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Mulher de olhos fechados com a mão na têmpora, ao lado de um calendário com três gotas de menstruação
Sintomas

Enxaqueca menstrual: a enxaqueca que chega com a menstruação

Por Laurine Nicoletti9 min

Todos os meses é a mesma história: a menstruação está a chegar e, ao mesmo tempo, aparece aquela dor de cabeça que te obriga a cancelar planos, a fechar as persianas e a esperar que passe. Já pensaste que pode ser enxaqueca menstrual e não uma simples coincidência?

Isto tem nome: enxaqueca menstrual (também chamada enxaqueca catamenial). É uma enxaqueca ligada às mudanças hormonais do ciclo, e é mais comum do que se pensa. Neste artigo vamos explicar o que é, porque acontece, como a reconheces e o que a medicina sabe hoje sobre o seu tratamento. Se queres ver o panorama completo, visita também a nossa página Sintomas da enxaqueca.

Em resumo

  • A enxaqueca menstrual é uma enxaqueca ligada às mudanças hormonais do ciclo, com crises que se repetem à volta da menstruação.
  • A explicação mais aceite é a queda de estrogénio nos dias antes da menstruação, e é a descida rápida que parece pesar, não o nível baixo.
  • Não existe um exame que a confirme: registar as crises e o primeiro dia da menstruação durante cerca de três ciclos ajuda a perceber o padrão.
  • Decisões sobre medicação, prevenção ou pílula devem ser tomadas com um médico, sobretudo em caso de aura.

O que é a enxaqueca menstrual?

É uma enxaqueca cujas crises surgem à volta da menstruação, de forma repetida, de ciclo para ciclo. Segundo a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, citada pelo Viral Sapo, os fatores hormonais, como a menstruação, estão entre os gatilhos mais comuns de uma crise de enxaqueca.

Quanto mais olhamos para os números, mais comum parece: o Viral Sapo fala em até 75% das mulheres com enxaqueca com uma relação com o ciclo menstrual. As estimativas variam consoante o estudo, mas a mensagem é a mesma: não estás sozinha.

Porque é que a menstruação desencadeia uma crise?

A explicação mais aceite tem a ver com o estrogénio, uma das principais hormonas do ciclo. Nos dias que antecedem a menstruação, os níveis de estrogénio descem naturalmente, e essa queda é considerada um gatilho comum de enxaqueca.

Não é o nível baixo em si que parece pesar, mas a descida rápida. O cérebro de quem tem enxaqueca parece ser particularmente sensível a estas oscilações. Ainda não se sabe tudo sobre o mecanismo exato, e é por isso que ninguém consegue prever com certeza qual será o teu padrão.

Há outro fator referido: na altura da menstruação o corpo liberta mais prostaglandinas, substâncias que podem causar dores menstruais e também aumentar o risco de enxaqueca.

Se queres perceber melhor como a genética entra nesta equação, lê Enxaqueca hereditária: é genética e vais transmiti-la aos teus filhos?.

Como é uma enxaqueca menstrual?

Os sintomas são os de uma enxaqueca habitual: dor de cabeça muitas vezes de um só lado, latejante, com sensibilidade à luz e ao som, e por vezes náuseas. O que muda é o momento e, em muitas mulheres, a intensidade.

Convém não confundir com outras queixas desta fase. As cólicas (dismenorreia) e a síndrome de tensão pré-menstrual podem existir ao mesmo tempo, e a CUF explica a diferença em páginas dedicadas. Uma coisa não exclui a outra, e é frequente haver sobreposição.

Como saber se as tuas enxaquecas são menstruais?

Não há um exame de sangue ou uma imagem que confirme a enxaqueca menstrual. O que ajuda é registar: acompanhar as crises em relação ao ciclo ao longo de vários meses, e o diário de cefaleias é uma ferramenta central para isso.

Para que o registo seja útil, anota:

  • o primeiro dia da menstruação de cada ciclo;
  • o dia e a hora em que cada crise começou;
  • a intensidade e a duração;
  • a medicação que tomaste e se funcionou;
  • outros possíveis gatilhos nesses dias: sono, stress, álcool, refeições saltadas.

Passados três ciclos, é mais fácil ver se as crises se agrupam à volta da menstruação ou se aparecem espalhadas. Esse padrão é precisamente o que o teu médico quer ver.

O que podes fazer quando a crise chega?

O tratamento da crise não é muito diferente do de qualquer outra enxaqueca, e a escolha do medicamento é sempre uma decisão com o teu médico ou farmacêutico. É ele quem indica qual, quando e com que limites.

Um aviso importante: em Portugal, 72,4% das mulheres com enxaqueca recorrem à automedicação, segundo dados apresentados pela MiGRA Portugal. Tomar analgésicos com muita frequência pode, por si só, agravar as dores de cabeça. Por isso, se estás a recorrer a medicação todos os meses, vale mesmo a pena falar com um profissional.

Fora da farmácia, há também gestos simples que podem tornar a crise mais suportável, como descansar num sítio escuro e calmo. Encontras mais ideias em Sintomas da enxaqueca.

Prevenção curta à volta da menstruação: o que é?

Como a enxaqueca menstrual é, em muitas mulheres, previsível, os médicos podem propor uma estratégia chamada prevenção de curta duração (ou mini-profilaxia). A ideia é simples: em vez de tomar um tratamento preventivo todos os dias do ano, usa-se durante alguns dias à volta da menstruação, quando o risco é maior.

Isto não é para decidires sozinha. Estas decisões dependem da tua saúde, do tipo de enxaqueca, de um ciclo regular ou não, e de outros medicamentos. É por isso que o registo do ciclo, de que falámos acima, faz tanta diferença na consulta.

Se queres olhar para a prevenção de forma mais ampla (sono, stress, alimentação), passa por Desencadeantes da enxaqueca.

Enxaqueca menstrual, pílula, gravidez e menopausa

As hormonas não mexem só com as crises mensais. Segundo a CUF, a enxaqueca tem características muito ligadas ao ciclo reprodutivo feminino: é mais frequente depois da primeira menstruação e durante o período menstrual, pode piorar por vezes com contracetivos hormonais ou terapêutica hormonal, e pode atenuar ou desaparecer durante a gravidez ou na menopausa.

E a pílula?

A resposta é "depende". Para a maioria das mulheres com enxaqueca, a pílula combinada pode ser eficaz e segura, e há situações em que ajuda a tratar a enxaqueca menstrual.

O ponto crítico é a aura, os sintomas neurológicos temporários (como ver luzes ou manchas) que antecedem a dor em alguns casos. A pílula combinada não deve ser usada em mulheres com enxaqueca com aura, por causa do risco aumentado de AVC, e a CUF refere o mesmo. Se não tens a certeza de ter aura, fala com o teu médico antes de qualquer mudança. Para perceber melhor o que é a aura, vê a página Sintomas da enxaqueca.

Gravidez e menopausa

Em muitas mulheres a enxaqueca melhora durante a gravidez ou depois da menopausa, mas nem todas têm essa sorte, e a experiência é muito individual. Não tomes decisões sobre medicação se estás grávida ou a pensar engravidar sem falar primeiro com a tua médica ou o teu médico.

Quando falar com um médico e como preparar a consulta?

Vale a pena marcar consulta com o teu médico de família (que, se for preciso, pode encaminhar-te para neurologia ou para uma consulta de cefaleias) quando:

  • as crises se repetem todos os meses e interferem com a escola, o trabalho ou a vida social;
  • a dor não passa, ou a medicação que tens já não chega;
  • tomas analgésicos muitas vezes por mês;
  • estás a pensar mudar de método contracetivo, ou tens aura;
  • as dores mudaram de padrão.

Há ainda um motivo mais amplo: um estudo europeu com 5.410 pessoas, apresentado pela MiGRA Portugal, mostra que cerca de 7 em cada 10 mulheres com enxaqueca hormonal nunca receberam tratamento individualizado. Em Portugal, 33,6% das mulheres com enxaqueca nunca consultaram um médico. Não tens de aguentar em silêncio.

Se tiveres sintomas novos, súbitos ou muito diferentes do habitual, como uma dor de cabeça fortíssima de início repentino, fraqueza, dificuldade em falar ou confusão, pede ajuda de imediato (SNS 24 ou 112).

Resumir tudo numa página

Leva à consulta uma folha simples com:

  1. a data de início da menstruação dos últimos 3 meses;
  2. as datas das crises, com intensidade e duração;
  3. o que tomaste e se resultou;
  4. o método contracetivo que usas;
  5. as tuas dúvidas, por ordem de importância.

Com esta página, o médico percebe em poucos minutos se há um padrão menstrual e pode discutir contigo as opções.

Em resumo

A enxaqueca menstrual é real, é comum e tem uma explicação hormonal: a queda de estrogénio antes da menstruação. Não é "fraqueza" nem exagero, e existem estratégias para a tratar e, em alguns casos, reduzir.

O primeiro passo, e o mais útil, é observar: três ciclos de registo dizem mais do que mil suposições. A partir daí, a conversa com o teu médico passa a ser concreta, e as decisões sobre tratamento, contraceção ou prevenção ficam mais fáceis de tomar.

Perguntas frequentes

O que é a enxaqueca menstrual?

É uma enxaqueca cujas crises surgem à volta da menstruação, de forma repetida, de ciclo para ciclo. Também se chama enxaqueca catamenial e está ligada às mudanças hormonais do ciclo.

Porque é que a menstruação pode desencadear uma crise de enxaqueca?

A explicação mais aceite é a descida dos níveis de estrogénio nos dias que antecedem a menstruação. O cérebro de quem tem enxaqueca parece ser particularmente sensível a esta descida rápida, mas o mecanismo exato ainda não é totalmente conhecido.

Como saber se as minhas enxaqueca são menstruais?

Não há um exame que confirme a enxaqueca menstrual. O que ajuda é registar durante vários meses o primeiro dia da menstruação e o dia, a intensidade e a duração de cada crise, para ver se se agrupam à volta do período.

A pílula pode ser usada por quem tem enxaqueca?

Depende de cada caso. A pílula combinada não deve ser usada em mulheres com enxaqueca com aura, por causa do risco aumentado de AVC, por isso é importante falar com o médico antes de qualquer mudança.

Quando devo falar com um médico?

Quando as crises se repetem todos os meses e interferem com a vida diária, quando a medicação já não chega ou quando tomas analgésicos muitas vezes por mês. Se surgir uma dor de cabeça fortíssima de início repentino, fraqueza, dificuldade em falar ou confusão, pede ajuda de imediato (SNS 24 ou 112).

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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