
Enxaqueca vestibular: quando a enxaqueca provoca tonturas e vertigens
Levantas-te do sofá e a sala parece ligeiramente a rodar. Ou andas na rua e sentes o chão menos firme, como se estivesses num barco, e a dor de cabeça nem sequer aparece. Se também tens enxaqueca, pode haver uma ligação: a enxaqueca vestibular é uma forma de enxaqueca em que o principal sintoma são as tonturas e as vertigens.
Neste artigo explicamos o que é, como se sente, porque pode acontecer sem dor de cabeça e como se distingue de outras causas de tonturas que convém ver com um médico. Faz parte do nosso guia sobre os sintomas da enxaqueca, onde encontras as outras formas e sinais da doença.
Em resumo
- A enxaqueca vestibular é uma forma de enxaqueca que causa crises de tonturas e vertigens, com ou sem dor de cabeça.
- Costuma ser mais comum em mulheres e muitas pessoas têm também enxaqueca "clássica", mas continua a ser pouco diagnosticada porque se parece com outros problemas.
- O diagnóstico é clínico: depende da tua história e de afastar outras causas, por isso só um médico o pode fazer.
- Tonturas com fala arrastada, visão dupla, perda de força ou dor de cabeça repentina e muito forte são motivo para ligar já ao 112.
O que é a enxaqueca vestibular?
A enxaqueca vestibular é uma forma complexa de enxaqueca que pode manifestar-se com dor de cabeça associada a vertigens e desorientação, segundo a CUF. O sistema vestibular é a parte do ouvido interno que, além de ajudar a ouvir, controla o equilíbrio e a noção do movimento no espaço.
Isto não quer dizer que o problema esteja no ouvido. Na enxaqueca vestibular, o que se altera é a forma como o cérebro processa os sinais de equilíbrio durante uma crise de enxaqueca. Se quiseres perceber melhor o que se passa a nível cerebral, temos um artigo sobre as causas da enxaqueca.
Pelas estimativas de um póster científico da Universidade Egas Moniz, afeta cerca de 1 a 2% da população e é ainda muito subdiagnosticada, porque os sintomas se parecem com os de outras doenças. Também se vê descrita como uma das formas de enxaqueca que não se resumem à dor, e podes ver o panorama completo em Tipos de enxaqueca.
Se algum termo te soar estranho ao longo da leitura, o nosso glossário da enxaqueca explica-os de forma simples.
Como se sente uma crise de tonturas por enxaqueca?
Uma crise pode juntar vertigem, desequilíbrio, náuseas e grande sensibilidade ao movimento, à luz e ao som. A CUF descreve que a enxaqueca vestibular combina os sintomas habituais das cefaleias com os causados por perturbações vestibulares, como a vertigem e as náuseas, associadas ou não aos movimentos da cabeça.
Convém distinguir dois termos que se usam muitas vezes como sinónimos. Segundo a CUF, "tontura" abrange vários sintomas (fraqueza, desequilíbrio, cabeça atordoada, sensação de desmaio), enquanto na vertigem sentes que tu ou o ambiente à tua volta estão a rodar ou a mover-se.
Na prática, durante um episódio podes sentir:
- sensação de rotação (vertigem) ou de balançar, como num barco;
- instabilidade ao andar, ou medo de cair;
- náuseas, por vezes com vómitos (se isto te acontece muito, lê Enxaqueca e náuseas);
- desconforto com luz, ruídos e cheiros fortes;
- dor de cabeça, normalmente de um lado, mas nem sempre.
Os episódios não são todos iguais. Duas crises da mesma pessoa podem ser muito diferentes: numa há dor de cabeça e noutra só tontura.
Pode haver vertigens de enxaqueca sem dor de cabeça?
Sim: a enxaqueca vestibular pode acontecer com ou sem dor de cabeça. A CUF refere que se trata de uma condição neurológica que provoca crises de tontura e vertigem, muitas vezes sem qualquer dor de cabeça associada.
Isto é parecido com o que acontece na enxaqueca silenciosa, em que a aura surge sem dor. A diferença é que aqui o sintoma que se manifesta é o desequilíbrio, e não os sinais visuais. Se sentes também luzes ou manchas na visão, o artigo sobre a enxaqueca com aura ajuda-te a reconhecer os sinais.
O mais difícil de aceitar para quem vive isto é a falta de dor. Sem dor de cabeça, é fácil não pensar em enxaqueca, e é por isso que muitas pessoas andam anos a ouvir "é do pescoço" ou "é da tensão" sem uma resposta clara.
Quem tem mais probabilidade e o que pode desencadear os episódios?
A enxaqueca vestibular é mais comum nas mulheres e, segundo a CUF, surge frequentemente a partir dos 40 anos, embora também possa acontecer em crianças. O historial familiar tem algum peso, e o póster da Egas Moniz fala de uma forte componente genética, mais frequente em quem já tem enxaqueca.
Os desencadeantes parecem ser os da enxaqueca em geral. A CUF indica que há tendência para os episódios surgirem durante o período menstrual e noutras situações que provocam enxaqueca, como alterações hormonais, mudanças nos padrões de sono ou o consumo de alguns alimentos, como vinho ou queijo curado.
Cada pessoa reage de forma diferente, por isso o mais útil é observar o teu caso. O nosso guia para identificar os desencadeantes da enxaqueca explica como fazê-lo passo a passo, e se notas ligação ao ciclo, vê Enxaqueca menstrual.
Como distinguir a enxaqueca vestibular de outras causas de vertigens?
A diferença está sobretudo no padrão: quanto dura cada episódio, o que o provoca e o que o acompanha. Só um médico consegue fazer esta distinção, mas conhecer as outras causas ajuda-te a descrever melhor o que sentes.
Segundo a CUF, as causas mais comuns de vertigem são as inflamações do ouvido interno, a doença de Ménière, a enxaqueca, os tumores do nervo acústico ou, mais raramente, um AVC, uma hemorragia cerebral ou a esclerose múltipla. Algumas das situações mais frequentes:
- Vertigem posicional paroxística benigna (a "vertigem dos cristais"): segundo a CUF, são episódios de rotação que duram segundos e surgem com mudanças de posição da cabeça, por exemplo ao deitar, levantar ou olhar para cima. É a causa mais frequente de vertigem.
- Doença de Ménière: a CUF descreve crises que podem durar de minutos até 1 a 2 dias, quase sempre com vertigem, zumbido e perda de audição, por vezes com sensação de ouvido tapado.
- Nevrite vestibular: de acordo com a CUF, é uma inflamação do nervo vestibular que causa um quadro de vertigem aguda, rotatória, com duração igual ou superior a 24 horas.
Na enxaqueca vestibular, é típico haver outros sinais de enxaqueca nos mesmos episódios, como sensibilidade à luz e ao som, e uma história de enxaqueca. Mas isto também pode ser enganador, porque há pessoas com enxaqueca que têm outra causa de tonturas em simultâneo. Por isso não vale a pena tentares diagnosticar-te sozinha.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico: o médico ouve a tua história, examina-te e exclui outras causas. Segundo o póster da Egas Moniz, confirma-se depois de pelo menos 5 episódios de vertigem moderada a grave, com pelo menos metade deles com características de enxaqueca (dor de cabeça típica, sensibilidade à luz e ao som ou aura), de uma história de enxaqueca e da exclusão de outras causas vestibulares ou neurológicas.
Nas tonturas em geral, a CUF explica que o diagnóstico se faz pela história clínica e pelo exame objetivo, apoiados por exames complementares quando são necessários, como a avaliação audiológica e a videonistagmografia. Não há um exame único que "prove" a enxaqueca vestibular, por isso a tua descrição dos episódios pesa muito.
Podes ser seguida por médico de família, neurologia ou otorrinolaringologia, conforme o caso. Se tens dúvidas sobre a quem recorrer, lê Enxaqueca: que médico consultar e como preparar a consulta.
O que podes fazer para acompanhar e limitar os episódios?
O ponto de partida é registar o que se passa, porque é isso que o médico vai pedir. A CUF refere que o primeiro passo na prevenção é identificar e afastar os fatores precipitantes, sempre que possível.
Na consulta, ajuda-te levar apontado:
- a data e a hora de cada episódio e quanto durou;
- o que sentiste (rotação, desequilíbrio, náuseas, sensibilidade à luz ou ao som);
- se houve dor de cabeça ou não;
- o que aconteceu antes: dormiste mal, tiveste stress, estavas perto da menstruação, comeste algo diferente;
- se a tontura piora com movimentos da cabeça ou aparece sem razão.
O nosso artigo sobre o diário de enxaqueca detalha o que anotar para que o registo seja mesmo útil.
Quanto a tratamentos, não existe medicação específica para a enxaqueca vestibular. A CUF explica que o tratamento é prescrito para evitar ou reduzir os sintomas (dor de cabeça, vertigens ou náuseas) e que, nos casos mais frequentes ou incapacitantes, o médico pode ponderar uma abordagem preventiva. Que opção usar, ou se deves usar alguma, é uma decisão que cabe ao teu médico.
Quando consultar e quando ligar para o 112?
Se tens tonturas ou vertigens que se repetem, marca consulta, mesmo que passem sozinhas. A CUF lembra que as vertigens são motivo para consultar o médico, porque geralmente se devem a problemas de otorrinolaringologia ou de neurologia e pedem tratamento especializado.
Há situações em que não se espera. Segundo a CUF, é fundamental procurar atendimento urgente num primeiro episódio, se os sintomas forem incapacitantes ou durarem várias horas, ou se vierem acompanhados de:
- dor de cabeça intensa e repentina;
- visão dupla ou perda de visão;
- dificuldade em falar ou engolir;
- perda de força ou dormência nos braços e/ou pernas;
- dificuldade de coordenação ou de andar.
Estes sinais podem indicar um AVC ou um acidente isquémico transitório. O SNS 24 lembra os três sinais de alerta do AVC (boca ao lado, falta de força num braço ou perna, dificuldade em falar) e recomenda ligar o 112 o mais depressa possível, para ativar a Via Verde do AVC. Se quiseres rever outras situações em que a dor de cabeça pede urgência, lê Dor de cabeça: quando ir às urgências e quando podes esperar.
Na dúvida, podes também ligar para o SNS 24 (808 24 24 24) para uma orientação inicial.
Em prática: o que reter
A enxaqueca vestibular é real, é mais comum do que se pensa e pode aparecer sem dor de cabeça. Não é "só nervos" nem tens de a aguentar sem respostas.
Regista os teus episódios, repara no que os antecede e leva essas notas ao médico, que fará o diagnóstico e decidirá o melhor caminho para ti. E, se aparecerem sinais neurológicos como fala arrastada, visão dupla ou falta de força, não esperes: liga para o 112.
Perguntas frequentes
A enxaqueca vestibular é o mesmo que labirintite?
Não. A labirintite é uma inflamação do ouvido interno, enquanto a enxaqueca vestibular é uma forma de enxaqueca que afeta o equilíbrio. A CUF refere que as inflamações do ouvido interno e a enxaqueca estão entre as causas mais comuns de vertigem, por isso é o médico que deve distingui-las.
Posso ter enxaqueca vestibular sem nunca ter tido dor de cabeça?
Pode acontecer que as vertigens surjam sem dor, mas o diagnóstico exige normalmente uma história de enxaqueca, atual ou passada. É o que descreve o póster da Egas Moniz, que fala de uma história de enxaqueca com ou sem aura e da exclusão de outras causas.
Tem cura?
Não existe uma cura, mas existem formas de reduzir os episódios e de os controlar melhor. A CUF explica que o tratamento visa evitar ou diminuir os sintomas, e o teu médico vai ajustá-lo ao teu caso.
É hereditária?
O historial familiar tem algum peso, segundo a CUF. Isso não quer dizer que a vás transmitir: se tens esta dúvida, lê o nosso artigo sobre a enxaqueca hereditária.
Os episódios vão passar sozinhos?
Cada episódio acaba por passar, mas a duração varia: numa tontura por enxaqueca pode ir de minutos a horas, ou mais. Se os episódios se repetem, ou se são incapacitantes, não adies a consulta.
Fontes
- Sabe o que é a enxaqueca vestibular?
- ENXAQUECA VESTIBULAR UMA QUESTAO GENETICA
- As várias causas das vertigens
- Vertigens (Síndrome Vertiginoso): o que é, sintomas e tratamento
- Tonturas: o que é, sintomas e tratamento
- Doença de Ménière: o que é, sintomas e tratamento
- O que é a nevrite vestibular?
- SNS24
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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