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Mulher loira de olhos fechados, com a mão na têmpora, diante de um copo de vinho tinto
Desencadeantes

Enxaqueca e álcool: porque é que certos copos desencadeiam uma crise

Por Laurine Nicoletti12 min

Jantar com amigas, um copo de vinho à mesa, e no dia seguinte (ou até na própria noite) aquela dor latejante que já conheces demasiado bem. Ou então bebes um único copo e nada acontece, para depois teres uma crise forte depois de uma noite que nem foi assim tão exagerada. Se isto te soa familiar, é normal perguntares se a relação entre enxaqueca e álcool é mesmo real.

Neste artigo, vemos o que as fontes de saúde dizem, o que é mais uma ideia feita do que um facto, e como podes testar com calma a tua própria reação. Sem proibições e sem promessas: só o que ajuda a perceber o que se passa contigo. O álcool é um dos muitos desencadeantes possíveis, e podes ver o panorama completo na nossa página sobre os desencadeantes da enxaqueca.

Em resumo

  • O álcool está entre os possíveis desencadeantes da enxaqueca, mas não afeta toda a gente da mesma maneira: o SNS24 lembra que nem todas as pessoas têm os mesmos desencadeantes.
  • O vinho tinto é o suspeito mais conhecido, mas ainda não está provado qual dos seus compostos é o responsável, e outras bebidas também podem pesar.
  • A desidratação e o sono perturbado, que muitas vezes acompanham uma noite com álcool, são desencadeantes por si só e podem explicar parte da crise.
  • A melhor forma de saber se o álcool te afeta é anotar o que bebes e o que acontece depois, várias vezes, em vez de confiar numa regra geral.

O álcool é um desencadeante de enxaqueca para toda a gente?

Não: o álcool aparece entre os possíveis desencadeantes da enxaqueca, mas funciona como gatilho só em algumas pessoas e nem sempre da mesma forma. O SNS24 inclui o consumo excessivo de bebidas alcoólicas na lista de fatores que podem desencadear uma crise, ao lado do stress, dos maus hábitos de sono, da desidratação e das alterações hormonais.

A mesma página acrescenta duas notas importantes. Primeiro, nem todas as pessoas têm os mesmos desencadeantes. Segundo, em algumas situações, aquilo que parece causar a crise pode ser, na verdade, um sintoma inicial da própria enxaqueca.

A CUF também refere o álcool entre as substâncias que podem provocar enxaquecas, juntamente com a cafeína e os adoçantes artificiais. Mais uma vez, é uma possibilidade, não uma certeza para cada pessoa.

Na prática, isto quer dizer que podes ter amigas que bebem o mesmo que tu sem qualquer problema, e que o teu cérebro pode reagir de forma diferente. Não é fraqueza nem exagero teu: a enxaqueca é uma condição em que o cérebro é mais sensível a certas mudanças. Se quiseres perceber melhor o que se passa lá dentro, temos um artigo sobre as causas da enxaqueca.

O vinho tinto é mesmo o grande culpado?

O vinho tinto é o suspeito mais citado, mas a ciência ainda não conseguiu apontar com certeza o composto responsável. Durante anos falou-se dos sulfitos, dos taninos, das histaminas e de outras substâncias do vinho, e nenhuma foi confirmada como a principal culpada.

Uma hipótese recente vem de investigadores da Universidade da Califórnia. Segundo a notícia do Pplware sobre esse estudo, um composto vegetal chamado quercetina (um pigmento presente em frutas e legumes, e em maior quantidade no vinho tinto do que no branco) poderia dificultar a forma como o corpo elimina o álcool. Isso faria acumular acetaldeído, uma substância irritante que já se sabe estar associada a rubor facial, dor de cabeça e náuseas.

É uma pista interessante, mas é uma hipótese e não uma prova de que a quercetina desencadeia enxaqueca. Estas descobertas dizem respeito sobretudo a dores de cabeça depois de beber vinho tinto, e não a crises de enxaqueca confirmadas.

Dito isto, o que sabes do teu corpo conta mais do que qualquer teoria. Se o vinho tinto te dá dor de cabeça de forma repetida, vale a pena registar isso, mesmo sem saber exatamente porquê. A CUF também menciona vinho e queijo curado entre os alimentos que podem estar associados a crises, no caso da enxaqueca vestibular.

Porque é que um copo pode desencadear uma crise?

Não há uma única explicação: o álcool atua por vários caminhos ao mesmo tempo, e é a soma deles que pode tornar uma noite mais arriscada. Alguns estão mais bem documentados do que outros.

A desidratação

A DGS indica que as bebidas alcoólicas contribuem para a desidratação, e o SNS24 lista a desidratação, por falta de ingestão de água, entre os desencadeantes da enxaqueca. Se a noite foi animada, com pouca água pelo meio e talvez calor, o terreno fica mais favorável a uma crise.

Os efeitos diretos do álcool no corpo

A DGS refere que o consumo excessivo de álcool provoca efeitos imediatos como náuseas e vómitos. Como a enxaqueca também pode vir acompanhada de enjoo (explicamos em enxaqueca e náuseas), é por vezes difícil perceber o que é ressaca e o que é crise.

O álcool como "primeiro sinal" e não como causa

Lembras-te da nota do SNS24? Aquilo que parece desencadear a crise pode ser um sintoma inicial dela. Há quem sinta vontade de comer ou de beber algo antes da dor aparecer, e depois associe a crise ao que consumiu. Por isso, olhar para uma única noite pode enganar.

O sono perturbado, o cúmplice discreto do álcool

Muitas vezes, o álcool não age sozinho: o sono mais curto ou pior que vem com uma noite fora pode ser metade do problema. O SNS24 inclui os maus hábitos de sono, tanto dormir de menos como dormir de mais, entre os desencadeantes da enxaqueca.

Ora, uma noite com álcool costuma vir com deitar tarde, acordares a meio da noite ou levantares-te mais cedo do que querias. Por isso a CUF recomenda, nos seus conselhos para dormir melhor, evitar bebidas alcoólicas nas duas horas que antecedem a altura de ir para a cama.

Isto ajuda a explicar um fenómeno comum: duas noites com a mesma quantidade de álcool podem dar resultados diferentes, conforme tenhas dormido bem ou mal. Se acordas muitas vezes com dor de cabeça, vale a pena ler o nosso artigo sobre dor de cabeça ao acordar, enxaqueca e sono.

Também pode acontecer que a crise chegue no dia seguinte, quando a rotina muda e o corpo descansa. Se te acontece sobretudo aos sábados e domingos, conta-te porquê em enxaqueca ao fim de semana: o álcool do sábado à noite e a alteração dos horários podem somar-se.

Enxaqueca e álcool: as ideias feitas que merecem nuance

Muitas ideias sobre o assunto são parcialmente verdadeiras, e é por isso que confundem. Aqui ficam as mais comuns, com o que se pode dizer com honestidade.

  • "Só o vinho tinto faz mal." O vinho tinto é o mais falado, mas o SNS24 fala de bebidas alcoólicas em geral, sem distinguir tipos. Há pessoas que reagem a outras bebidas, e há quem tolere bem o vinho tinto.
  • "Se não bebo muito, não pode ser o álcool." O SNS24 fala de consumo excessivo, mas a sensibilidade varia muito de pessoa para pessoa. Não há um valor mágico que valha para todas.
  • "Se uma vez não doeu, o álcool nunca é problema." Um desencadeante raramente funciona de forma isolada. Pode só provocar uma crise quando coincide com cansaço, stress ou alterações hormonais, como explicamos em enxaqueca e stress e enxaqueca menstrual.
  • "Se tira a dor de cabeça uma vez, é inocente para sempre." Não é assim tão simples: a resposta pode mudar com o momento do ciclo, o descanso e outros fatores do dia.
  • "Um copo de água resolve tudo." Beber água ajuda a combater a desidratação, mas não garante que a crise não vem. É uma peça do puzzle.

Nenhuma destas frases é totalmente falsa nem totalmente verdadeira, e é por isso mesmo que uma regra geral serve de pouco. Para ver outros alimentos e bebidas que costumam ser apontados, tens o artigo sobre alimentos que causam enxaqueca.

Como testar a tua própria reação ao álcool

A forma mais fiável de saber é observares-te durante algum tempo, anotando o que bebeste e o que aconteceu a seguir. Não é um teste de laboratório, é um exercício de atenção que podes fazer ao teu ritmo, sem pressão.

  1. Anota, antes de mais, as tuas crises. Data, hora de início, intensidade e duração. Um bom ponto de partida é o nosso guia sobre o que anotar num diário de enxaqueca.
  2. Regista o que bebeste e quando. Tipo de bebida, quantidade aproximada, se foi com comida, e a que horas terminaste.
  3. Anota o que vem à volta. Horas de sono, quanta água bebeste, nível de stress, fase do ciclo, ecrãs, refeições saltadas. O álcool raramente é o único fator em jogo.
  4. Repara no intervalo. A dor apareceu logo, na mesma noite, ou só no dia seguinte? Isto ajuda a distinguir uma reação ao álcool de uma ressaca ou de um problema de sono.
  5. Procura padrões, não casos isolados. Uma noite não diz nada. Várias ocasiões semelhantes começam a mostrar se há ou não uma ligação.

Dois cuidados simples tornam as conclusões mais fiáveis. Evita tirar conclusões a partir de uma única noite, e tenta comparar situações parecidas (a mesma bebida, a mesma hora, noites com sono semelhante). Se mudares tudo ao mesmo tempo, não saberás o que fez a diferença.

Se descobrires que o álcool parece ter um padrão claro nas tuas crises, essa informação é muito útil para levares à consulta. Podes usá-la para falar com o teu médico, que é quem pode orientar-te, e o nosso artigo sobre que médico consultar ajuda a preparar essa conversa. Se tomas medicação para a enxaqueca ou para outra condição, pergunta também ao médico ou ao farmacêutico se há alguma indicação sobre o álcool no teu caso.

Para uma visão mais ampla do método, o guia Como identificar os desencadeantes da enxaqueca explica o passo a passo com mais detalhe.

E para a saúde em geral, o que se diz sobre o álcool?

Fora da enxaqueca, as recomendações oficiais são claras: a DGS indica que não existe uma quantidade segura para o consumo de bebidas alcoólicas. Também refere que o consumo prolongado pode aumentar o risco de várias doenças, como doença coronária e cerebrovascular, cirrose e outras doenças do fígado, e cancros da boca e da garganta.

Isto não quer dizer que tenhas de sentir culpa por um copo num jantar. Quer dizer que, mesmo sem enxaqueca, reduzir é geralmente uma boa ideia, e que, com enxaqueca, tens uma razão extra para observar o que o álcool te faz. Se sentes que beber se tornou difícil de controlar, fala com o teu médico de família ou com um profissional de saúde, que poderá orientar-te.

Quando falar com um profissional de saúde?

Fala com um médico se as tuas crises forem frequentes, se a dor mudar de padrão ou se a enxaqueca estiver a atrapalhar a tua vida, com ou sem álcool. É ele quem pode avaliar o teu caso, ver se o tratamento que tens faz sentido e propor alternativas, se for preciso.

Há também situações em que não convém esperar. Se tiveres uma dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente de todas as anteriores, ou sintomas novos e preocupantes, vê quando ir às urgências. E se a dor de cabeça nunca desaparece, lê também dor de cabeça todos os dias.

O que fica da relação entre enxaqueca e álcool

O álcool pode ser um desencadeante, mas só para algumas pessoas, e raramente atua sozinho. A desidratação, o sono perturbado, o stress e as alterações hormonais entram muitas vezes na mesma equação.

O vinho tinto tem má fama, e há hipóteses interessantes sobre porquê, mas a ciência ainda não fechou o assunto. Por isso, em vez de aceitares uma regra geral, o mais útil é teres os teus próprios dados: algumas semanas de registos dizem-te mais do que qualquer lista de proibições.

Sê gentil contigo neste processo. Não estás a falhar quando tens uma crise, e não precisas de ser perfeita para perceber o que te faz bem.

Perguntas frequentes

Beber álcool provoca sempre enxaqueca?

Não. O SNS24 refere que nem todas as pessoas têm os mesmos desencadeantes, e que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é apenas um dos possíveis. Há pessoas que nunca notam relação e outras que a notam com clareza.

Posso ter enxaqueca no dia seguinte a beber, e não na mesma noite?

Sim, é possível, e muitas vezes o álcool vem acompanhado de menos horas de sono e de pouca água, que também são desencadeantes. Por isso, anotar o intervalo entre a bebida e o início da dor ajuda a perceber o padrão.

O vinho tinto é pior do que as outras bebidas para a enxaqueca?

É o mais falado, e há hipóteses sobre compostos como a quercetina, mas, segundo as notícias sobre o estudo da Universidade da Califórnia, nenhum composto foi confirmado como o principal responsável. A reação varia de pessoa para pessoa.

Se o álcool me dá dor de cabeça, quer dizer que tenho enxaqueca?

Não necessariamente. Uma dor de cabeça depois de beber pode ser uma simples ressaca, e só um profissional de saúde pode avaliar se é enxaqueca. Se quiseres perceber a diferença, lê o artigo sobre a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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