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Homem pensativo com a mão no queixo, na dúvida entre ficar em casa ou ir ao hospital
Diagnóstico

Dor de cabeça: quando ir às urgências e quando podes esperar

Por Laurine Nicoletti13 min

Estás a meio de uma crise e a dor é diferente do costume. Ou então é a primeira vez que tens uma dor de cabeça assim e ficas sem saber se deves esperar que passe ou ir já a um hospital. Saber quando ir às urgências com uma dor de cabeça é uma dúvida muito comum, e é normal sentires alguma ansiedade.

A boa notícia é que a maioria das dores de cabeça não tem uma causa grave. Este artigo explica, com calma, dor de cabeça: quando ir às urgências e quando podes esperar, com base em fontes de saúde portuguesas. Não serve para fazer diagnósticos (ninguém consegue fazê-los por texto) e não substitui o teu médico: serve para te dar pontos de referência. Se quiseres uma visão mais ampla de como lidar com as crises no dia a dia, tens o nosso guia Diagnóstico da enxaqueca.

Em resumo

  • Uma dor de cabeça súbita e muito intensa, uma fraqueza ou dificuldade em falar que aparecem de novo, ou febre com rigidez no pescoço são sinais que justificam avaliação médica imediata, segundo o Manual MSD.
  • Perante sintomas que fazem suspeitar de AVC (boca ao lado, perda de força, dificuldade em falar), o SNS 24 manda ligar logo para o 112.
  • Para uma situação que não é emergência, o SNS indica que o primeiro contacto pode ser a linha SNS 24 (808 24 24 24).
  • A maior parte das dores de cabeça não tem causa grave, sobretudo quando começaram cedo e não mudaram com o tempo, segundo o Manual MSD.

Dor de cabeça: quando ir às urgências?

Deves procurar ajuda urgente quando a dor é fora do normal e surge de repente, ou quando vem acompanhada de sintomas novos como fraqueza, alterações da fala, confusão ou febre com pescoço rígido. Estes são os sinais que os profissionais de saúde levam a sério, mesmo em pessoas que já têm enxaqueca.

Uma dor súbita, a mais forte que já sentiste

A CUF refere que uma dor de cabeça fora do normal ou forte, sobretudo se surgiu repentinamente, justifica ir a um atendimento permanente. Os médicos falam em "cefaleia em trovoada": uma dor que atinge o pico em poucos segundos. O Manual MSD inclui-a entre os sinais de alerta.

Uma das causas possíveis é uma hemorragia no espaço à volta do cérebro (hemorragia subaracnóidea), que o Manual MSD descreve como uma emergência médica. Não é o cenário mais frequente, mas é por ele que este tipo de dor não deve esperar.

Sintomas neurológicos novos

Se a dor vem com um sintoma que não é habitual em ti, não esperes para ver se passa. O Manual MSD lista como sinais de alerta:

  • alterações súbitas das sensações ou da visão;
  • fraqueza ou perda de coordenação;
  • convulsões;
  • dificuldade em falar ou em compreender o que dizem;
  • sonolência ou confusão.

O SNS 24 indica como sinais de alerta de AVC o desvio da boca, a perda da fala ou dificuldade em falar e a perda de força num braço ou numa perna, e pede que se ligue ao 112 o mais depressa possível. Uma dor de cabeça forte também pode surgir nesse contexto.

Febre, calafrios e pescoço rígido

Dor de cabeça com febre e rigidez no pescoço (quando é doloroso, ou impossível, encostar o queixo ao peito) é outro sinal a levar a sério. O Manual MSD refere esta combinação entre os sinais que podem estar ligados a problemas como a meningite. A CUF recomenda procurar um serviço de urgência se a dor intensa vier com febre e calafrios, visão desfocada ou dupla, tonturas, confusão ou dor nos maxilares.

Uma febre ligeira durante uma gripe ou constipação, com dor de cabeça, é diferente: a mesma CUF aconselha, nesses casos, repouso, beber água e relaxar. O que pesa é o conjunto: febre alta, pescoço rígido, muito mal-estar.

Depois de uma pancada na cabeça

Se a dor de cabeça surge depois de uma queda, pancada ou acidente, a CUF inclui o traumatismo entre as razões para contactar um serviço de urgência. Aqui não vale a pena tentar adivinhar: vai ser observada.

Como pedir ajuda: 112 ou SNS 24?

O SNS explica a diferença: para suspeita de AVC, alteração do estado de consciência ou dificuldade em respirar, liga 112. Para situações não emergentes, como dor ligeira ou moderada ou febre, liga para o SNS 24 (808 24 24 24). A linha avalia e orienta quem está com um problema agudo, segundo o SNS, e funciona 24 horas por dia.

Quando pedir avaliação médica depressa, mesmo sem ser urgência

Há situações em que não precisas de correr para o hospital, mas também não deves deixar arrastar: falar com o médico de família ou ligar para o SNS 24 nos próximos dias é um bom reflexo. Aqui entram as mudanças de padrão, mais do que a intensidade de uma crise isolada.

O Manual MSD inclui entre os sinais de alerta uma dor de cabeça que piora progressivamente e dores que começam depois dos 50 anos. Também refere sintomas que afetam o corpo todo, como febre ou perda de peso, e dor na têmpora ou na mandíbula ao mastigar.

Na prática, vale a pena marcar consulta quando:

  • a dor mudou de característica (mais forte, mais frequente, num sítio diferente, com sintomas novos);
  • tens dores de cabeça quase todos os dias, algo que explicamos em Dor de cabeça todos os dias: porquê e quando falar com o médico;
  • a dor te limita no trabalho, nos estudos ou na vida social;
  • tens dúvidas sobre o que é, ou nunca foste avaliada.

O neurologista Filipe Palavra, presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, é citado pelo Observador a dizer que "não é normal ter dor de cabeça" e que, se as dores são frequentes, deves ir pelo menos ao médico de família, porque há dores que parecem enxaqueca mas podem ser outra coisa. Não é motivo para alarme: é um convite a perguntar.

Quando podes esperar com tranquilidade?

Podes esperar, em geral, quando a dor é parecida com as que já conheces, sem sinais de alerta e com um padrão que se mantém. O Manual MSD indica que a maior parte das cefaleias não tem causa grave, sobretudo se a dor começou numa idade mais nova, se não mudou ao longo do tempo e se o exame é normal.

Se já tens diagnóstico de enxaqueca, uma crise típica (dor pulsátil de um lado, sensibilidade à luz e ao barulho, náuseas, o teu padrão de sempre) costuma ser tratada em casa, com o plano combinado com o teu médico. Se ainda estás a tentar perceber o que tens, o artigo Diferença entre enxaqueca e dor de cabeça ajuda a organizar as ideias.

Algumas coisas que dão segurança:

  • a crise segue o desenrolar que já conheces (por exemplo, as fases descritas em Quanto tempo dura uma enxaqueca?);
  • não há fraqueza, confusão, dificuldade em falar nem febre com pescoço rígido;
  • a dor não surgiu como um "raio" em poucos segundos.

E atenção: "poder esperar" não quer dizer ficar sozinha com dúvidas. Se a dúvida persistir, ligar para o SNS 24 custa pouco e dá orientação.

Uma aura diferente do habitual é motivo para preocupação?

Se já tens aura, a mesma aura de sempre não costuma ser motivo de alarme, mas uma aura nova, diferente ou que não passa merece avaliação. A aura é um conjunto de sintomas temporários, quase sempre visuais, que podem aparecer antes ou durante a crise. Explicamos tudo em Enxaqueca com aura: como reconhecer os sinais antes da crise.

Segundo a CUF, os sintomas da aura visual são habitualmente de curta duração (menos de 60 minutos) e reversíveis. O Manual MSD acrescenta que a aura pode incluir luzes tremeluzentes ou pontos cegos, e, menos vezes, formigueiro, perda de equilíbrio, fraqueza num braço ou perna e dificuldade em falar.

O que deve fazer-te parar para pensar:

  • fraqueza, dificuldade em falar ou desvio da boca que aparecem de repente (ver a secção sobre sintomas neurológicos);
  • uma aura que dura muito mais do que o teu normal;
  • sintomas que não passam depois da crise.

Se a perda de visão for súbita, sobretudo de um só olho, não esperes: o Observador menciona a perda súbita de visão entre os sintomas a não ignorar. Se queres perceber melhor as perturbações visuais mais comuns, lê Enxaqueca ocular (oftálmica): tudo o que precisas de saber.

Situações especiais que vale a pena conhecer

Algumas circunstâncias pedem um pouco mais de atenção, porque o contexto muda a forma como os médicos avaliam uma dor de cabeça. Nenhuma delas quer dizer que "é grave": quer dizer que vale mais a pena perguntar.

Gravidez

Uma dor de cabeça nova durante a gravidez deve ser falada com o médico, sobretudo se vier com alterações da visão ou inchaço súbito. A CUF explica que, perante sintomas de pré-eclâmpsia, a grávida deve contactar de imediato o médico assistente ou dirigir-se a um serviço de atendimento permanente. Alguns destes sintomas podem existir numa gravidez saudável, e é por isso que a avaliação importa.

Depois dos 50 anos, ou com doenças que afetam as defesas

O Manual MSD lista como sinais de alerta as dores que começam depois dos 50 anos e as que surgem em pessoas com cancro ou com uma doença (ou medicação) que enfraquece o sistema imunitário. Nestes casos, uma dor de cabeça nova merece avaliação médica.

Crianças e adolescentes

Nas crianças, a enxaqueca existe e é mais frequente do que se pensa, mas as dúvidas sobre sinais de alerta devem ir sempre para o pediatra ou o SNS 24. O nosso guia Enxaqueca em crianças e adolescentes: o guia para pais explica o essencial.

Quando a tua crise "não responde" como de costume

Se uma crise de enxaqueca não se comporta como as anteriores, por exemplo, se um tratamento que costuma ajudar-te não funciona, conta isso ao teu médico. Não é para mudares nada por conta própria; é uma informação útil para ele avaliar o plano. Para perceber como funcionam alguns dos tratamentos específicos, vê Triptanos para a enxaqueca: o que são e como funcionam.

Porque é que os médicos nem sempre pedem TAC ou ressonância?

Em muitas dores de cabeça, o diagnóstico faz-se com a história clínica e o exame, sem exames de imagem. Quando a dor é conhecida, o padrão é estável e o exame neurológico é normal, o Manual MSD refere que é pouco provável haver uma causa grave.

Isto pode surpreender quem sai de uma consulta sem pedido de exames, mas costuma ser tranquilizador: significa que os dados que o médico recolheu apontam para uma dor de cabeça primária, como a enxaqueca. Já uma dor súbita e intensa, sintomas neurológicos novos ou uma pancada recente são situações em que o médico pondera exames, e é a ele que cabe decidir.

Se saíres com dúvidas, pergunta. Frases como "o que o fez decidir que não era necessário?" ou "em que situação devo voltar?" são perfeitamente legítimas.

Como te preparar sem stress

Preparares-te antes de uma consulta (ou de uma chamada para o SNS 24) faz com que a conversa seja mais clara e mais rápida. Não precisas de decorar nada: basta teres alguns factos à mão.

Os dados que mais ajudam o profissional de saúde:

  • quando a dor começou e se foi de repente ou aos poucos;
  • onde dói, como é a dor e a sua intensidade;
  • se há sintomas associados (náuseas, luz, febre, visão, formigueiro, fala);
  • o que costuma desencadear as tuas crises, por exemplo, sono, stress ou ciclo (vê Como identificar os desencadeantes da enxaqueca);
  • o que já tomaste e o que mudou desde a última crise.

Ter um registo simples poupa-te de depender da memória num momento de stress. E se vires que as crises estão a mudar, tens números para mostrar, em vez de uma sensação vaga.

O que reter quando tens dúvidas

Quando hesitas, uma pergunta simples ajuda: esta dor é diferente do que já conheço, ou vem acompanhada de algo novo? Se sim, procura avaliação, e se há sintomas de AVC, fraqueza súbita, confusão ou uma dor "em trovoada", não esperes.

Para o resto, tens opções entre os extremos. Podes ligar para o SNS 24 (808 24 24 24) para seres orientada, marcar consulta com o médico de família, ou esperar com calma se a crise é a tua enxaqueca habitual e sem sinais de alerta. Nenhum destes caminhos é "exagero": é cuidar de ti.

Se quiseres continuar a explorar o assunto, o pilar Diagnóstico da enxaqueca reúne os nossos artigos sobre alívio, tratamentos e acompanhamento.

Perguntas frequentes

Uma dor de cabeça muito forte é sempre sinal de algo grave?

Não. A maior parte das dores de cabeça não tem causa grave, e uma enxaqueca pode ser muito intensa, segundo o Manual MSD. O que levanta a atenção é uma dor súbita, fora do normal, ou acompanhada de sintomas novos como fraqueza, confusão ou febre com pescoço rígido.

Devo ligar para o 112 ou para o SNS 24?

Perante suspeita de AVC (desvio da boca, dificuldade em falar, perda de força) ou alteração do estado de consciência, o SNS indica que deves ligar 112. Para situações não emergentes, como dor ligeira ou moderada ou febre, o contacto indicado é o SNS 24 (808 24 24 24).

Dor de cabeça com febre é sempre urgente?

Nem sempre. Durante uma gripe ou constipação, a CUF aconselha repouso, hidratação e relaxamento. Mas se a dor for intensa e vier com febre e calafrios, confusão ou rigidez do pescoço, a mesma fonte recomenda procurar um serviço de urgência.

Se tenho enxaqueca, posso ignorar sempre uma dor de cabeça?

Não é isso que se pretende dizer. Ter enxaqueca não te protege de outras causas, e por isso uma dor que muda de padrão, que é diferente da habitual ou que vem com sintomas novos deve ser avaliada. Na dúvida, o SNS 24 ou o teu médico de família são o melhor ponto de partida.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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