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Mãe com trança consola a filha de olhos fechados, que leva a mão à cabeça com dor
Viver com enxaqueca

Enxaqueca em crianças e adolescentes: o guia para pais

Por Laurine Nicoletti11 min

O teu filho chega da escola a dizer que lhe dói a cabeça, fica pálido, quer o quarto escuro e, meia hora depois, vomita. Ou a tua filha adolescente falta às aulas "outra vez" por causa de uma dor que ninguém vê. Perguntas-te se é normal, se é grave, se a enxaqueca em crianças é a mesma que tu tens.

A enxaqueca em crianças existe, é mais comum do que se pensa e nem sempre se parece com a dos adultos. Neste guia explicamos como a reconhecer, quando procurar ajuda, o que costuma aliviar uma crise e como apoiar o teu filho em casa e na escola. Tudo sem alarmismo e sem substituir o teu médico. Podes ver o enquadramento geral de tratamento e dia a dia na nossa página Viver com enxaqueca.

Em resumo

  • Segundo a CUF, a enxaqueca em crianças tende a ser bilateral, menos intensa e de duração mais curta do que nos adultos, com vómitos e olheiras muito marcados.
  • Segundo a Sociedade Portuguesa de Pediatria, uma criança com dor de cabeça deve ser vista por um médico se a dor a acordar de noite, piorar ao longo do tempo ou vier com febre, rigidez do pescoço ou comportamento estranho.
  • Segundo a Sociedade Portuguesa de Pediatria, o repouso num local sossegado e com pouca luz resolve muitas vezes a crise, mas os medicamentos só devem ser dados com indicação do médico.
  • A CUF recomenda um diário de cefaleias, com a frequência das dores, a medicação usada e os fatores desencadeantes, para levar à consulta.

A enxaqueca em crianças é igual à dos adultos?

Parecida, mas não igual. De acordo com a CUF, cerca de 20% das crianças e adolescentes têm dores de cabeça crónicas, e as causas mais frequentes são as mesmas dos adultos: a enxaqueca e a cefaleia de tensão.

As diferenças estão na forma como se manifesta. Na criança, a dor é menos vezes de um só lado da cabeça e pode ser sentida na testa ou atrás dos olhos. Segundo a CUF, a enxaqueca na criança tende a ser bilateral, menos intensa e de duração mais curta, e os vómitos e as olheiras podem ser muito marcados.

A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria explica que nos adolescentes a dor tende a localizar-se de um dos lados, como nos adultos, enquanto nas crianças mais pequenas é frequentemente nos dois lados, na zona da testa.

Como reconhecer uma crise no teu filho ou na tua filha

As crianças nem sempre dizem "tenho dor de cabeça". Podem dizer que estão "mal dispostas", que lhes dói a barriga ou simplesmente deixar de brincar e pedir para deitar. Observar o comportamento ajuda tanto como ouvir.

Sinais que costumam surgir numa crise:

  • dor de cabeça que atrapalha o que a criança estava a fazer;
  • incómodo com a luz e com o barulho;
  • palidez, náuseas e vómitos;
  • vontade de ficar num sítio sossegado e escuro;
  • alterações de humor e olheiras.

A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria descreve este quadro: dor que interfere com as atividades, luz e ruído que incomodam, criança mais pálida e com vómitos. A CUF refere ainda náuseas, visão turva e alterações de humor.

E se houver aura?

Algumas crianças têm aura, ou seja, sintomas que avisam que a dor vai chegar. Podem ver luzes, linhas quebradas ou manchas negras, como explica a CUF. A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria acrescenta que pode haver dificuldade em falar, alteração do equilíbrio ou falta de força.

Se for a primeira vez que o teu filho tem sintomas assim, não esperes: fala com o médico. Mesmo que acabem por ser aura de enxaqueca, convém que seja um profissional a confirmar.

Quanto tempo dura?

Na criança, a CUF refere que a duração costuma ser mais curta do que no adulto. Por isso, uma crise que passa com uma soneca não quer dizer que "não era nada".

Enxaqueca ou dor de cabeça de tensão?

Muitas dores de cabeça das crianças são cefaleias de tensão, que costumam ser mais leves e não vêm com tantos vómitos nem com tanta sensibilidade à luz. Distinguir as duas é trabalho do médico, que se baseia sobretudo na história que lhe contas e na observação da criança.

A CUF explica que, na maioria dos casos, perguntar pelas características da dor, observar a criança e fazer um exame neurológico completo bastam para chegar ao diagnóstico. Exames como TAC ou ressonância não são, por regra, o ponto de partida.

É hereditário? E o que pode desencadear uma crise?

A enxaqueca tem componente genética e, segundo a CUF, em muitas crianças encontram-se familiares com o mesmo problema. Se tens enxaqueca, isso não significa que o teu filho vá tê-la com certeza. Explicamos o que se sabe no artigo Enxaqueca hereditária: é genética e vais transmiti-la aos teus filhos?.

Além disso, existem fatores que podem desencadear as crises. A CUF enumera:

  • o stress;
  • a falta de exercício físico regular;
  • horários irregulares de sono e de refeições;
  • o ciclo menstrual, nas adolescentes;
  • em casos raros, certos alimentos.

A mesma fonte indica que o jejum prolongado e o exercício físico muito intenso também podem desencadear crises.

Cada criança reage de forma diferente. O que desencadeia as crises da tua filha pode não ter efeito no teu filho, e muitas vezes é a combinação de fatores (dormir mal, saltar o lanche e ter um teste no dia seguinte) que pesa. Sobre ecrãs, a história é mais nuançada do que "a luz azul faz mal": vê Enxaqueca e ecrãs: a luz azul é mesmo a culpada?.

Quando levar a criança ao médico sem esperar?

A maioria das dores de cabeça das crianças não é perigosa, mas há sinais que pedem avaliação. Segundo a Sociedade Portuguesa de Pediatria, deves procurar ajuda médica quando a criança tem:

  • dor muito forte e súbita que não melhora com a medicação;
  • dor que se torna mais frequente ou mais intensa ao longo de dias ou semanas;
  • dor de manhã ou que acorda a criança a meio da noite;
  • dor com febre, vómitos, rigidez do pescoço, sonolência excessiva, comportamento estranho, alterações da visão ou desequilíbrio ao andar.

A mesma fonte indica que crianças com menos de 6 anos e com dor de cabeça persistente ou recorrente devem ser observadas. A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria acrescenta outra regra simples: consulta sempre que a dor seja intensa e diferente do habitual, e sempre que tu, como pai ou mãe, estiveres preocupado ou com dúvidas.

Se achares que é uma situação urgente, podes ligar antes para o SNS 24 (808 24 24 24) e seguir as indicações, ou dirigir-te à urgência. Não precisas de ter a certeza do que se passa para pedir ajuda.

Que médico consulta uma criança com enxaqueca?

O ponto de partida é normalmente o pediatra ou o médico de família, que conhece o historial da criança e decide se é preciso encaminhar. Em casos mais frequentes, difíceis de controlar ou com sintomas pouco habituais, pode ser referenciada para neuropediatria ou para uma consulta de cefaleias.

A CUF refere que a abordagem global da enxaqueca deve ser orientada por um especialista. Mesmo assim, em muitas famílias o acompanhamento faz-se com o pediatra assistente e funciona bem.

O que ajuda numa crise?

Em casa, o primeiro passo é muito simples: parar, deitar e baixar os estímulos. A Sociedade Portuguesa de Pediatria refere que, na enxaqueca e na cefaleia de tensão, a dor resolve muitas vezes com sono ou repouso num local sossegado e com pouca luz. A CUF também destaca que o sono costuma dar bons resultados nas crianças.

Quanto aos medicamentos, a decisão é sempre do médico. A Sociedade Portuguesa de Pediatria explica que, nas dores mais intensas, pode ser necessário um analgésico como o paracetamol ou o ibuprofeno, em dose adequada ao peso da criança e após prescrição médica, e que quanto mais cedo for dado no início das queixas, mais eficaz tende a ser. Não ajustes nem mudes nada por tua conta: pede ao médico um plano claro, para saberes o que fazer quando a crise surgir.

E o tratamento de fundo, para prevenir?

Nem todas as crianças precisam dele. A CUF explica que, na maioria dos casos, evitar os desencadeantes e usar analgésicos comuns pode ser o único tratamento necessário.

Se as crises forem muito frequentes, o médico pode considerar um tratamento preventivo. Segundo a Sociedade Portuguesa de Pediatria, é um tratamento usado diariamente durante um período de tempo para reduzir o número e a intensidade dos episódios, e exige seguimento regular na consulta. Fala com o médico sobre o que faz sentido no teu caso.

Hábitos que costumam fazer parte do plano

Entre as medidas habituais estão o sono regular, o horário das refeições, a hidratação adequada (sobretudo nos dias de calor), o desporto e evitar situações de stress. Não é uma lista de proibições: é criar uma rotina que o corpo agradeça. Podes ver mais ideias na nossa página Desencadeantes da enxaqueca.

Enxaqueca e escola: como ajudar

A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria descreve as cefaleias como uma causa frequente de absentismo escolar. Quando a dor aparece durante as aulas, a criança precisa de um sítio calmo para descansar e de saber que não vai ser penalizada por isso.

Algumas ideias práticas para falar com a escola:

  • combinar com o professor ou diretor de turma o que a criança pode fazer se tiver uma crise (ir à enfermaria, descansar, ligar aos pais);
  • pedir, se o médico achar adequado, uma declaração a explicar o diagnóstico;
  • ter alinhamento sobre testes e trabalhos que ficam para trás depois de uma crise;
  • lembrar que o lanche e a água fazem parte do plano, não são "desculpas".

Com adolescentes, vale a pena envolvê-los: perguntar-lhes o que os ajuda e o que lhes envergonha. Muitas vezes, o maior peso não é a dor, é ter de explicar aos outros que "não está a fingir".

Vai passar com a idade?

Ninguém consegue prometer. A evolução varia de criança para criança. Há crianças que melhoram muito e outras que continuam a ter crises na vida adulta, mas com ajuda médica e bons hábitos, a maioria aprende a viver bem com elas. Pergunta ao médico o que esperar no caso do teu filho ou da tua filha.

Como acompanhar a enxaqueca do teu filho

Um registo simples faz muita diferença na consulta. A CUF recomenda um diário de cefaleias e sugere levar à consulta o registo da frequência das dores, da medicação usada e dos fatores desencadeantes.

O que vale a pena anotar em cada crise:

  1. data e hora de início e duração;
  2. intensidade (por exemplo, numa escala de 0 a 10, ou com carinhas se for pequeno);
  3. sintomas (vómitos, luz, barulho, aura);
  4. o que aconteceu nas horas anteriores (sono, refeições, stress, ecrãs, ciclo menstrual);
  5. o que ajudou e o que a medicação fez.

O essencial para levares contigo

  • A enxaqueca em crianças é comum e pode parecer diferente da dos adultos: dor nos dois lados, crises mais curtas, náuseas e vómitos marcados.
  • O sono, o repouso num sítio calmo e com pouca luz ajudam muitas vezes. Medicamentos só com orientação do médico.
  • Dor que acorda a criança, que piora com o tempo ou que vem com febre, rigidez do pescoço ou alterações de comportamento merece avaliação médica.
  • Um diário de crises torna a consulta mais útil.
  • Falar com a escola e com o próprio filho ou filha faz parte do tratamento.

Perguntas frequentes

A enxaqueca em crianças é igual à dos adultos?

É parecida, mas não igual. Segundo a CUF, na criança a dor tende a ser bilateral, menos intensa e de duração mais curta, e os vómitos e as olheiras podem ser muito marcados.

Quando devo levar o meu filho ao médico por causa de uma dor de cabeça?

Segundo a Sociedade Portuguesa de Pediatria, deves procurar ajuda quando a dor é muito forte e súbita, fica mais frequente ou intensa, acorda a criança de noite ou vem com febre, vómitos, rigidez do pescoço, sonolência excessiva, alterações da visão ou desequilíbrio. Também deves consultar sempre que estiveres preocupado ou com dúvidas.

O que ajuda a criança durante uma crise de enxaqueca?

Segundo a Sociedade Portuguesa de Pediatria, a dor resolve muitas vezes com sono ou repouso num local sossegado e com pouca luz. Os medicamentos devem ser sempre decididos pelo médico.

A enxaqueca é hereditária?

Segundo a CUF, a enxaqueca tem componente genética e, em muitas crianças, existem familiares com o mesmo problema. Mas ter enxaqueca não significa que o teu filho vá tê-la com certeza.

Que informação devo levar à consulta?

A CUF recomenda levar um diário de cefaleias, com a frequência das dores, a medicação usada e os fatores desencadeantes. Anotar também a duração, a intensidade e os sintomas de cada crise torna a consulta mais útil.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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