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Mulher de olhos fechados e com a mão na têmpora diante de um portátil que emite luz azul
Desencadeantes

Enxaqueca e ecrãs: a luz azul é mesmo a culpada?

Por Laurine Nicoletti12 min

Passas o dia no computador e, ao fim da tarde, a cabeça começa a pesar. Ou estás no telemóvel à noite e, na manhã seguinte, acordas com uma crise. Não admira que a pergunta surja: a enxaqueca e os ecrãs andam de mãos dadas, e a luz azul é a culpada?

A resposta curta é que a história é mais complicada (e mais tranquilizadora) do que "a luz azul dá enxaqueca". Neste artigo vais ver o que se sabe sobre a luz azul, porque é que os ecrãs podem mesmo contribuir para a dor de cabeça, o que funciona na prática e como descobrir se são um gatilho no teu caso. Faz parte do nosso tema de prevenção da enxaqueca, onde falamos de tudo o que pode desencadear uma crise.

Em resumo

  • Não há prova de que a luz azul, por si só, provoque enxaqueca, mas tem efeito no sono, e as alterações do ritmo de sono estão entre os gatilhos mais frequentes das crises, segundo a CUF.
  • Os ecrãs podem causar dor de cabeça por cansaço visual, porque pestanejas menos e os olhos focam à mesma distância durante horas. Esta dor melhora com pausas e descanso.
  • Segundo a DECO Proteste, não há evidência científica que sustente os benefícios prometidos pelos óculos com filtro de luz azul.
  • Para saber se os ecrãs são um gatilho no teu caso, o melhor caminho é registar as crises e procurar padrões ao longo de várias semanas.

A luz azul dos ecrãs provoca enxaqueca?

Nas fontes portuguesas que consultámos, não há prova de que a luz azul, por si só, provoque enxaqueca. O que existe são indícios de que os ecrãs, no seu conjunto, podem contribuir para o desconforto e para outros fatores que favorecem as crises.

Primeiro, convém perceber o que é a luz azul. Representa cerca de um terço da luz visível e é essencial para o funcionamento do organismo, porque ajuda a regular o ritmo circadiano (o relógio interno que marca o sono e a vigília). Segundo as Farmácias Portuguesas, a questão é nuançada: a exposição à luz azul de aparelhos eletrónicos favorece fadiga ocular, dores de cabeça e alterações do sono, mas não está demonstrado que, nas condições habituais de utilização, cause danos permanentes nos olhos.

Ou seja, a luz azul não é uma vilã nem uma inocente total. Tem um efeito real sobre o sono, e o sono é um dos gatilhos mais conhecidos da enxaqueca.

Então porque te dói a cabeça à frente do ecrã?

Há várias explicações possíveis, e quase nenhuma tem a ver apenas com a cor da luz.

O esforço dos olhos

Quando olhas para um ecrã, estás concentrada nos pormenores e pestanejas menos. Há menos lubrificação e, como o olho fica muito tempo aberto, a lágrima evapora. Além disso, os olhos passam horas a focar à mesma distância, sem descanso.

A Sociedade Portuguesa de Oftalmologia reconhece que o aumento do tempo em frente a ecrãs, como no teletrabalho, trouxe mais queixas de cansaço ocular, pressão nos olhos, vista irritada e dor de cabeça, como explica o Observador. A boa notícia, segundo o mesmo especialista, é que estas alterações são reversíveis: desaparecem com o descanso.

Atenção: esta dor de cabeça por cansaço visual não é necessariamente uma enxaqueca. Se a dor é pulsátil, vem com náuseas ou te obriga a deitar-te no escuro, vale a pena ler o que é uma enxaqueca e falar com o teu médico.

O sono que se perde

A luz azul à noite pode bloquear a produção de melatonina, a hormona do sono, como referem as Farmácias Portuguesas. Mas há mais: ficar a ver séries ou a fazer scroll também atrasa a hora de ir para a cama, simplesmente porque o tempo passa.

E aqui está a ligação com a enxaqueca. A CUF indica que as alterações do ritmo de sono estão entre os fatores desencadeantes mais frequentes das crises, a par do stress, da menstruação e do jejum. Se o ecrã te rouba horas de sono, pode ser por aí que ele entra na equação.

O contexto à volta do ecrã

Passar horas ao computador costuma vir acompanhado de stress, prazos, poucas pausas, refeições saltadas e pouca água. Cada um destes pontos pode, por si, contar como gatilho. Por isso, muitas vezes o ecrã é o cenário da crise, não o único responsável.

A luz importa na enxaqueca, mas não só por ser azul

Aqui há uma nuance importante: a luz não é irrelevante para quem tem enxaqueca. Só que o problema não se resume à luz azul.

A CUF refere que luzes muito fortes (como as fluorescentes) e o uso prolongado de ecrãs podem desencadear enxaquecas oculares, e que a intolerância à luz é um sintoma comum nas crises. Esta sensibilidade chama-se fotofobia: a luz incomoda ou até dói.

Uma clínica de oftalmologia portuguesa explica que, em 2002, foi descoberto um tipo de célula na retina (as células ganglionares intrinsecamente fotossensíveis) que ajuda os olhos a adaptarem-se à luz ambiente. Segundo esta explicação, um mau funcionamento destas células poderá estar ligado à fotofobia e às náuseas das crises. É uma hipótese sobre o mecanismo, não uma regra que se aplique a toda a gente.

Na prática, isto quer dizer que:

  • o brilho forte, o contraste e a cintilação podem incomodar mais do que a cor;
  • uma sala escura com um ecrã muito luminoso pode ser pior do que um ecrã com luz ambiente suave;
  • ao ficares mais sensível à luz antes ou durante a crise, pode parecer que o ecrã a causou, quando na verdade já estavas a começar uma.

Esta última possibilidade é difícil de separar sem registos, e voltamos a ela mais abaixo.

Os óculos com filtro de luz azul funcionam?

É das perguntas mais frequentes e a resposta, para já, é desanimadora. A DECO Proteste conclui que não há, até hoje, evidência científica que sustente os benefícios prometidos por estes óculos (proteger a visão, reduzir o cansaço visual e melhorar o sono).

A Medicare recorda que a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia não corrobora a necessidade de usar óculos de luz azul. Cita também uma revisão sistemática da Cochrane com 17 estudos, que sugere que estas lentes podem não trazer vantagens, pelo menos a curto prazo, para a fadiga visual associada ao computador.

Isto não significa que nunca ajudem alguém. Significa que, se vais gastar dinheiro, convém saber que a evidência é fraca. Medidas simples e gratuitas têm um peso maior.

Estratégias que fazem sentido

Nenhuma destas dicas é uma cura, e nenhuma garante que as crises desaparecem. São ajustes de baixo custo que podem reduzir o desconforto dos olhos e proteger o sono.

  • Faz pausas regulares. A regra 20/20/20 é a mais citada: a cada 20 minutos, olha durante 20 segundos para algo a cerca de 6 metros. Olhar ao longe relaxa os músculos dos olhos e faz pestanejar mais, como refere o Observador.
  • Desliga os ecrãs antes de dormir. O Hospital Fernando Fonseca recomenda, para todas as idades, não usar ecrãs pelo menos 1 hora antes de dormir.
  • Descansa os olhos quando começam a doer. A CUF aconselha, perante sinais de enxaqueca ocular, fazer uma pausa nos ecrãs e ficar num local com pouca luz.
  • Cuida do resto. Dormir a horas regulares, comer sem saltar refeições e beber água ajudam em geral, porque estes pontos fazem parte dos gatilhos conhecidos.
  • Fala com um profissional de visão se sentes que vês desfocado ou te custa focar. Pode ser algo tão simples como precisar de uma revisão da graduação.

Como saber se os TEUS ecrãs são o problema

Aqui está o ponto mais útil de todo o artigo: a enxaqueca é muito individual. O que desencadeia a crise de uma pessoa pode ser indiferente para outra. A própria CUF refere que o primeiro passo na prevenção é identificar e, sempre que possível, afastar os fatores precipitantes.

Para isso, um registo simples ajuda mais do que a memória. Durante algumas semanas, anota:

  1. Quando a crise começou e quanto durou;
  2. Quanto tempo estiveste em ecrãs nas horas anteriores, e em que condições (luz ambiente, brilho, hora do dia);
  3. Como dormiste na noite anterior;
  4. Outros fatores: stress, refeições, menstruação, mudanças no tempo;
  5. O que sentiste primeiro: já tinhas sensibilidade à luz, cansaço ou bocejos antes de pegares no ecrã?

Com algumas semanas de dados, começam a notar-se padrões. Talvez as crises apareçam sobretudo nos dias de pouco sono, e não nos dias de mais horas ao computador. Ou talvez o ecrã à noite se revele mesmo um gatilho para ti. O objetivo não é dar-te um diagnóstico, é teres informação concreta para levar à consulta.

Na Mellow podes fazer isto sem papel: o registo é rápido, o historial fica num calendário e podes preparar um relatório para mostrar ao teu médico.

O perigo de culpar sempre o ecrã

Quando uma coisa é muito visível, como um ecrã, é fácil acusá-la de tudo. Mas culpar o ecrã por defeito tem dois riscos.

O primeiro é cortar coisas importantes sem necessidade: trabalho, estudo, contacto com amigos. Se o ecrã não for o teu gatilho, ficas com mais restrições e a mesma enxaqueca.

O segundo é deixar escapar o que realmente pesa. Se as tuas crises vêm sobretudo com a falta de sono ou antes da menstruação, mexer só na luz do telemóvel não vai resolver. A CUF lista muitos outros gatilhos frequentes: alimentos como queijos, chocolate ou vinho, jejum, exercício físico e pequenos traumatismos.

E, claro, não deves tentar adivinhar sozinha o que tens. Se as dores são frequentes, intensas ou diferentes do habitual, o teu médico de família ou um neurologista pode avaliar o caso. Quando já souberes mais sobre o que te acontece, podes ver também como gerir a enxaqueca no dia a dia.

E se for o teu filho ou a tua filha com enxaqueca?

As crianças e os adolescentes também têm enxaqueca. A Sociedade Portuguesa de Pediatria indica que afeta até 10% das crianças, que a dor costuma ser pulsátil e que pode vir com náuseas, vómitos e sensibilidade à luz ou ao som. Em muitos casos, a dor melhora com sono ou repouso num local sossegado com pouca luz.

Quanto aos ecrãs, o Hospital Fernando Fonseca refere recomendações de tempo diário supervisionado por idade: nenhum até aos 2 anos, 1 hora dos 2 aos 5, 2 horas acima dos 5 e 2 a 3 horas nos adolescentes. O mesmo texto aconselha a evitar ecrãs durante as refeições e na hora antes de dormir.

Não faz sentido proibir tudo à primeira, nem culpar o telemóvel à partida. Um pequeno registo de quando surgem as dores, como dormiu e quanto tempo esteve em ecrãs pode ajudar o pediatra. A SPP recomenda que as crianças e adolescentes com dor de cabeça persistente ou recorrente sejam observados por um médico. Se for a primeira vez que a criança tem alterações da visão durante a dor, deve ser vista com urgência, para excluir outras causas.

Em resumo

  • A luz azul, por si só, não está provada como causa de enxaqueca. Tem efeito no sono, e o sono conta como gatilho.
  • Os ecrãs podem causar dor de cabeça por cansaço visual, que melhora com pausas e descanso.
  • Quem tem enxaqueca é muitas vezes mais sensível à luz, e o brilho e a intensidade podem pesar tanto como a cor.
  • Os óculos com filtro de luz azul não têm, até agora, evidência sólida a seu favor.
  • Para saber se os ecrãs são o teu gatilho, o melhor caminho é registar as crises e procurar padrões ao longo de várias semanas.
  • Se as dores são frequentes ou te preocupam, fala com o teu médico. Esta informação não substitui uma consulta.

Perguntas frequentes

A luz azul dos ecrãs provoca enxaqueca?

Não há prova de que a luz azul, por si só, provoque enxaqueca. Segundo as Farmácias Portuguesas, a exposição à luz azul de aparelhos eletrónicos favorece fadiga ocular, dores de cabeça e alterações do sono, e o sono é um dos gatilhos mais conhecidos da enxaqueca.

Os óculos com filtro de luz azul funcionam?

A DECO Proteste conclui que não há, até hoje, evidência científica que sustente os benefícios prometidos por estes óculos. Segundo a Medicare, uma revisão sistemática da Cochrane com 17 estudos sugere que estas lentes podem não trazer vantagens, pelo menos a curto prazo, para a fadiga visual associada ao computador.

Porque me dói a cabeça quando estou muito tempo no ecrã?

Quando olhas para um ecrã, pestanejas menos e os olhos passam horas a focar à mesma distância, o que causa cansaço ocular. O stress, as poucas pausas, as refeições saltadas e o sono perdido à volta do ecrã também podem contar como gatilhos.

Como saber se os ecrãs são um gatilho da minha enxaqueca?

A enxaqueca é muito individual, por isso ajuda registar durante algumas semanas quando a crise começou, quanto tempo estiveste em ecrãs, como dormiste e outros fatores como stress ou menstruação. Se as dores são frequentes, intensas ou diferentes do habitual, fala com o teu médico.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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