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Mulher ruiva de olhos fechados com a mão na têmpora, ao lado de um calendário e de uma curva descendente
Desencadeantes

Enxaqueca e ciclo menstrual: porque é que as hormonas desencadeiam as crises

Por Laurine Nicoletti9 min

Todos os meses, mais ou menos na mesma altura, a dor de cabeça aparece. Chega na véspera da menstruação, ou no primeiro dia, e já sabes que vais ter de cancelar planos, baixar as persianas e esperar que passe. Se isto te soa familiar, é possível que estejas a viver o que se chama enxaqueca menstrual: crises de enxaqueca ligadas ao ciclo.

Neste artigo explico o que é, o que se sabe sobre o papel das hormonas, como perceber se as tuas crises seguem o ciclo e o que podes levar à consulta. Faz parte do nosso tema sobre como prevenir a enxaqueca, onde reunimos tudo o que ajuda a perceber os desencadeantes.

Em resumo

  • A enxaqueca é duas a três vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens a partir da adolescência, e muitas notam que as crises se ligam à menstruação.
  • Chama-se enxaqueca menstrual quando as crises têm uma relação muito próxima, no tempo, com a menstruação.
  • Gravidez, pílula, perimenopausa e menopausa também podem mudar o padrão das crises.
  • Registar as crises durante alguns ciclos ajuda a perceber o padrão, e é uma boa base para falares com o teu médico, sobretudo antes de mudares algo na contraceção.

Porque é que as mulheres têm mais enxaqueca do que os homens?

Porque as hormonas femininas parecem ter um papel importante, e isso nota-se na idade em que a diferença aparece. Segundo a CUF, antes da adolescência a enxaqueca atinge rapazes e raparigas por igual, mas a partir daí é duas a três vezes mais frequente no sexo feminino.

A mesma fonte refere que a enxaqueca tem características muito ligadas ao ciclo reprodutivo: surge mais depois da primeira menstruação ou durante o período menstrual, pode agravar-se de forma ocasional com a pílula ou com terapêutica hormonal, e pode atenuar-se ou desaparecer na gravidez ou na menopausa. Se queres perceber melhor o que acontece nas crises das mais novas, temos um guia sobre a enxaqueca em crianças e adolescentes.

Isto não quer dizer que a culpa seja tua nem que haja algo "errado" no teu corpo. Quer dizer que o cérebro de quem tem enxaqueca reage a mudanças, e o ciclo é uma mudança regular.

O que é exatamente a enxaqueca menstrual?

A enxaqueca menstrual é uma enxaqueca com uma relação muito próxima, no tempo, com a menstruação.

Na prática, há mulheres com crises só à volta da menstruação e outras que têm crises ao longo do mês, com uma maior probabilidade nesses dias. Quem faz o diagnóstico é o médico, não uma pesquisa na internet. O que podes fazer é chegar à consulta com informação útil.

Isto significa que não existe um único retrato da enxaqueca menstrual. Uma pessoa pode ter crises sempre na véspera da menstruação, outra no primeiro dia, outra só em alguns meses. Por isso, mais do que comparar-te com os casos de outras mulheres, vale a pena observar o teu próprio padrão ao longo do tempo.

Também não quer dizer que todas as dores de cabeça desses dias sejam enxaqueca. Só o teu médico pode distinguir uma coisa da outra, e é para isso que servem as informações que levas à consulta: datas, duração, intensidade e sintomas que acompanham a dor.

E as hormonas, que papel têm na crise?

Convém ser honesta quanto aos limites: a ligação entre o ciclo e as crises está descrita, mas não se resume a uma explicação simples e única. A CUF lembra que a menstruação é um desencadeante entre vários, ao lado do stress, do jejum, das alterações do sono, de certos alimentos e do álcool. É por isso que uma mesma pessoa pode ter crises mais ou menos fortes consoante o resto do mês estiver a correr.

Imagina um mês em que dormiste mal, saltaste refeições e tinhas muito trabalho, e a menstruação chegou nessa altura. Pode ser que a crise desse mês seja mais difícil do que num mês calmo. É só um exemplo para mostrar como os fatores se somam, não uma regra que se aplique a todas.

Por isso, em vez de procurares uma única causa, é mais útil olhar para o conjunto. O ciclo é uma peça do puzzle, e perceber as outras peças (sono, stress, refeições) pode ajudar-te a reconhecer o que costuma acontecer antes das tuas crises.

Como saber se as tuas crises seguem o ciclo?

A forma mais fiável é registar cada crise e o dia do ciclo durante alguns meses. Um único mês diz pouco, porque os desencadeantes variam. Vários meses mostram se as crises caem repetidamente à volta da menstruação.

O que vale a pena apontar:

  • o dia em que a crise começou e o dia do ciclo (dia 1 é o primeiro dia da menstruação);
  • a duração e a intensidade da dor;
  • sintomas associados, como náuseas, sensibilidade à luz ou aura (perturbações visuais ou sensitivas antes da dor);
  • outros fatores desse período: sono, stress, refeições saltadas, ecrãs. Se te perguntas se os ecrãs contam, temos um artigo sobre enxaqueca e ecrãs;
  • o que tomaste e se ajudou, para falares com o médico.

A própria MiGRA Portugal disponibiliza um calendário mensal para registo de crises, em papel, se preferires começar assim. E a CUF recomenda registar os comportamentos e procurar associações que expliquem as crises, em Aprenda a aliviar os sintomas da enxaqueca.

Há outros momentos hormonais com mais risco de enxaqueca?

Sim, a gravidez, a toma de pílula e a transição para a menopausa também podem mudar o padrão das crises. Cada fase tem o seu efeito, e não é igual para todas as mulheres.

  • Gravidez. A CUF refere que a enxaqueca pode atenuar-se ou desaparecer durante a gravidez, mas não é uma garantia.
  • Perimenopausa. Segundo a CUF, é a fase de transição antes da menopausa, em que os ovários produzem estrogénio de forma irregular e as hormonas sobem e descem sem previsibilidade.
  • Síndrome pré-menstrual. A CUF refere que a TPM pode agravar alguns problemas de saúde, entre eles a enxaqueca.

Se a enxaqueca também corre na tua família, podes ler o que se sabe sobre enxaqueca hereditária.

A pílula pode mudar a enxaqueca?

Pode, e nem sempre da mesma forma. A CUF refere que a pílula pode agravar a enxaqueca de forma ocasional.

O ponto mais importante é a aura. Se tens aura, é essencial que o teu médico saiba antes de qualquer decisão sobre contraceção.

Existem métodos sem estrogénios. O SNS 24 indica, por exemplo, que o implante contracetivo liberta apenas progestagénio e pode ser usado por mulheres que não podem ou não querem tomar estrogénios. Qual método faz sentido para ti é uma conversa para o teu médico de família, ginecologista ou neurologista. Não pares nem mudes a pílula por tua conta.

O que podes fazer quando a enxaqueca menstrual aparece?

Podes preparar-te, tratar a crise cedo e falar com o médico sobre o que se adequa ao teu caso. Não existe um truque que resolva tudo, e a enxaqueca, como lembra a CUF, não tem cura, mas os sintomas podem ser aliviados.

Algumas ideias gerais, sem substituir o aconselhamento médico:

  • Conhece a tua janela. Se sabes que a crise tende a aparecer à volta da menstruação, podes tentar manter nesses dias o sono regular, as refeições a horas e menos stress, já que estes fatores também são desencadeantes segundo a CUF.
  • Não adies o tratamento da crise. A CUF aconselha a tomar cedo um medicamento que alivie a dor, para evitar que o desconforto se intensifique. Qual medicamento, e como, deve ser indicado pelo teu médico.
  • Descansa num sítio escuro. A CUF refere que o descanso, aliado à ausência de luz, ajuda a aliviar os sintomas.
  • Leva os teus registos à consulta. Um padrão claro de vários ciclos ajuda o médico a perceber se é enxaqueca menstrual e a ponderar opções, como medidas preventivas ou ajustes na contraceção.

Se as crises te limitam a vida de forma regular, vale a pena procurar ajuda em vez de aguentar. Na nossa página sobre gerir a enxaqueca explicamos, de forma informativa, as opções de que o teu médico te pode falar.

Conclusão: o teu ciclo não é uma culpa, mas pode ser conhecido

A enxaqueca menstrual não é fraqueza nem exagero. Tem uma ligação descrita com o ciclo menstrual e pode ser acompanhada com paciência.

O melhor primeiro passo é simples: observar. Registar crises e dias do ciclo durante alguns meses transforma "tenho sempre dor de cabeça nesta altura" em informação concreta, e é isso que facilita uma boa conversa com o teu médico.

Perguntas frequentes

A enxaqueca menstrual é o mesmo que dor de cabeça da TPM?

Não necessariamente. A síndrome pré-menstrual é um conjunto de sintomas que mudam com as flutuações hormonais do ciclo, e a CUF refere que pode agravar problemas como a enxaqueca. A enxaqueca menstrual é um padrão específico de crises ligado à menstruação, e só um médico pode dizer qual é o teu caso.

Tenho enxaqueca com aura: posso tomar a pílula?

Isso depende da pílula e do teu historial, e é uma decisão para o médico. Diz-lhe que tens aura antes de qualquer decisão sobre contraceção. Não pares a pílula sem falar antes com um profissional de saúde.

Como saber se as minhas crises seguem o ciclo menstrual?

A forma mais fiável é registar cada crise e o dia do ciclo durante alguns meses, porque um único mês diz pouco. Aponta o dia de início, a duração, a intensidade e outros fatores como sono, stress e refeições saltadas. Depois, leva esses registos ao teu médico.

A enxaqueca pode mudar na gravidez ou na menopausa?

Sim. Segundo a CUF, a enxaqueca pode atenuar-se ou desaparecer na gravidez ou na menopausa, mas não é uma garantia. O padrão das crises não é igual para todas as mulheres, por isso vale a pena falar com o teu médico.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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