
Enxaqueca sem aura: sintomas, duração e diferenças com a enxaqueca com aura
Tens uma dor de cabeça que pulsa de um lado, a luz incomoda-te, o cheiro do café do escritório dá-te náuseas e só te apetece ficar às escuras. Mas nunca viste luzinhas, riscos ou manchas antes da dor, e por isso pensas que "talvez não seja enxaqueca a sério". É muito provável que seja: a enxaqueca sem aura é a forma mais comum, e é a que a maioria das pessoas com enxaqueca tem.
Neste artigo explico, sem jargão, o que é a enxaqueca sem aura, como se sente, quanto tempo costuma durar e o que a distingue da enxaqueca com aura. Se quiseres uma visão mais geral do tema, tens também o nosso guia Sintomas da enxaqueca.
Em resumo
- A enxaqueca sem aura é a forma mais frequente: segundo a CUF, as formas com aura afetam cerca de 15% das pessoas com enxaqueca.
- Reconhece-se por uma dor geralmente de um lado da cabeça, pulsátil, com náuseas ou sensibilidade à luz e ao som, sem sintomas visuais ou sensitivos prévios.
- Segundo a CUF, uma crise pode durar de poucas horas até três dias, com períodos totalmente livres de sintomas entre as crises.
- A diferença para a enxaqueca com aura está nos sintomas neurológicos que a antecedem; para saber o que tens, só um médico pode fazer o diagnóstico.
O que é a enxaqueca sem aura?
A enxaqueca sem aura é uma crise de enxaqueca em que a dor de cabeça surge sem os sintomas neurológicos temporários que chamamos "aura". Não é uma enxaqueca "mais fraca" nem "menos a sério": é simplesmente a versão em que a dor e os sintomas associados chegam sem aviso visual ou sensitivo.
A enxaqueca é uma cefaleia primária, ou seja, é uma doença em si e não o sintoma de outra doença, e existem várias formas dela. Entre elas, a enxaqueca sem aura é a mais frequente: a CUF refere que as formas com aura afetam cerca de 15% das pessoas com enxaqueca.
Se alguma palavra te soar estranha (cefaleia, pródromo, fotofobia), o glossário da enxaqueca explica-as de forma simples.
Quais são os sintomas da enxaqueca sem aura?
Os sintomas típicos são uma dor de cabeça moderada a forte, muitas vezes de um só lado e pulsátil, acompanhada de náuseas e de sensibilidade à luz e ao som. A CUF descreve uma dor que tende a ser pulsátil, que piora com o esforço físico ou com movimentos da cabeça, e que se pode acompanhar de náuseas, vómitos e intolerância à luz, ao ruído e a alguns cheiros. Não é obrigatório que todos estes sinais apareçam ao mesmo tempo.
Para o diagnóstico, os critérios usados pelos médicos são mais precisos, e é o médico quem os avalia no teu caso.
E antes da dor? Os sinais de aviso
Algumas pessoas notam sinais antes da dor, e isto não é aura. Chama-se fase premonitória (ou pródromo).
Isto explica por que razão há quem diga "já sabia que ia ter uma crise" sem ter tido nenhuma aura. Reconhecer estes sinais pode ajudar-te a perceber o teu padrão.
Quanto tempo dura uma enxaqueca sem aura?
Uma crise de enxaqueca sem aura dura geralmente de algumas horas até três dias, segundo a CUF. Entre as crises, a pessoa fica completamente livre de sintomas, e essa é uma das pistas que a distingue de outros tipos de dor de cabeça.
Esse tempo inclui só a fase da dor? Nem sempre. Uma crise tem várias fases (a que vem antes, a dor e a recuperação depois), e por isso a sensação de "estar de rastos" pode prolongar-se para lá da dor. Podes ver cada fase em detalhe em Quanto tempo dura uma enxaqueca? As 4 fases de uma crise.
Nas crianças, a enxaqueca tende a ser mais curta, menos intensa e muitas vezes dos dois lados da cabeça, segundo a CUF. Se és mãe ou pai, o guia Enxaqueca em crianças e adolescentes pode ajudar.
Enxaqueca sem aura ou com aura: quais são as diferenças?
A grande diferença é que, na enxaqueca com aura, aparecem sintomas neurológicos temporários antes ou no início da dor, e na enxaqueca sem aura não aparecem. Tudo o resto (a dor pulsátil, as náuseas, a sensibilidade à luz) é muito parecido.
A aura consiste em sintomas visuais ou sensitivos completamente reversíveis, que normalmente precedem a dor. A CUF dá exemplos: perceção de pontos, linhas ou figuras luminosas, e formigueiros ou dormência na face ou num membro.
Em resumo:
| Sem aura | Com aura | |
|---|---|---|
| Sintomas visuais ou sensitivos prévios | Não | Sim, temporários e reversíveis |
| Dor de cabeça pulsátil, náuseas, sensibilidade à luz | Sim | Geralmente sim |
| Frequência | A forma mais comum | Cerca de 15% das pessoas com enxaqueca |
Uma mesma pessoa pode ter os dois tipos em momentos diferentes. Se queres perceber melhor o que se sente na aura, lê Enxaqueca com aura: como reconhecer os sinais antes da crise. E se os teus sintomas são sobretudo visuais, vê também enxaqueca ocular (oftálmica).
Para ver como estes números se distribuem no mundo e em Portugal, tens Enxaqueca em números.
Será enxaqueca ou uma dor de cabeça "normal"?
Uma enxaqueca distingue-se pela combinação de dor intensa, sintomas associados (náuseas, luz, ruído) e períodos totalmente livres entre as crises. Uma dor de cabeça "normal" costuma ser mais leve e sem este conjunto de sinais.
Podes fazer uma primeira reflexão com perguntas simples:
- A dor é forte e fica de um lado, ou pulsa?
- Piora quando subo escadas ou me mexo, e apetece-me ficar quieta?
- A luz, o barulho ou os cheiros incomodam-me?
- Tenho náuseas?
- Entre as crises, fico bem?
Se respondeste "sim" a várias, vale a pena falar com o teu médico. Só um profissional de saúde pode confirmar o diagnóstico, e o artigo Diferença entre enxaqueca e dor de cabeça explica a comparação com mais calma. Se a dor de cabeça aparece todos os dias, lê Dor de cabeça todos os dias.
Como é feito o diagnóstico?
Não existe nenhum exame específico para diagnosticar a enxaqueca: o diagnóstico baseia-se na história clínica e no exame físico e neurológico, segundo a MiGRA Portugal. O médico vai querer saber onde é a dor e como é, quando começou, com que frequência e quanto tempo dura, que outros sintomas tens e se há enxaqueca na família.
Por isso, a tua descrição é muito importante. A mesma associação recomenda preencher um calendário das crises com os dias de dor, a intensidade, a medicação utilizada e os sintomas associados, e aponta que o uso do diário durante pelo menos seis meses pode revelar padrões. Podes começar pelo teu médico de família, que decidirá se faz sentido ir a um neurologista.
Se tens curiosidade sobre a componente familiar, o artigo Enxaqueca hereditária explica o que se sabe.
Quando consultar e quando pedir ajuda urgente?
Consulta o médico se as crises são frequentes, se mudam de padrão ou se afetam o teu trabalho e a tua vida. Procura ajuda urgente se tiveres uma dor de cabeça repentina e muito intensa, ou outros sinais de alarme.
Segundo a CUF, deves contactar um serviço de urgência se a dor for intensa e vier acompanhada de visão desfocada ou dupla, tonturas e confusão, febre e calafrios, ou se tiveste um traumatismo. A mesma fonte refere que febre alta com dor de cabeça e rigidez no pescoço é motivo para ir a um serviço de urgência, tal como uma dor mais forte e repentina do que alguma vez sentiste, ou dificuldades novas na comunicação, na visão ou no equilíbrio.
Em Portugal, para situações que não colocam a vida em risco imediato, podes ligar para o SNS 24 (808 24 24 24); perante risco de vida ou sinais de emergência, o número é o 112, como explica a DECO PROTESTE. Em caso de dúvida, liga e pede orientação, não tens de decidir sozinha.
O que podes fazer já
Começa por observar e registar, sem pressão. Anotar cada crise (hora de início, duração, intensidade, o que fizeste antes) ajuda-te a ti e ao médico a perceber o teu padrão.
Algumas ideias práticas:
- Anota os sinais de aviso que sentires antes da dor, porque podem ser o teu "pródromo".
- Repara nos possíveis desencadeantes, como o stress, o sono, os ecrãs, a alimentação ou o ciclo menstrual. O guia Como identificar os desencadeantes da enxaqueca mostra como fazer isto passo a passo.
- Leva o teu registo à consulta, para falares de factos e não só de memórias.
- Fala com o teu médico sobre tratamentos: ele é quem pode dizer o que é adequado para ti.
Os desencadeantes variam muito de pessoa para pessoa, e muitos não estão provados para todas. Por isso, o objetivo não é evitar tudo, mas perceber o que se repete no teu caso.
Conclusão
A enxaqueca sem aura é a forma mais comum de enxaqueca: dor pulsátil, muitas vezes de um lado, com náuseas ou sensibilidade à luz e ao som, e sem aviso visual ou sensitivo. Pode durar de algumas horas a três dias, e a diferença para a enxaqueca com aura está apenas nos sintomas neurológicos que a antecedem. Se te revês nesta descrição, o melhor primeiro passo é registar as tuas crises e falar com o teu médico de família.
Perguntas frequentes
A enxaqueca sem aura é menos grave do que a enxaqueca com aura?
Não é possível dizer que uma é "menos grave": a diferença está nos sintomas que antecedem a dor e não na importância da doença. A dor e os sintomas associados podem ser igualmente incapacitantes nos dois casos, por isso vale a pena falar com o médico, seja qual for o tipo.
Posso ter enxaqueca sem aura e com aura?
Sim, há pessoas que têm crises com aura e outras sem aura. É o teu médico que avalia o que se passa no teu caso.
Enxaqueca sem aura pode ser só dor de cabeça de um lado?
Pode começar assim, mas para ser enxaqueca costuma haver mais sinais: dor pulsátil, náuseas ou sensibilidade à luz e ao som, e agravamento com o esforço. Nas crianças, a dor é muitas vezes dos dois lados, segundo a CUF.
Preciso de fazer exames para saber se tenho enxaqueca sem aura?
Não existe um exame específico que confirme a enxaqueca. O médico baseia-se na tua história clínica e no exame físico e neurológico, e pode pedir exames noutras situações, se achar necessário.
As mulheres têm mais enxaqueca sem aura?
A enxaqueca é mais frequente nas mulheres, mas os dados por tipo (com ou sem aura) variam entre estudos. Para os números gerais, vê Enxaqueca em números.
Fontes
- Enxaqueca: o que é, sintomas e tratamento
- Cefaleias (Dores de cabeça): causas, diagnóstico e tratamento
- ENXAQUECA E CEFALEIAS
- Saúde 24 ou 112: para que número ligar?
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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