
Magnésio para enxaqueca: que forma escolher e porque não há uma dose única
Tens enxaquecas com frequência, ouviste dizer que o magnésio ajuda e já estás diante da prateleira da farmácia, a olhar para dez caixas diferentes. Citrato, óxido, bisglicinato, pó, comprimidos efervescentes: por onde se começa?
O magnésio para enxaqueca é uma das opções de prevenção mais faladas, mas não é uma solução garantida, e a «melhor forma» e a «dose certa» dependem de ti, da tua saúde e da medicação que tomas. Neste artigo explico o que as fontes portuguesas dizem, o que fica por provar e como falar disto com o teu médico ou farmacêutico. Faz parte do nosso tema Tratamentos da enxaqueca, onde reunimos tudo o que pode ajudar a ter menos crises.
Em resumo
- Segundo a CUF, a suplementação com magnésio é por vezes usada para controlar enxaquecas, mas as fontes portuguesas consultadas não permitem dizer até que ponto previne as crises.
- Nas fontes oficiais portuguesas consultadas, nenhuma forma de magnésio (citrato, óxido, bisglicinato) é apontada como a melhor para a enxaqueca.
- A dose depende da forma, da alimentação, da função renal e da medicação, por isso deve ser decidida com um médico ou farmacêutico.
- Segundo a CUF, na maioria dos casos privilegia-se reforçar a alimentação, e não se recomendam suplementos de magnésio sem prescrição ou autorização médica.
Porque se fala tanto de magnésio na enxaqueca?
O magnésio é um mineral presente em todo o corpo. Segundo a DGS, no Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, funciona como cofator de mais de 300 enzimas, que regulam reações químicas como a síntese de proteínas, a função muscular e nervosa, o controlo da glicemia e a tensão arterial. A CUF refere igualmente que o magnésio intervém em cerca de 300 reações bioquímicas nos ossos, sangue, músculos e sistema nervoso.
Como o sistema nervoso faz parte da lista, é natural que se tenha investigado o magnésio na enxaqueca. A mesma página da CUF indica que a suplementação com magnésio é por vezes usada para controlar enxaquecas, a par de outras situações como ansiedade ou problemas de sono.
Isto ainda não quer dizer que toda a pessoa com enxaqueca tenha falta de magnésio. Nas fontes portuguesas que consultei não encontrei um número fiável sobre isso, por isso não te vou dar nenhum. O que sabemos é o que vem a seguir.
O magnésio para enxaqueca funciona mesmo?
Não encontrei, nas fontes portuguesas que consultei, dados fiáveis que permitam dizer com segurança até que ponto o magnésio previne as crises. Na prática, isto significa que o magnésio não é uma garantia para toda a gente. Algumas pessoas podem notar menos crises, outras não notam diferença. Não há forma de saber de antemão em que grupo vais ficar.
Há também coisas que não está provado:
- que o magnésio trate uma crise que já começou;
- que o magnésio substitua um tratamento preventivo prescrito pelo médico;
- que uma forma de magnésio seja claramente superior às outras na enxaqueca (nas fontes portuguesas que consultei, essa comparação não aparece).
Se queres perceber melhor onde o magnésio se encaixa entre as restantes opções, a nossa página sobre como gerir a enxaqueca mostra o quadro completo, do tratamento da crise à prevenção.
As formas de magnésio: não são todas iguais?
Quando se fala em «forma» de magnésio, fala-se do sal a que o mineral está ligado: citrato, óxido, bisglicinato e outros. A CUF recorda que os suplementos existem em pastilhas, comprimidos ou pó, mas as fontes oficiais portuguesas que li não elegem um sal como o melhor para a enxaqueca.
Por isso, em vez de te dizer «compra este», prefiro dar-te perguntas úteis para levares à consulta ou à farmácia:
- Quanto magnésio puro há em cada toma? O rótulo nem sempre é claro: o peso do sal não é o mesmo que o peso do magnésio.
- Como é que o meu intestino costuma reagir? O efeito mais comum de um excesso de magnésio é a diarreia (falo mais abaixo).
- É um medicamento ou um suplemento alimentar? Os medicamentos têm um folheto aprovado pelo Infarmed, com contraindicações e interações descritas. Num suplemento, essa informação costuma ser mais curta.
- Tomo outros medicamentos? Isso pode mudar a escolha.
O farmacêutico é um bom aliado nesta fase, porque vê a tua medicação e sabe o que há disponível.
Que dose de magnésio devo tomar?
Aqui vou ser honesta: não te vou dar um número, e há razões para isso.
A dose depende da forma de magnésio, do que já comes, da tua função renal e da medicação que tomas. Escolher ou ajustar uma dose é uma decisão de tratamento personalizada, e deve ser tomada com um profissional de saúde que te conheça. Não é uma coisa que se resolva com uma tabela num blogue.
O que podes fazer é seguir o rótulo ou a indicação do médico ou do farmacêutico, e não juntar vários produtos com magnésio sem perguntar. Alguns produtos para o estômago, por exemplo, também contêm magnésio.
Quanto tempo demora a notar alguma coisa?
A enxaqueca é uma doença que varia de semana para semana. Uma crise mais leve num mês não prova que o magnésio resultou, tal como uma crise forte não prova o contrário.
Nas fontes portuguesas que consultei não encontrei um prazo oficial para avaliar o efeito do magnésio. É mais uma razão para registares as crises e combinares com o teu médico quanto tempo vale a pena experimentar antes de decidir se continuas.
Antes do comprimido: alimentos ricos em magnésio
A CUF indica que abacate, banana, beterraba, grão e espinafres fornecem magnésio, tal como os frutos secos (nozes, amêndoas, pistácios) e a quinoa. A DGS acrescenta que o magnésio está amplamente distribuído em sementes, frutos secos, leguminosas, hortícolas de folha verde escura, cereais pouco refinados e leite.
Ou seja, grande parte do que faz parte de uma alimentação variada à portuguesa (grão, feijão, hortícolas de folha, pão e cereais integrais, frutos secos) já traz magnésio. A CUF refere que, na maioria dos casos, os suplementos são recomendados em situações ou doenças específicas, privilegiando-se reforçar a alimentação.
Uma nota importante: saltar refeições também pode complicar as coisas. A CUF aponta o jejum e as alterações no horário do sono entre os desencadeantes frequentes da enxaqueca. Uma alimentação regular conta tanto como o que pões no prato.
Efeitos secundários e precauções
O magnésio é um mineral natural, mas isso não o torna inofensivo em qualquer circunstância. Estes são os pontos a ter em conta:
- Diarreia e desconforto intestinal. É o efeito mais comum de um excesso de magnésio. Se te acontecer, fala com o farmacêutico em vez de insistires.
- Problemas nos rins. Quem tem problemas renais precisa de aconselhamento médico antes de tomar magnésio, porque o mineral pode acumular-se no organismo.
- Outras condições de saúde. Se tens problemas cardíacos ou doenças neuromusculares, fala com o médico antes de começar.
- Interações. O magnésio pode interferir com alguns medicamentos. Se tomas medicação regular, pergunta ao farmacêutico como organizar as tomas.
A CUF também lembra que não é recomendável tomar suplementos de magnésio sem prescrição ou autorização médica. Gravidez e amamentação são situações em que isto é ainda mais importante, e a CUF recomenda seguir as indicações do médico assistente.
E o magnésio com vitamina B2?
Já viste suplementos que juntam magnésio e riboflavina (vitamina B2). Não encontrei uma fonte portuguesa que prove que a combinação é melhor do que cada substância em separado. Se te interessa, é uma boa pergunta para o médico: ele pode dizer-te se faz sentido no teu caso.
Quando falar com o médico antes de começar
Convém falar com o médico de família ou com o neurologista antes de começar, sobretudo se:
- tens problemas nos rins ou no coração;
- tomas medicação de forma regular (incluindo a que usas para a enxaqueca);
- estás grávida, a tentar engravidar ou a amamentar;
- as tuas crises são muito frequentes, estão a piorar ou mudaram de padrão.
Se as dores de cabeça fazem parte do teu dia a dia, convém ainda discutir outras opções de prevenção. Em casos específicos existem tratamentos prescritos, como o Botox na enxaqueca crónica, que o médico avalia consoante o teu caso.
Como saber se o magnésio está a funcionar para ti?
Sem registo, é muito difícil avaliar. A CUF aconselha que quem tem enxaqueca construa calendários para identificar os seus indícios e perceber o impacto na qualidade de vida. Para a consulta, sugere levar, se possível, um registo da frequência das dores de cabeça, da medicação usada e dos fatores desencadeantes.
Podes fazer isto de forma simples:
- Anota durante algumas semanas antes de começares, para teres um ponto de partida.
- Regista cada crise: dia, duração, intensidade e o que se passou nesse dia (sono, stress, refeições, menstruação).
- Muda uma coisa de cada vez. Se começares o magnésio e, ao mesmo tempo, alterares o sono e a alimentação, ficas sem saber o que fez diferença.
- Leva os dados à consulta e decide com o médico se vale a pena continuar.
Em resumo
- O magnésio é uma opção de prevenção muito falada, mas não é garantido que ajude.
- As fontes portuguesas que consultei não indicam qual é a melhor forma, por isso o ideal é decidir com o médico ou o farmacêutico.
- Não existe uma dose igual para todas as pessoas, e escolhê-la é uma decisão a tomar com um profissional de saúde.
- Os alimentos ricos em magnésio são um bom ponto de partida.
- Rins, medicação, gravidez e amamentação pedem conversa com o médico antes de começar.
- Registar as crises é a melhor maneira de perceber se está a resultar contigo.
Se já tentaste o magnésio e não notaste diferença, isso não significa que tenhas falhado: significa só que esta opção pode não ser a certa para ti. Há outras estratégias em Tratamentos da enxaqueca, e o teu médico pode ajudar-te a escolher a próxima.
Perguntas frequentes
O magnésio previne mesmo a enxaqueca?
Nas fontes portuguesas consultadas não há dados fiáveis que permitam dizer até que ponto o magnésio previne as crises. Algumas pessoas podem notar menos crises, outras não notam diferença. Também não está provado que o magnésio trate uma crise que já começou nem que substitua um tratamento preventivo prescrito pelo médico.
Que forma de magnésio é melhor para a enxaqueca?
As fontes oficiais portuguesas consultadas não elegem um sal de magnésio (citrato, óxido, bisglicinato) como o melhor para a enxaqueca. Vale a pena perguntar ao farmacêutico quanto magnésio puro há em cada toma, se é medicamento ou suplemento e se há interações com a medicação habitual.
Que dose de magnésio devo tomar?
Não existe uma dose igual para todas as pessoas: depende da forma de magnésio, da alimentação, da função renal e da medicação. Escolher ou ajustar a dose é uma decisão de tratamento personalizada, a tomar com um médico ou farmacêutico.
Quais são os efeitos secundários do magnésio?
O efeito mais comum de um excesso de magnésio é a diarreia e o desconforto intestinal. Quem tem problemas renais, cardíacos ou doenças neuromusculares, ou está grávida ou a amamentar, deve falar com o médico antes de começar.
Como saber se o magnésio está a funcionar?
O mais útil é registar as crises (dia, duração, intensidade e desencadeantes) durante algumas semanas antes e depois de começar. Convém mudar uma coisa de cada vez e levar os dados ao médico para decidir se vale a pena continuar.
Fontes
- Em que casos pode ser necessário tomar magnésio?
- Enxaqueca: o que é, sintomas e tratamento
- Magnésio - PNPAS - DGS
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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