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Mulher de hijab azul, olhos fechados e mão na têmpora, ao lado de uma paisagem turva com luzes coloridas em zigue-zague
Sintomas

Enxaqueca com aura: como reconhecer os sinais antes da crise

Por Laurine Nicoletti11 min

Estás a ler no telemóvel e, de repente, aparece um ponto brilhante no canto da visão. Em poucos minutos, transforma-se num ziguezague que se alarga e te impede de ler uma linha inteira. Ou então sentes um formigueiro numa mão que sobe devagar pelo braço, e só depois chega a dor de cabeça. Estes sinais são típicos da enxaqueca com aura, e é normal que assustem à primeira vez.

Isto pode ser enxaqueca com aura: um conjunto de sintomas passageiros que surgem antes da dor (ou, nalguns casos, com ela) e que assustam muito, sobretudo à primeira vez. Neste artigo explicamos o que é a aura, como se sente, porque acontece, como a distinguir de um AVC e o que vale a pena falar com o teu médico. É uma peça do nosso guia Sintomas da enxaqueca.

Em resumo

  • A aura é um conjunto de sintomas neurológicos passageiros, mais frequentemente visuais, que costumam durar entre 10 e 30 minutos e antecedem a dor, segundo a CUF.
  • Afeta cerca de 15% das pessoas com enxaqueca, segundo a CUF.
  • Se tiveres desvio da face, falta de força num braço ou dificuldade na fala, liga 112, como recomenda o SNS 24.
  • Enxaqueca com aura, tabaco e contracetivos com estrogénio juntos aumentam o risco de AVC isquémico em mulheres jovens, segundo a CUF. Vale a pena falar disso com o teu médico.

O que é a enxaqueca com aura e quantas pessoas a têm?

A enxaqueca com aura é uma forma de enxaqueca em que surgem sintomas neurológicos passageiros, que costumam durar cerca de 10 a 30 minutos e antecedem a dor, segundo a CUF. "Neurológicos" quer dizer que vêm do cérebro e não dos olhos, do ouvido ou do braço, mesmo quando é aí que os sentes.

Não é a forma mais comum. A mesma fonte indica que afeta cerca de 15% das pessoas com enxaqueca, ou seja, a maioria das pessoas com enxaqueca nunca tem aura. Se tens, não és uma exceção estranha, mas também não és a regra.

Também não significa que a tua enxaqueca seja "pior". A aura descreve um tipo de sintomas, não a intensidade da dor. Muitas pessoas têm crises com aura e crises sem aura ao longo da vida, e é normal que isto varie.

Que sintomas pode ter uma aura?

A aura mais comum é visual, mas também pode causar formigueiro, dormência ou dificuldade em falar. A CUF descreve perturbações passageiras da visão, como perda de visão de um dos lados do campo visual, turvação das imagens, pontos luminosos, figuras geométricas ou ziguezagues brilhantes.

Os outros tipos de aura são menos frequentes. Segundo a mesma página, podem traduzir-se por:

  • formigueiro ou dormência de um lado da face ou de uma das mãos;
  • dificuldade em falar;
  • paralisias passageiras dos membros, habitualmente só de um dos lados do corpo.

Todos estes sintomas são, por definição, temporários e voltam ao normal. Mas por serem tão parecidos com os de um AVC, a diferença merece uma secção própria, mais abaixo.

Aura visual ou "enxaqueca ocular": é a mesma coisa?

Nem sempre. A CUF explica que, na enxaqueca com aura, as alterações visuais costumam estar presentes mesmo com os olhos fechados e afetar os dois olhos, porque têm origem no cérebro e não nos olhos.

Um truque simples para observares: fecha um olho de cada vez. Se a alteração continua nos dois, está mais próxima de uma aura típica. Se desaparece ao tapares um olho, é um dado importante para contares ao médico, que pode encaminhar-te para oftalmologia.

Porque é que aparece uma aura?

Uma aura aparece por causa de uma alteração temporária da atividade elétrica de uma zona do cérebro, que se desloca devagar pela sua superfície. A CUF descreve a enxaqueca como resultado de uma combinação de processos no cérebro, entre eles a excitação e depressão de células, a dilatação de artérias e a libertação de substâncias químicas.

Uma revisão académica da Universidade de Coimbra descreve o mecanismo mais aceite como uma onda lenta de despolarização (uma espécie de "excitação" das células) seguida de uma inibição temporária da atividade, a chamada depressão cortical alastrante. Esta onda avança devagar, o que ajuda a perceber porque é que a aura se instala de forma progressiva: a luz cresce, o formigueiro sobe, a mancha desloca-se.

É importante ser honesta contigo: os cientistas ainda não explicam tudo. Não se sabe ao certo porque é que algumas pessoas têm aura e outras não, nem porque é que a mesma pessoa a tem em certas crises e noutras não. Para já, isto é o que as fontes permitem afirmar.

O que costuma acontecer antes de uma crise com aura?

Antes da dor, pode haver uma fase de sinais subtis, depois a aura, e só então a dor de cabeça. A CUF refere uma fase inicial em que podem surgir perturbações visuais ou do equilíbrio e, mais tarde, a fase em que surge a dor, por vezes com falta de apetite, náuseas e vómitos.

Na prática, muitas pessoas descrevem a aura como um aviso: "tenho uns 20 minutos para largar o que estou a fazer". A CUF aconselha, no caso das alterações visuais, a fazer uma pausa e descansar os olhos até a visão voltar ao normal. Se conduzires ou estiveres a usar máquinas, parar com segurança é o mais sensato.

Os fatores desencadeantes mais frequentes das crises de enxaqueca, segundo a CUF, incluem alterações do ritmo de sono, stress, menstruação, jejum, exercício físico e alguns alimentos. Os ecrãs também aparecem muitas vezes nas conversas, e explicamos o que se sabe (e o que não se sabe) em Enxaqueca e ecrãs: a luz azul é mesmo a culpada?.

Como distinguir uma aura de um AVC?

Uma aura costuma instalar-se de forma gradual e desaparecer sozinha, mas, em caso de dúvida, trata-se sempre como possível AVC e liga 112. O SNS 24 indica como sinais de alarme do AVC a paralisia facial com desvio da boca, a perda de fala ou dificuldade em falar e a perda de força num braço ou perna.

Estes sinais podem parecer-se com certas auras (a dormência numa mão ou a dificuldade em falar, por exemplo). Por isso, a regra de segurança é simples: se for a primeira vez que sentes algo assim, se o sintoma for diferente do teu habitual ou se tiveres dúvidas, não tentes adivinhar sozinha.

Uma pista que os médicos valorizam é o padrão. Na aura, os sintomas tendem a avançar aos poucos e passam dentro de cerca de 10 a 30 minutos, segundo a CUF, com dor a seguir. Mas isto é uma orientação geral, não um teste que possas fazer em casa, e só um profissional de saúde pode avaliar o teu caso.

Quando ligas 112, o SNS 24 explica que se ativa a Via Verde do AVC. As primeiras horas são essenciais, e é preferível ir e ouvir "era só uma aura" do que esperar.

Ter enxaqueca com aura aumenta o risco de AVC?

Há uma associação entre enxaqueca com aura e AVC isquémico em mulheres jovens, que se torna mais relevante com tabaco ou contracetivos orais. Segundo a CUF, as enxaquecas com aura estão associadas ao AVC isquémico em mulheres mais jovens, especialmente se fumarem ou tomarem contracetivos orais.

Isto não quer dizer que vais ter um AVC, nem que a tua aura seja perigosa em si. Quer dizer que há fatores que podes discutir com o teu médico para reduzir riscos acrescidos. A mesma página da CUF é clara num ponto: quem sofre de enxaqueca com aura deve deixar de fumar.

E a pílula?

A página do Programa Nacional para a Saúde Reprodutiva da DGS inclui as cefaleias tipo enxaqueca entre as contraindicações da pílula. Se tens enxaqueca com aura, é uma conversa a ter com o médico de família ou com o ginecologista, para escolher o método que faz sentido para ti.

Não deixes de tomar nem comeces nenhum método por tua conta. E leva contigo a informação sobre as tuas auras: quanto duram, como são, com que frequência acontecem.

Quando é preciso fazer exames, como uma ressonância magnética?

Na maioria dos casos, o diagnóstico de enxaqueca faz-se pela história clínica e pelo exame neurológico, e só alguns casos precisam de imagem. A CUF explica que a chave do diagnóstico está na história clínica e no exame físico e neurológico, e que, em alguns casos, pode ser necessário recorrer a TAC ou ressonância magnética para excluir outras doenças.

Segundo a CUF, dores de cabeça frequentes, incapacitantes, de início recente ou com características de alarme justificam investigação especializada. Se as tuas auras são novas, mudaram de padrão ou te preocupam, é razoável pedir uma avaliação.

O médico é quem decide se um exame é necessário. Não precisas de o pedir como "garantia", e também não deves ter receio de perguntar porque é que não se faz nenhum, se for esse o caso.

Porque é que registar as tuas auras ajuda na consulta?

Registar as tuas auras ajuda porque, na consulta, a memória costuma falhar e os detalhes são exatamente o que o médico quer saber. Em poucos minutos, ser capaz de dizer "tive 4 auras visuais nos últimos 3 meses, duraram cerca de 20 minutos, todas antes das minhas menstruações" é muito mais útil do que "às vezes vejo luzes".

Podes anotar, de cada vez:

  • a data e a hora a que a aura começou e a que terminou;
  • como foi (visual, formigueiro, dificuldade em falar) e de que lado;
  • se a dor veio depois, e com que intensidade;
  • o contexto: pouco sono, stress, jejum, ciclo menstrual, muito tempo em frente ao ecrã.

Na Mellow, podes guardar tudo isto sem esforço, ver o calendário e as estatísticas, e preparar um rapport para o médico. Se te interessa o lado familiar da questão, lê também Enxaqueca hereditária: é genética e vais transmiti-la aos teus filhos?.

O que podes fazer a partir de agora

Não precisas de resolver tudo de uma vez. Dá um passo de cada vez:

  1. Conhece o teu padrão. Escreve como são as tuas auras e quanto duram.
  2. Aprende os sinais de alarme. Fala, face e força: se algo disto falha, liga 112.
  3. Fala com o teu médico se for a primeira aura, se mudar de padrão, ou se tomares contracetivos com estrogénio ou fumares.
  4. Cuida do que consegues. Dormir com horários regulares, comer sem longos jejuns e gerir o stress são gatilhos que muitas pessoas conseguem observar e ajustar.

Para continuares a ler, passa pelo nosso guia sobre como gerir a enxaqueca, onde falamos do que se pode fazer durante e depois da crise.

A enxaqueca com aura assusta porque o corpo parece "avariar" por uns minutos. Mas perceber o que está a acontecer, saber o que é urgente e o que não é, e levar dados concretos à consulta torna tudo mais fácil de gerir. Sem promessas de cura, mas com mais calma e mais controlo.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma aura de enxaqueca?

A aura costuma durar cerca de 10 a 30 minutos e surge antes da dor, segundo a CUF. Nos sintomas de enxaqueca ocular, a mesma instituição indica que a maioria dos episódios dura menos de uma hora. Se os sintomas forem diferentes do habitual ou durarem mais do que costumas ter, procura avaliação médica.

A aura é sempre visual?

Não. As auras visuais são as mais comuns, mas a CUF refere também formigueiro ou dormência na face ou numa mão, dificuldade em falar e paralisias passageiras, normalmente de um lado do corpo. Como alguns destes sintomas se parecem com os de um AVC, qualquer dúvida justifica avaliação.

O que devo fazer quando tenho uma aura?

Segundo a CUF, nas alterações visuais o aconselhável é parar o que estás a fazer e descansar os olhos até a visão voltar ao normal. Se aparecerem desvio da face, falta de força num braço ou dificuldade na fala, liga 112, como indica o SNS 24. Quanto a medicação, fala com o teu médico.

Preciso de uma ressonância magnética por ter aura?

Não necessariamente. A CUF explica que o diagnóstico se baseia sobretudo na história clínica e no exame neurológico, e que a TAC ou a ressonância são pedidas em alguns casos para excluir outras doenças. Será o teu médico a decidir, com base no teu caso.

Enxaqueca com aura e pílula: posso tomar?

Depende do teu caso e deve ser decidido com o teu médico de família ou ginecologista. A DGS inclui as cefaleias tipo enxaqueca entre as contraindicações da pílula. Não pares nem mudes de método por tua conta.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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