
Alimentos que causam enxaqueca: o que dizem os estudos e como descobrir os teus
Comeste um pedaço de queijo curado ao jantar e, na manhã seguinte, a cabeça latejava. Ou tomaste um copo de vinho tinto e ficaste a pensar que foi por isso. Quando se vive com enxaqueca, é natural procurar um culpado no prato e perguntar quais são, afinal, os alimentos que causam enxaqueca.
A resposta honesta sobre os alimentos que causam enxaqueca é menos simples do que as listas da internet fazem parecer. Alguns alimentos são referidos muitas vezes, mas não afetam toda a gente, e a relação nem sempre é clara. Neste artigo vais ver o que é mais mencionado, porque o chocolate é um caso à parte, o que pesa mais do que parece (saltar refeições e beber pouca água) e como descobrir o que se passa contigo. Faz parte do tema da prevenção da enxaqueca, onde reunimos os fatores que podem influenciar as crises.
Em resumo
- Não existe uma lista de alimentos que causam enxaqueca igual para todas as pessoas: segundo a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, o tema é controverso e os estudos com dietas restritivas deram resultados contraditórios.
- Queijos, chocolates, morangos, mariscos, vinhos e molhos artificiais são dos fatores mais referidos pela CUF, mas isso não prova que sejam a causa em todas as pessoas.
- Saltar refeições, beber pouca água e variações de cafeína pesam muitas vezes mais do que um alimento isolado.
- Para descobrir os teus gatilhos, o mais útil é registar cada crise e procurar repetições, em vez de cortar vários alimentos de uma vez.
Existem mesmo alimentos que causam enxaqueca?
Existem alimentos que muitas pessoas associam às crises, mas a ciência é mais cautelosa do que a conversa de café. A Sociedade Portuguesa de Cefaleias explica que, embora seja muito comum afirmar-se que os alimentos desencadeiam crises de enxaqueca, este é um assunto controverso. Nas pessoas que fizeram dietas restritivas, os resultados foram contraditórios.
Mais: quando se pede aos doentes que preencham em simultâneo um diário de cefaleias e um diário alimentar, não se nota uma relação clara entre as dores de cabeça e o tipo de alimentos. Isto não quer dizer que a tua experiência seja imaginada. Quer dizer que o efeito é muito individual e difícil de provar.
Quais são os alimentos e bebidas mais referidos?
Não é uma lista de proibições. É uma lista do que aparece com mais frequência nas descrições de quem tem enxaqueca, e que podes usar como ponto de partida para observar.
Segundo a CUF, os fatores mais frequentes incluem queijos, chocolates, morangos, mariscos, vinhos e molhos artificiais, a par de alterações do sono, stress, menstruação e jejum. Se nenhum destes alimentos te faz mal, não há razão para os cortares só por constarem de uma lista.
Chocolate: o suspeito número um
O chocolate é o suspeito número um, e talvez o mais mal interpretado. A CUF inclui-o entre os alimentos mais associados às crises, mas isso não prova que seja a causa em todas as pessoas. Sem um registo, é muito difícil perceber se o chocolate é de facto o gatilho ou apenas um dos muitos fatores presentes naquele dia, e voltamos a isso mais à frente.
O fator subestimado: saltar refeições e beber pouca água
Enquanto se discute o queijo e o chocolate, há dois fatores bem menos glamorosos que aparecem nas fontes portuguesas: o jejum e a desidratação.
A Sociedade Portuguesa de Cefaleias refere, entre os estímulos alimentares, o jejum prolongado, as bebidas alcoólicas e o excesso de cafeína.
Na prática, isto reconhece-se bem na vida real: o pequeno-almoço que ficou por fazer, a manhã de aulas ou reuniões sem tempo para almoçar, o dia inteiro com apenas dois cafés. Nesses dias, muitas vezes não é nada do que comeste, é o que não comeste ou bebeste.
E a água?
A desidratação, mesmo ligeira, pode provocar dores de cabeça, cansaço e dificuldade de concentração, segundo o SNS24. Para adultos, o SNS refere de forma geral cerca de 1,5 a 2 litros de água por dia, valor que varia com a atividade física, o calor e a idade. Se tens dúvidas sobre o que é adequado para ti, fala com o teu médico.
E a cafeína? Ajuda ou prejudica?
A cafeína tem um efeito ambíguo, e as próprias fontes dizem isso. Quem bebe café com regularidade pode ter dor de cabeça se interromper o hábito. Durante as crises, muitas pessoas melhoram com café, mas algumas pioram.
Por isso, a mensagem não é "corta o café" nem "bebe café". O que ajuda é perceber o teu padrão: quantos cafés bebes, a que horas, e o que acontece nos dias em que não bebes (fins de semana, férias). Aliás, esse é o género de coisa que costuma aparecer nas crises de fim de semana, quando a rotina muda.
Há alimentos que protegem da enxaqueca?
Aqui é preciso ter cuidado, porque o mercado dos "alimentos anti-enxaqueca" está cheio de promessas que ninguém comprovou. Não existe um alimento que previna a enxaqueca de forma garantida.
Também se fala de suplementos na prevenção da enxaqueca, mas tomá-los por conta própria não é uma boa ideia. Se te interessa o magnésio ou outro suplemento, fala primeiro com o teu médico, que sabe se faz sentido no teu caso e como o integrar.
E uma alimentação saudável em geral?
Uma alimentação equilibrada faz bem à saúde em geral, e é difícil ter refeições regulares sem alguma organização. A DGS descreve a dieta mediterrânica como um padrão com abundância de hortícolas, fruta, leguminosas, azeite como principal gordura e peixe com frequência. É um bom enquadramento para comer bem, mas nas fontes que consultámos não encontrámos evidência de que, só por si, previna a enxaqueca.
Como descobrir os teus gatilhos alimentares?
Se uma lista universal não existe, o que resta é observar. É o que a Sociedade Portuguesa de Cefaleias aconselha: usar o bom senso e retirar um alimento apenas se notares que, de cada vez que o comes, aparece uma crise. Cortar dez alimentos de uma vez é pouco útil e pode tornar a alimentação desnecessariamente restritiva.
Um método simples, em passos:
- Regista cada crise: dia, hora de início, intensidade e duração.
- Anota o que aconteceu nas 24 horas anteriores: refeições, bebidas, horas de sono, nível de stress, ecrãs e, se for o caso, fase do ciclo menstrual.
- Repara nas refeições que falharam, não só nas que fizeste.
- Procura repetições, não casos isolados. Uma crise depois de um queijo não prova nada, dez crises depois do mesmo queijo já começam a dizer algo.
- Se suspeitares de um alimento, evita-o durante algum tempo e vê o que acontece, de preferência com a orientação do teu médico.
Convém lembrar que um gatilho raramente age sozinho. Podes tolerar um copo de vinho numa semana tranquila e reagir a ele numa semana de pouco sono e muito stress. É por isso que olhar para um alimento isolado engana, e que o contexto conta tanto como o prato. O mesmo raciocínio aplica-se a outros fatores, como os ecrãs e a luz azul.
Porque é que um registo preciso muda tudo?
A memória prega-nos partidas. Lembramo-nos do chocolate de ontem e esquecemo-nos do almoço que não houve, do sono curto ou do período que estava a chegar. Um registo feito na altura mostra o conjunto, e não só o suspeito mais óbvio.
A Sociedade Portuguesa de Cefaleias aconselha manter um diário de cefaleias que inclua frequência, intensidade, fatores desencadeantes, relação com o ciclo menstrual, medicação usada e resposta ao tratamento. Um registo assim também torna a consulta com o médico muito mais útil, porque tem dados concretos em vez de impressões.
Em resumo: menos proibições, mais observação
Não existe uma lista de alimentos que causam enxaqueca igual para todas as pessoas. Há alimentos e bebidas muito referidos (queijos, chocolate, álcool, cafeína), mas o efeito é individual e, em muitos casos, difícil de provar.
O que costuma ser mais útil é o básico: refeições regulares, água ao longo do dia, atenção à cafeína e um registo honesto das tuas crises. A enxaqueca não tem cura, mas é possível reduzir as crises e controlar os sintomas ao reconhecer o que as desencadeia. Se as crises forem frequentes ou te limitarem o dia a dia, marca consulta com o teu médico de família ou com um neurologista.
Perguntas frequentes
Existem mesmo alimentos que causam enxaqueca?
Muitas pessoas associam certos alimentos às crises, mas a Sociedade Portuguesa de Cefaleias considera o assunto controverso. Os resultados das dietas restritivas foram contraditórios, e o efeito parece muito individual e difícil de provar.
Quais são os alimentos mais referidos nas crises de enxaqueca?
Segundo a CUF, os fatores mais frequentes incluem queijos, chocolates, morangos, mariscos, vinhos e molhos artificiais, a par de alterações do sono, stress, menstruação e jejum. Não é uma lista de proibições: se um alimento não te faz mal, não há razão para o cortar.
Saltar refeições ou beber pouca água pode causar dor de cabeça?
A Sociedade Portuguesa de Cefaleias refere o jejum prolongado entre os estímulos alimentares, e o SNS24 indica que a desidratação, mesmo ligeira, pode provocar dores de cabeça. Se tens dúvidas sobre o que é adequado para ti, fala com o teu médico.
Como descobrir os meus gatilhos alimentares?
O mais útil é registar cada crise e anotar o que aconteceu nas 24 horas anteriores, como refeições, bebidas, sono e stress. Depois procura repetições, não casos isolados, e fala com o teu médico antes de eliminar alimentos.
Fontes
- Enxaqueca: o que é, sintomas e tratamento
- FAQs
- SNS24
- Hidratação e Alimentação em Dias Quentes: Beber Cerca de 15,L/2L de Água por Dia
- Dieta Mediterrânica • PNPAS
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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