← Voltar ao blog
Mulher pensativa entre vinho, queijo, chocolate e salame de um lado, salmão, frutas vermelhas, abacate e nozes do outro
Desencadeantes

Alimentos que causam enxaqueca: o que dizem os estudos e como descobrir os teus

Por Laurine Nicoletti9 min

Comeste um pedaço de queijo curado ao jantar e, na manhã seguinte, a cabeça latejava. Ou tomaste um copo de vinho tinto e ficaste a pensar que foi por isso. Quando se vive com enxaqueca, é natural procurar um culpado no prato e perguntar quais são, afinal, os alimentos que causam enxaqueca.

A resposta honesta sobre os alimentos que causam enxaqueca é menos simples do que as listas da internet fazem parecer. Alguns alimentos são referidos muitas vezes, mas não afetam toda a gente, e a relação nem sempre é clara. Neste artigo vais ver o que é mais mencionado, porque o chocolate é um caso à parte, o que pesa mais do que parece (saltar refeições e beber pouca água) e como descobrir o que se passa contigo. Faz parte do tema da prevenção da enxaqueca, onde reunimos os fatores que podem influenciar as crises.

Em resumo

  • Não existe uma lista de alimentos que causam enxaqueca igual para todas as pessoas: segundo a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, o tema é controverso e os estudos com dietas restritivas deram resultados contraditórios.
  • Queijos, chocolates, morangos, mariscos, vinhos e molhos artificiais são dos fatores mais referidos pela CUF, mas isso não prova que sejam a causa em todas as pessoas.
  • Saltar refeições, beber pouca água e variações de cafeína pesam muitas vezes mais do que um alimento isolado.
  • Para descobrir os teus gatilhos, o mais útil é registar cada crise e procurar repetições, em vez de cortar vários alimentos de uma vez.

Existem mesmo alimentos que causam enxaqueca?

Existem alimentos que muitas pessoas associam às crises, mas a ciência é mais cautelosa do que a conversa de café. A Sociedade Portuguesa de Cefaleias explica que, embora seja muito comum afirmar-se que os alimentos desencadeiam crises de enxaqueca, este é um assunto controverso. Nas pessoas que fizeram dietas restritivas, os resultados foram contraditórios.

Mais: quando se pede aos doentes que preencham em simultâneo um diário de cefaleias e um diário alimentar, não se nota uma relação clara entre as dores de cabeça e o tipo de alimentos. Isto não quer dizer que a tua experiência seja imaginada. Quer dizer que o efeito é muito individual e difícil de provar.

Quais são os alimentos e bebidas mais referidos?

Não é uma lista de proibições. É uma lista do que aparece com mais frequência nas descrições de quem tem enxaqueca, e que podes usar como ponto de partida para observar.

Segundo a CUF, os fatores mais frequentes incluem queijos, chocolates, morangos, mariscos, vinhos e molhos artificiais, a par de alterações do sono, stress, menstruação e jejum. Se nenhum destes alimentos te faz mal, não há razão para os cortares só por constarem de uma lista.

Chocolate: o suspeito número um

O chocolate é o suspeito número um, e talvez o mais mal interpretado. A CUF inclui-o entre os alimentos mais associados às crises, mas isso não prova que seja a causa em todas as pessoas. Sem um registo, é muito difícil perceber se o chocolate é de facto o gatilho ou apenas um dos muitos fatores presentes naquele dia, e voltamos a isso mais à frente.

O fator subestimado: saltar refeições e beber pouca água

Enquanto se discute o queijo e o chocolate, há dois fatores bem menos glamorosos que aparecem nas fontes portuguesas: o jejum e a desidratação.

A Sociedade Portuguesa de Cefaleias refere, entre os estímulos alimentares, o jejum prolongado, as bebidas alcoólicas e o excesso de cafeína.

Na prática, isto reconhece-se bem na vida real: o pequeno-almoço que ficou por fazer, a manhã de aulas ou reuniões sem tempo para almoçar, o dia inteiro com apenas dois cafés. Nesses dias, muitas vezes não é nada do que comeste, é o que não comeste ou bebeste.

E a água?

A desidratação, mesmo ligeira, pode provocar dores de cabeça, cansaço e dificuldade de concentração, segundo o SNS24. Para adultos, o SNS refere de forma geral cerca de 1,5 a 2 litros de água por dia, valor que varia com a atividade física, o calor e a idade. Se tens dúvidas sobre o que é adequado para ti, fala com o teu médico.

E a cafeína? Ajuda ou prejudica?

A cafeína tem um efeito ambíguo, e as próprias fontes dizem isso. Quem bebe café com regularidade pode ter dor de cabeça se interromper o hábito. Durante as crises, muitas pessoas melhoram com café, mas algumas pioram.

Por isso, a mensagem não é "corta o café" nem "bebe café". O que ajuda é perceber o teu padrão: quantos cafés bebes, a que horas, e o que acontece nos dias em que não bebes (fins de semana, férias). Aliás, esse é o género de coisa que costuma aparecer nas crises de fim de semana, quando a rotina muda.

Há alimentos que protegem da enxaqueca?

Aqui é preciso ter cuidado, porque o mercado dos "alimentos anti-enxaqueca" está cheio de promessas que ninguém comprovou. Não existe um alimento que previna a enxaqueca de forma garantida.

Também se fala de suplementos na prevenção da enxaqueca, mas tomá-los por conta própria não é uma boa ideia. Se te interessa o magnésio ou outro suplemento, fala primeiro com o teu médico, que sabe se faz sentido no teu caso e como o integrar.

E uma alimentação saudável em geral?

Uma alimentação equilibrada faz bem à saúde em geral, e é difícil ter refeições regulares sem alguma organização. A DGS descreve a dieta mediterrânica como um padrão com abundância de hortícolas, fruta, leguminosas, azeite como principal gordura e peixe com frequência. É um bom enquadramento para comer bem, mas nas fontes que consultámos não encontrámos evidência de que, só por si, previna a enxaqueca.

Como descobrir os teus gatilhos alimentares?

Se uma lista universal não existe, o que resta é observar. É o que a Sociedade Portuguesa de Cefaleias aconselha: usar o bom senso e retirar um alimento apenas se notares que, de cada vez que o comes, aparece uma crise. Cortar dez alimentos de uma vez é pouco útil e pode tornar a alimentação desnecessariamente restritiva.

Um método simples, em passos:

  1. Regista cada crise: dia, hora de início, intensidade e duração.
  2. Anota o que aconteceu nas 24 horas anteriores: refeições, bebidas, horas de sono, nível de stress, ecrãs e, se for o caso, fase do ciclo menstrual.
  3. Repara nas refeições que falharam, não só nas que fizeste.
  4. Procura repetições, não casos isolados. Uma crise depois de um queijo não prova nada, dez crises depois do mesmo queijo já começam a dizer algo.
  5. Se suspeitares de um alimento, evita-o durante algum tempo e vê o que acontece, de preferência com a orientação do teu médico.

Convém lembrar que um gatilho raramente age sozinho. Podes tolerar um copo de vinho numa semana tranquila e reagir a ele numa semana de pouco sono e muito stress. É por isso que olhar para um alimento isolado engana, e que o contexto conta tanto como o prato. O mesmo raciocínio aplica-se a outros fatores, como os ecrãs e a luz azul.

Porque é que um registo preciso muda tudo?

A memória prega-nos partidas. Lembramo-nos do chocolate de ontem e esquecemo-nos do almoço que não houve, do sono curto ou do período que estava a chegar. Um registo feito na altura mostra o conjunto, e não só o suspeito mais óbvio.

A Sociedade Portuguesa de Cefaleias aconselha manter um diário de cefaleias que inclua frequência, intensidade, fatores desencadeantes, relação com o ciclo menstrual, medicação usada e resposta ao tratamento. Um registo assim também torna a consulta com o médico muito mais útil, porque tem dados concretos em vez de impressões.

Em resumo: menos proibições, mais observação

Não existe uma lista de alimentos que causam enxaqueca igual para todas as pessoas. Há alimentos e bebidas muito referidos (queijos, chocolate, álcool, cafeína), mas o efeito é individual e, em muitos casos, difícil de provar.

O que costuma ser mais útil é o básico: refeições regulares, água ao longo do dia, atenção à cafeína e um registo honesto das tuas crises. A enxaqueca não tem cura, mas é possível reduzir as crises e controlar os sintomas ao reconhecer o que as desencadeia. Se as crises forem frequentes ou te limitarem o dia a dia, marca consulta com o teu médico de família ou com um neurologista.

Perguntas frequentes

Existem mesmo alimentos que causam enxaqueca?

Muitas pessoas associam certos alimentos às crises, mas a Sociedade Portuguesa de Cefaleias considera o assunto controverso. Os resultados das dietas restritivas foram contraditórios, e o efeito parece muito individual e difícil de provar.

Quais são os alimentos mais referidos nas crises de enxaqueca?

Segundo a CUF, os fatores mais frequentes incluem queijos, chocolates, morangos, mariscos, vinhos e molhos artificiais, a par de alterações do sono, stress, menstruação e jejum. Não é uma lista de proibições: se um alimento não te faz mal, não há razão para o cortar.

Saltar refeições ou beber pouca água pode causar dor de cabeça?

A Sociedade Portuguesa de Cefaleias refere o jejum prolongado entre os estímulos alimentares, e o SNS24 indica que a desidratação, mesmo ligeira, pode provocar dores de cabeça. Se tens dúvidas sobre o que é adequado para ti, fala com o teu médico.

Como descobrir os meus gatilhos alimentares?

O mais útil é registar cada crise e anotar o que aconteceu nas 24 horas anteriores, como refeições, bebidas, sono e stress. Depois procura repetições, não casos isolados, e fala com o teu médico antes de eliminar alimentos.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

Artigos relacionados

Todos os artigos «Desencadeantes»

Descarrega a Mellow

Gratuita para descarregar. Regista a tua primeira crise em poucos segundos.

4,8 em 62 classificações
Descarregar na App StoreObter no Google Play