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Homem de olhos fechados e expressão de dor segura um comprimido e um copo de água
Tratamentos

Triptanos para a enxaqueca: o que são e como funcionam

Por Laurine Nicoletti11 min

Tens uma crise de enxaqueca, já tomaste o analgésico habitual e a dor continua lá. Talvez o teu médico já te tenha falado em "triptanos", ou talvez tenhas lido o nome na caixa e ficado com dúvidas. Os triptanos para a enxaqueca são medicamentos criados especificamente para tratar a crise, e neste artigo explicamos-te o que são, como atuam, o que esperar deles e que cuidados ter.

Este texto é informativo e não substitui uma consulta. Qual o medicamento certo para ti, e como o tomar, é sempre uma decisão a tomar com o teu médico. Se queres ver o quadro geral dos tratamentos, tens uma visão de conjunto na nossa página Tratamentos da enxaqueca.

Em resumo

  • Os triptanos são medicamentos específicos para a enxaqueca, usados quando os analgésicos habituais não chegam, e atuam mesmo em crises mais intensas, segundo a CUF.
  • Funcionam melhor quando tomados cedo, de acordo com o Manual MSD, mas o momento ideal deve ser combinado com o médico.
  • Podem causar desconforto ou aperto no peito e não são indicados em caso de doença coronária ou hipertensão não controlada.
  • Usados com demasiada frequência, os medicamentos para a crise podem provocar cefaleia por abuso de medicação, por isso convém falar com o médico se precisas deles muitos dias por mês.

O que são os triptanos?

Os triptanos são um grupo de medicamentos específicos para a enxaqueca. Ao contrário de um analgésico comum, não foram pensados para qualquer dor de cabeça: foram desenvolvidos para atuar no mecanismo da crise de enxaqueca.

Segundo a CUF, os analgésicos e anti-inflamatórios são fármacos não específicos que só atuam nas crises leves ou moderadas, enquanto os triptanos são mais eficazes e atuam mesmo nas crises mais severas. É por isso que costumam ser reservados para quem não encontra alívio suficiente com os analgésicos habituais.

Nos folhetos informativos aprovados pelo Infarmed encontras vários nomes da família, como o sumatriptano, o rizatriptano, o zolmitriptano, o naratriptano e o frovatriptano. Todos pertencem ao mesmo grupo, mas cada um tem as suas particularidades, e por isso a escolha cabe ao médico.

Como funcionam os triptanos?

Os triptanos atuam em recetores da serotonina, uma substância que o cérebro usa para comunicar. De acordo com o Manual MSD para profissionais, são agonistas dos recetores de serotonina 5-HT1B e 1D, e provocam a contração (vasoconstrição) dos vasos sanguíneos ao ativar os recetores 5-HT1B.

Em linguagem simples: ajudam a travar os processos que fazem a dor da enxaqueca disparar, e não se limitam a "mascarar" a dor. Este mesmo mecanismo, a contração dos vasos, explica também alguns dos cuidados e contraindicações que vais ver mais abaixo.

Existem diferentes formas de administração. O Manual MSD refere que os triptanos estão disponíveis por via oral, intranasal e subcutânea (injeção), e que as formas subcutâneas são mais eficazes, mas também têm mais efeitos adversos. Qual a forma mais adequada é uma conversa para ter com o médico, sobretudo se tens náuseas ou vómitos logo no início da crise.

Quando tomar um triptano: o momento conta

Uma das ideias mais repetidas sobre os triptanos é que funcionam melhor no início da crise. O Manual MSD indica que são mais eficazes quando tomados cedo.

Muitas pessoas esperam, a pensar que é só uma dor de cabeça normal que vai passar. Esse reflexo é muito humano, mas pode fazer com que o tratamento chegue tarde. Se o teu médico te receitou um triptano, pergunta-lhe exatamente em que momento da crise o deve tomar, porque as indicações variam de pessoa para pessoa e de medicamento para medicamento.

Se tens aura (as perturbações visuais ou sensoriais que antecedem a dor em algumas pessoas), esta é também uma pergunta específica a fazer ao teu médico. Para perceberes melhor a diferença entre as várias fases de uma crise, podes ler o nosso pilar Sintomas da enxaqueca.

Que efeitos secundários podem causar?

Como qualquer medicamento, os triptanos podem dar efeitos indesejáveis. Os mais falados são sensações desconfortáveis no peito, na garganta ou no pescoço. O resumo das características do medicamento de um triptano aprovado pelo Infarmed (o frovatriptano) descreve cansaço e desconforto no peito, com sensação de peso, pressão ou aperto, como efeitos frequentes. Podem ser transitórios, mas há situações em que é preciso avaliação médica.

O mesmo documento indica que, se os sintomas sugerirem uma doença cardíaca isquémica, não deve ser tomada nenhuma dose adicional e devem ser feitos os exames apropriados. Por isso, se sentires um aperto no peito intenso, dor que se estende à garganta ou qualquer sintoma que te preocupe, contacta um profissional de saúde. Em Portugal podes ligar para o SNS 24 (808 24 24 24) ou, em caso de urgência, para o 112.

Cada pessoa reage de forma diferente. O folheto informativo do teu medicamento lista todos os efeitos possíveis, e vale a pena lê-lo com calma e levar as dúvidas à consulta.

Quem não deve tomar triptanos? As contraindicações importantes

Como os triptanos contraem os vasos sanguíneos, não são indicados para todas as pessoas. O Manual MSD explica que podem causar constrição da artéria coronária e, por isso, são contraindicados em pessoas com doença coronária ou hipertensão não controlada. Nos idosos e em quem tem fatores de risco vasculares, devem ser usados com cautela.

O resumo das características do medicamento aprovado pelo Infarmed (o já citado) acrescenta que estão contraindicados em quem tem antecedentes de enfarte do miocárdio, doença cardíaca isquémica, vasospasmo coronário, doença vascular periférica ou hipertensão não controlada.

Por isso é essencial que o médico conheça o teu historial completo, incluindo a tensão arterial, os antecedentes cardiovasculares na família e todos os medicamentos que tomas. Uma nota importante: o folheto de alguns triptanos alerta também para não tomar em simultâneo medicamentos da mesma classe, como o sumatriptano, o naratriptano ou o zolmitriptano. Não combines nada por tua conta.

E se não posso tomar triptanos?

Há alternativas. O Manual MSD refere que, quando os triptanos são contraindicados por doenças cardiovasculares, se pode recorrer ao lasmiditano ou a um gepante (como o ubrogepante ou o rimegepante). Cabe ao médico avaliar se alguma destas opções faz sentido para ti e se está disponível no teu caso.

O perigo de usar demasiado: a cefaleia por abuso de medicação

Aqui está um ponto que muitas pessoas desconhecem. Tomar medicamentos para a crise com demasiada frequência pode, paradoxalmente, aumentar as dores de cabeça. A isto chama-se cefaleia por abuso de medicação (ou cefaleia "de rebote").

Segundo o METIS, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, trata-se de uma dor de cabeça que ocorre 15 ou mais dias por mês, como consequência do uso excessivo de medicação para tratar as crises, normalmente durante mais de 3 meses, e que melhora quando a medicação é suspensa. Surge apenas em pessoas que já têm dores de cabeça crónicas, mais frequentemente por enxaqueca ou cefaleia de tensão.

No caso dos triptanos, o Manual MSD para profissionais refere o uso em 10 ou mais dias por mês como um dos limiares associados a este problema. A versão para o público do mesmo manual indica que afeta cerca de 1% a 2% da população geral e é mais comum nas mulheres do que nos homens.

O que fazer com esta informação? Não precisas de ter medo, e não deves parar nem reduzir um medicamento por tua iniciativa. Mas se te apercebes de que estás a recorrer à medicação para a crise com muita frequência, fala com o teu médico. Pode ser sinal de que é altura de rever a estratégia, por exemplo com um tratamento preventivo, como os que explicamos no artigo sobre o Botox na enxaqueca crónica.

Receita, acesso e acompanhamento em Portugal

Os triptanos são medicamentos que devem ser avaliados e acompanhados por um profissional de saúde. Na prática, o ponto de partida é o médico de família, que te pode acompanhar ou encaminhar para neurologia, sobretudo se as crises são frequentes, intensas ou se os analgésicos já não chegam. Algumas unidades de saúde têm consultas dedicadas às cefaleias, como a Consulta de Cefaleia da CUF.

Sobre preços e comparticipação, não encontrámos uma fonte oficial atualizada que possamos citar com segurança, por isso preferimos não avançar valores. O teu médico e o teu farmacêutico são as melhores pessoas para te dizer o que está disponível e quanto custa no teu caso.

Como saber se o teu triptano te serve?

Responder a "está a funcionar?" é difícil quando só nos lembramos da última crise, e a memória da dor costuma ser pouco fiável. Um registo simples ajuda muito a ter uma conversa concreta com o médico. Convém anotar:

  • a hora a que a crise começou e a hora a que tomaste o medicamento;
  • a intensidade da dor antes e algum tempo depois;
  • se a dor voltou durante o mesmo dia;
  • os efeitos secundários que sentiste;
  • quantos dias por mês precisas de tomar medicação para a crise.

Com estes dados, o médico pode perceber se o triptano está a ser eficaz, se o momento da toma é o ideal ou se vale a pena ajustar a abordagem. Isto não é algo que consigas decidir sozinha, mas podes chegar à consulta muito mais bem preparada.

Em resumo: o que convém reter

  • Os triptanos são medicamentos específicos para a enxaqueca, usados quando os analgésicos habituais não chegam, e atuam mesmo em crises mais intensas.
  • Funcionam melhor quando tomados cedo, mas o momento ideal deve ser combinado com o médico.
  • Podem causar efeitos como desconforto ou aperto no peito, e não são indicados em algumas situações, sobretudo problemas cardiovasculares ou tensão arterial não controlada.
  • Usados com demasiada frequência, podem contribuir para a cefaleia por abuso de medicação. Conta os dias, não apenas os comprimidos.
  • Existem outras opções quando os triptanos não são adequados. A decisão é sempre do teu médico.

Nada disto é uma promessa de que um triptano vai resolver tudo: a enxaqueca é uma condição complexa, e a melhor abordagem costuma combinar tratamento da crise, prevenção e compreensão dos teus próprios desencadeantes. Para a tua família, podes também consultar o nosso guia sobre enxaqueca em crianças e adolescentes.

Perguntas frequentes

O que são os triptanos?

São um grupo de medicamentos específicos para a enxaqueca, desenvolvidos para atuar no mecanismo da crise e não apenas para qualquer dor de cabeça. Segundo a CUF, são mais eficazes do que os analgésicos comuns e atuam mesmo nas crises mais severas.

Quando é melhor tomar um triptano?

Segundo o Manual MSD, os triptanos são mais eficazes quando tomados cedo, no início da crise. O momento exato varia de pessoa para pessoa e de medicamento para medicamento, por isso deve ser combinado com o médico.

Quem não deve tomar triptanos?

Como contraem os vasos sanguíneos, são contraindicados em pessoas com doença coronária ou hipertensão não controlada, de acordo com o Manual MSD. Nos idosos e em quem tem fatores de risco vasculares devem ser usados com cautela, sempre sob indicação médica.

Os triptanos podem causar dores de cabeça por uso excessivo?

Sim. Segundo o Manual MSD, o uso de triptanos em 10 ou mais dias por mês é um dos limiares associados à cefaleia por abuso de medicação. Não deves parar ou reduzir o medicamento por tua iniciativa: se recorres a ele com muita frequência, fala com o teu médico.

Existem alternativas se não posso tomar triptanos?

Segundo o Manual MSD, quando os triptanos são contraindicados por doenças cardiovasculares, pode recorrer-se ao lasmiditano ou a um gepante. Cabe ao médico avaliar se alguma destas opções faz sentido no teu caso.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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