise numa pessoa pode não ter qualquer efeito noutra.

  • Queda da pressão antes de chuva ou trovoada: é o exemplo clássico, descrito pelo tempo.pt como um dos principais fatores.
  • Calor e tempo abafado: o Viral SAPO explica que as altas temperaturas podem dilatar artérias e veias, e que o calor aumenta a perda de líquidos, o que pode alterar o equilíbrio do organismo.
  • Temperaturas extremas e mudanças súbitas: o ZAP refere tanto o calor intenso como o frio excessivo, assim como a humidade elevada e poluentes atmosféricos como o ozono.
  • Altitude: a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, citada pelo Viral SAPO, inclui as mudanças de altitude entre os fatores climáticos possíveis.

Com tantas variáveis a mexer ao mesmo tempo (a pressão desce quando chove, mas também fica mais húmido e mais escuro), é difícil saber qual delas pesa mais. É por isso que o registo pessoal vale mais do que qualquer regra geral.

O tempo nunca é o único culpado

O tempo raramente age sozinho: o stress, as alterações do sono, as refeições irregulares e o ciclo menstrual também contam. A CUF lista entre os desencadeantes o stress, o exercício físico excecional, a irregularidade do ritmo do sono e das refeições e os ciclos menstruais.

Isto explica porque numa semana a chuva te deixa de rastos e na seguinte nem a notas. Quando dormiste bem e estás tranquila, o teu limiar costuma estar mais alto. Quando juntas pouco sono, prazos e uma frente fria, a soma pode ser demais.

Se queres perceber outros desencadeantes do dia a dia, temos também um artigo sobre enxaqueca e ecrãs.

Como saber se a pressão atmosférica te afeta a ti?

A forma mais fiável é registar cada crise durante algumas semanas ou meses e comparar com o tempo que fazia. Só assim consegues separar uma impressão ("a minha cabeça sabe quando vai chover") de um padrão que se repete.

O ZAP recomenda precisamente começar por acompanhar as crises e as condições meteorológicas, num diário ou numa aplicação, para identificar padrões. A MiGRA Portugal disponibiliza também um calendário mensal para registo de crises, útil se preferires papel.

Para ires mais longe, anota:

  • o dia e a hora em que a dor começou e quanto tempo durou;
  • a intensidade, numa escala simples;
  • como dormiste, o stress do dia, as refeições e, se for o caso, a fase do ciclo;
  • o tempo que fazia e se a pressão tinha subido ou descido nas horas anteriores.

O ponto importante é a variação e não o valor absoluto. Uma pressão de 1005 hPa que se mantém estável durante dias pode incomodar menos do que uma descida rápida de 10 hPa numa tarde. Isto é uma pista para observares nos teus dados, não uma regra comprovada.

O que podes fazer se suspeitas que és sensível ao tempo?

Não podes mudar o tempo, mas podes reduzir os outros fatores que somam e preparar-te melhor. Isto não é um tratamento: é organização, e qualquer decisão sobre medicação deve ser tomada com o teu médico.

  • Mantém rotinas estáveis nos dias de mudança de tempo: sono regular e refeições a horas fazem parte dos desencadeantes que a CUF refere e que estão mais ao teu alcance.
  • Hidrata-te quando está calor: o Viral SAPO explica que o calor aumenta a perda de líquidos e pode alterar o metabolismo.
  • Experimenta técnicas de relaxamento: o ZAP menciona a meditação, o mindfulness e o biofeedback como ajudas para o sistema nervoso reagir com menos intensidade a estímulos externos, incluindo o tempo.
  • Antecipa os dias de risco: se vês nos teus registos que as crises seguem as descidas de pressão, podes planear esses dias com menos carga e mais pausas.

Se as crises são frequentes e parecem ligadas ao tempo, vale a pena falar com o teu médico de família ou com um neurologista. O ZAP lembra que existem tratamentos preventivos que podem ser discutidos com um profissional de saúde. Para saberes o que existe, podes ler o nosso pilar sobre gerir a enxaqueca.

Porque ajuda registar a pressão atmosférica automaticamente?

Porque a memória engana: lembramo-nos das vezes em que choveu e doeu a cabeça, e esquecemos as vezes em que choveu e não aconteceu nada. Registar tudo de forma automática dá-te dados limpos, sem depender de teres de ir consultar o tempo depois.

Na Mellow, a pressão atmosférica é seguida automaticamente, e tu só precisas de anotar a crise. Com o tempo, as estatísticas e o histórico mostram se há uma relação com a pressão, o sono, o stress, os ecrãs ou o ciclo.

Esses dados também ajudam na consulta. Em vez de dizeres "acho que é do tempo", podes mostrar ao médico o que se passou, crise a crise.

Conclusão: escuta o teu corpo, mas olha também para os dados

A relação entre pressão atmosférica e enxaqueca é plausível e muitas pessoas reconhecem-na, mas é individual e ainda não totalmente explicada. Não precisas de acreditar nem de descartar a ideia: precisas de a testar com os teus próprios registos.

Se descobrires que o tempo conta no teu caso, ficas com uma peça a mais para antecipar os dias difíceis. Se não contar, também é uma boa notícia, porque podes concentrar-te noutros desencadeantes. Se a enxaqueca tem família na tua história, o artigo sobre enxaqueca hereditária pode ajudar a perceber o resto do quadro.

Perguntas frequentes

A enxaqueca pode piorar antes de chover?

Algumas pessoas notam que sim, e a queda da pressão atmosférica que antecede tempestades é um dos fatores mais citados, segundo o tempo.pt. Mas não acontece a todas as pessoas com enxaqueca, e só os teus registos podem dizer se és uma delas.

Que pressão atmosférica faz mal à enxaqueca?

Não existe um valor mágico que sirva para toda a gente. O que as fontes descrevem é a influência das variações da pressão, em especial as descidas, e não de um número específico. Observa nos teus registos se as crises surgem após mudanças rápidas.

Quantas pessoas com enxaqueca são sensíveis ao tempo?

Segundo o ZAP, entre 30% e 50% das pessoas com enxaqueca apontam as mudanças meteorológicas como um dos fatores que desencadeiam as crises. É uma perceção relatada pelas próprias pessoas, que pode coincidir ou não com o que realmente acontece em cada caso.

Devo falar com o médico se as crises coincidirem com mudanças de tempo?

Sim, sobretudo se forem frequentes ou limitarem o teu dia a dia. Levar um registo das crises, com datas, intensidade e desencadeantes possíveis, ajuda o médico a avaliar o teu caso e a discutir, se fizer sentido, opções de prevenção ou tratamento.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

Artigos relacionados

Todos os artigos «Desencadeantes»

Descarrega a Mellow

Gratuita para descarregar. Regista a tua primeira crise em poucos segundos.

4,8 em 62 classificações
Descarregar na App StoreObter no Google Play