
Tipos de enxaqueca: com aura, sem aura, crónica, vestibular e outras formas
Ouviste o teu médico falar em "enxaqueca com aura" e ficaste a pensar se é a tua. Ou leste "enxaqueca crónica" num artigo e não sabes se isso te diz respeito. Ou então tens tonturas durante as crises e alguém falou em "enxaqueca vestibular". Existem vários tipos de enxaqueca, e este artigo é um mapa simples para te situares: o que cada um quer dizer, em que se distinguem e onde ler mais.
Se quiseres ver o quadro geral antes dos detalhes, a nossa página Sintomas da enxaqueca reúne todos os temas deste grupo de artigos.
Em resumo
- A enxaqueca divide-se em formas principais consoante tenha ou não aura (sem aura é a mais comum), consoante a frequência (episódica ou crónica) e consoante sintomas particulares, como a tontura na enxaqueca vestibular.
- A enxaqueca crónica distingue-se da episódica pela frequência das crises, e não pela intensidade de cada uma.
- As formas hemiplégica, de aura do tronco cerebral e retiniana são raras e merecem sempre avaliação médica.
- Só um profissional de saúde pode dizer qual é o teu tipo; anotar as tuas crises ajuda a ter essa conversa.
Como se classificam as enxaquecas?
As enxaquecas são classificadas sobretudo pela presença de aura, pela frequência das crises e por alguns sintomas particulares. É uma forma de os médicos falarem todos a mesma língua e de escolherem a abordagem mais adequada a cada pessoa.
Um ponto tranquilizador: ter um tipo ou outro não faz de ti uma pessoa "mais doente". Muita gente tem mais de um padrão ao longo da vida, por exemplo crises com aura e crises sem aura, ou crises que ficam mais frequentes numa fase de stress e depois voltam a espaçar-se.
Se te cruzares com palavras que não conheces (fotofobia, pródromo, cefaleia), o Glossário da enxaqueca explica-as de forma simples.
Enxaqueca sem aura: a forma mais comum
A enxaqueca sem aura é a forma mais frequente: a dor surge sem sinais neurológicos a avisar antes. Segundo a CUF, a dor tende a ser pulsátil, a agravar-se com o esforço físico ou com os movimentos da cabeça, a afetar um dos lados e a vir acompanhada de náuseas, vómitos e intolerância à luz, ao ruído e a alguns cheiros.
Uma crise de enxaqueca pode durar entre 4 e 72 horas, por isso esta é a "enxaqueca clássica" que muita gente reconhece, mesmo sem lhe saber o nome. Se queres perceber o que muda em relação à enxaqueca com aura, temos um artigo dedicado: Enxaqueca sem aura: sintomas, duração e diferenças com a enxaqueca com aura.
Enxaqueca com aura: quando há sinais antes da dor
Na enxaqueca com aura, aparecem sintomas neurológicos temporários antes da dor (ou, por vezes, durante a crise). A aura é a mais das vezes visual: perda de visão de um dos lados do campo visual ou pontos luminosos, mas também pode ser formigueiro ou dormência de um lado da face ou de uma mão. Segundo a CUF, costuma durar cerca de 10 a 30 minutos e antecede a dor.
Quantas pessoas a têm? Depende da fonte: a CUF refere cerca de 15% das pessoas com enxaqueca, enquanto o Manual MSD fala de cerca de 25%. A diferença mostra que os números variam consoante o estudo e a forma de perguntar.
Para aprender a reconhecer o que sentes nos minutos que antecedem a dor, lê Enxaqueca com aura: como reconhecer os sinais antes da crise.
Enxaqueca episódica ou crónica: uma questão de frequência
A diferença entre enxaqueca episódica e crónica não está na intensidade de cada crise, mas no número de dias com dor por mês. Na enxaqueca episódica, as crises alternam com períodos sem dor. Na crónica, a dor está presente com muito mais frequência e de forma persistente ao longo do tempo. O teu médico é quem define em que grupo te encontras.
É importante saber que estas duas formas não são "para sempre". Segundo a Sociedade Portuguesa de Neurologia, a maioria das pessoas com enxaqueca crónica começa por ter enxaqueca episódica, e o consumo excessivo de medicação sintomática é uma causa importante, e por vezes pouco reconhecida, dessa transformação. Isto não é motivo para culpa: é uma razão para falares com o teu médico sobre a forma como usas a medicação para as crises.
Se tens dor de cabeça quase todos os dias, não te fiques com dúvidas: lê Dor de cabeça todos os dias: porquê e quando falar com o médico. E, se já te falaram em tratamentos específicos, podes ver como funcionam o Botox para enxaqueca crónica e os anti-CGRP. São artigos informativos: a decisão é sempre do teu médico.
Enxaqueca vestibular: quando a tontura ganha destaque
Na enxaqueca vestibular, a tontura ou a vertigem fazem parte da crise, com ou sem dor de cabeça. O sistema vestibular é a parte do ouvido interno que controla o equilíbrio e a noção espacial do movimento, e a CUF descreve esta forma como uma alteração neurológica desse sistema.
Entre os sintomas, a CUF refere:
- dores de cabeça, normalmente de um dos lados;
- vertigens (a sensação de andar à roda) e tonturas que duram vários minutos;
- náuseas e vómitos;
- desequilíbrio e sensibilidade forte ao movimento;
- sensibilidade excessiva à luz, ao som e aos cheiros.
As vertigens podem surgir durante o movimento ou até em repouso, sentada ou deitada. Como há outras causas de vertigem (a CUF tem um artigo sobre as várias causas das vertigens), este é um daqueles casos em que o diagnóstico precisa mesmo de um profissional.
As formas mais raras: hemiplégica, aura do tronco cerebral e retiniana
Existem formas de enxaqueca pouco frequentes que têm características próprias, e vale a pena conhecê-las sem alarme. Todas pedem avaliação médica, sobretudo na primeira vez.
Enxaqueca hemiplégica
Causa fraqueza num dos lados do corpo durante a aura. O Manual MSD descreve a forma familiar como um subtipo raro, associado a defeitos genéticos. Se quiseres perceber o papel da hereditariedade, lê Enxaqueca hereditária: é genética e vais transmiti-la aos teus filhos?.
Enxaqueca com aura do tronco cerebral
Antigamente chamada enxaqueca da artéria basilar, pode causar, segundo o Manual MSD, combinações de vertigem, falta de coordenação dos movimentos, alterações da visão, zumbido, fala arrastada e flutuações do nível de alerta.
Enxaqueca retiniana
Provoca perda de visão num só olho, durante 10 a 20 minutos, que pode estar associada a dor de cabeça, segundo a GPnotebook. É diferente da aura visual "normal", que afeta os dois olhos. Para distinguir estas situações e saber o que fazer, lê Enxaqueca ocular (oftálmica): tudo o que precisas de saber.
Um aviso importante: se tiveres, de repente e pela primeira vez, fraqueza num lado do corpo, dificuldade em falar ou perda de visão, não esperes para perceber o tipo de enxaqueca. Consulta Dor de cabeça: quando ir às urgências e quando podes esperar e procura ajuda médica.
Enxaqueca, cefaleia de tensão ou cefaleia em salvas: como te orientares?
Nem toda a dor de cabeça forte é enxaqueca, e as três formas mais comuns distinguem-se por alguns traços. Esta é uma orientação geral, não um diagnóstico:
- Enxaqueca: atinge normalmente um dos lados, com dor forte, por vezes pulsátil, acompanhada de intolerância à luz, ao ruído ou a cheiros; pode durar de algumas horas a três dias, segundo a CUF.
- Cefaleia de tensão: dor mais leve, tipo pressão ou aperto, dos dois lados, que não se agrava com a atividade e raramente impede o dia a dia.
- Cefaleia em salvas: dor lancinante de um só lado, concentrada na têmpora e atrás do olho, com episódios de 15 minutos a três horas que podem repetir-se até oito vezes num dia.
A CUF assinala que as diferenças nem sempre são evidentes, por isso por vezes demora a identificar-se o problema concreto. Para uma comparação mais detalhada, lê Diferença entre enxaqueca e dor de cabeça: como as distinguir.
E se a pessoa com enxaqueca for um filho ou uma filha, o artigo Enxaqueca em crianças e adolescentes: o guia para pais ajuda a perceber o que é específico dessas idades.
Como saber que tipo de enxaqueca tens?
Quem decide o tipo é o médico, mas chegas à consulta muito mais preparada se tiveres anotado o que sentes. Não podemos (nem queremos) fazer diagnósticos à distância, mas há perguntas que ajudam a organizar as ideias:
- Sentes algo antes da dor (luzes, manchas, formigueiro, dificuldade em falar)? Quanto tempo dura?
- Quantos dias por mês tens dor de cabeça, e em quantos é forte?
- Tens tonturas ou sensação de andar à roda durante as crises?
- Quanto tempo dura cada crise, e o que a piora ou melhora?
- Há alguém na família com enxaqueca?
Estas respostas, escritas ao longo de algumas semanas, valem mais do que a memória no dia da consulta. Para saber o que pode estar por trás das tuas crises, podes também começar a identificar os desencadeantes da enxaqueca.
Para te orientares, fica com o essencial
Os tipos de enxaqueca não são caixas rígidas, são pontos de referência. Podes ter enxaqueca sem aura e, de vez em quando, uma crise com aura. Podes passar de episódica para crónica numa fase má e voltar atrás depois. O que importa é conseguires descrever bem o que sentes.
Em cinco linhas:
- Sem aura: dor sem aviso, a forma mais comum.
- Com aura: sintomas neurológicos passageiros antes da dor, muitas vezes visuais.
- Episódica ou crónica: crises com períodos sem dor entre elas, ou dor muito frequente e persistente.
- Vestibular: a tontura e a vertigem são parte da crise.
- Formas raras: hemiplégica, de aura do tronco cerebral e retiniana, sempre com avaliação médica.
Não há aqui promessas de cura, mas há uma boa notícia: quanto melhor souberes descrever as tuas crises, mais fácil é o teu médico encontrar contigo o caminho certo.
Perguntas frequentes
Quais são os principais tipos de enxaqueca?
Os principais são a enxaqueca sem aura (a mais comum) e a enxaqueca com aura. Depois há classificações por frequência (episódica e crónica) e formas particulares, como a vestibular, a hemiplégica, a de aura do tronco cerebral e a retiniana.
Qual é a diferença entre enxaqueca episódica e crónica?
É o número de dias com dor. Na episódica, as crises alternam com períodos sem dor e, na crónica, a dor é muito mais frequente e persiste ao longo de vários meses. Se te identificas com a segunda, fala com o teu médico.
A enxaqueca vestibular é o mesmo que uma labirintite?
Não são a mesma coisa. A enxaqueca vestibular é uma alteração neurológica ligada à enxaqueca, que provoca vertigem e tontura, com ou sem dor de cabeça. Como há várias causas de vertigem, só um médico pode distinguir.
Posso ter mais de um tipo de enxaqueca?
Sim, é comum. Uma pessoa pode ter crises com aura e crises sem aura, ou passar por fases com crises mais frequentes e outras mais espaçadas. Anotar as crises ajuda o teu médico a perceber o teu padrão.
Como sei se a minha dor de cabeça é mesmo enxaqueca?
Pistas como dor de um lado, pulsátil, com intolerância à luz, ao ruído ou a cheiros, e náuseas, apontam para enxaqueca, ao contrário da dor em aperto dos dois lados típica da cefaleia de tensão. Mas só um profissional de saúde confirma o diagnóstico.
Fontes
- Enxaqueca: o que é, sintomas e tratamento
- Sabe o que é a enxaqueca vestibular?
- As várias causas das vertigens
- Cefaleias em salvas: uma dor de cabeça intensa
- Será enxaqueca ou dor de cabeça?
- www.msdmanuals.com
- www.msdmanuals.com
- section download
- Enxaqueca retiniana
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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