
Pílula e enxaqueca: o que dizem os estudos e quando falar com o médico
Começaste a tomar a pílula e as dores de cabeça mudaram. Ou tens enxaqueca desde a adolescência e, na consulta, alguém perguntou-te se tens aura antes de falar de contraceção. É normal ficares com dúvidas: a relação entre pílula e enxaqueca não é igual para todas as pessoas.
Neste artigo vamos ver o que as fontes em português dizem sobre o efeito das hormonas, porque é que a enxaqueca com aura merece mais cuidado, o que ainda é incerto e que perguntas podes levar ao teu médico. Não é um conselho pessoal: quem decide, contigo, é um profissional de saúde. Se quiseres ver o conjunto do tema, o nosso guia sobre como prevenir a enxaqueca reúne os outros fatores que contam.
Em resumo
- A pílula pode melhorar, não mudar ou piorar as crises, e por isso "depende dos casos", como diz um artigo do SAPO sobre enxaqueca e pílula.
- Na enxaqueca com aura, os contracetivos com estrogénio (pílula combinada, anel e adesivo) não são aconselhados, porque a CUF associa a enxaqueca com aura ao AVC isquémico em mulheres mais jovens, sobretudo se fumarem ou tomarem contracetivos orais.
- Há alternativas sem estrogénio, como o DIU de cobre, o implante ou a pílula só com progestagénio, que se discutem numa consulta.
- Se a pílula parece estar a piorar as tuas crises, ou se tens aura, vale a pena falares com o teu médico em vez de decidires sozinha.
A pílula pode provocar ou agravar a enxaqueca?
Pode, mas não é regra: o efeito varia muito de pessoa para pessoa. Um texto do SAPO sobre enxaqueca e pílula resume bem a ideia: a resposta depende do tipo de enxaqueca e do tipo de contracetivo.
Algumas mulheres notam crises mais frequentes ou mais intensas depois de começarem uma pílula. Outras sentem o contrário, porque as hormonas ficam mais estáveis. Alguns textos de divulgação, como este sobre os benefícios da pílula, referem que a pílula pode ajudar a controlar a oscilação hormonal e, nalguns casos, a diminuir as crises. É uma possibilidade, não uma promessa.
Há ainda um pormenor prático. A ficha em português do GPnotebook sobre enxaqueca e pílula combinada, dirigida a profissionais de saúde e baseada em critérios britânicos, diz que a mulher deve ser avisada para comunicar se as dores de cabeça ficarem mais frequentes depois de começar a pílula. Ou seja: mudar de padrão é uma informação útil para o médico, não um fracasso teu.
Porque é que as hormonas mexem com as crises?
Porque o estrogénio e outras hormonas do ciclo influenciam o sistema que regula a dor, e a enxaqueca é cerca de três vezes mais frequente nas mulheres em idade reprodutiva do que nos homens da mesma idade. Esta ideia aparece na revisão Influência hormonal na enxaqueca, da Universidade de Coimbra.
O que se descreve com mais frequência é a descida do estrogénio como desencadeante de crises, sobretudo na enxaqueca catamenial (ligada à menstruação). É por isso que muitas mulheres têm crises mais fortes à volta dos dias da menstruação. Se isto te soa familiar, o artigo sobre enxaqueca menstrual explica esta forma de crise, e o texto sobre o ciclo menstrual e as crises mostra porque é que as hormonas as podem desencadear.
E a pílula? Como altera os níveis hormonais ao longo do mês, pode atenuar ou, noutros casos, reproduzir esse tipo de oscilação. A pausa entre cartelas é muitas vezes apontada como um momento possível de descida hormonal, mas isto é uma hipótese a discutir com o médico, não uma conclusão que se aplique a todas.
Pílula e enxaqueca com aura: porque há tanta cautela?
Porque a enxaqueca com aura e os estrogénios têm, cada um, uma associação com o risco de AVC isquémico, e as fontes aconselham prudência quando os dois se juntam. A CUF explica que a enxaqueca com aura está associada ao AVC isquémico em mulheres mais jovens, especialmente se fumarem ou tomarem contracetivos orais. O mesmo texto pede que não se fume durante a toma da pílula e que quem tem enxaqueca com aura deixe de fumar.
A ficha do GPnotebook vai no mesmo sentido: a pílula combinada está contraindicada em mulheres com enxaqueca com aura focal típica. O texto do SAPO acrescenta que a precaução vale para os métodos com estrogénio e progestativo: pílula combinada, anel e adesivo.
Se não tens a certeza de ter aura, repara que ela nem sempre é um clarão ou uma luz em ziguezague. Pode ser uma alteração passageira da visão, formigueiro ou dificuldade em encontrar palavras antes da dor. O nosso guia sobre como reconhecer os sinais da enxaqueca com aura ajuda a perceber se isto te acontece, e depois o melhor é contares ao médico exatamente o que sentes.
Esta cautela não significa que vá acontecer algo grave. Significa que, quando há um fator de risco conhecido, os profissionais preferem evitar somar outro. Se alguma vez tiveres sintomas novos e diferentes do teu habitual, como fraqueza de um lado do corpo ou dificuldade em falar que não passam, fala com um profissional de saúde sem demora.
E se tens enxaqueca sem aura?
Na enxaqueca sem aura, a pílula combinada não está proibida à partida, mas é avaliada caso a caso. Segundo o SAPO, em regra pode usar-se qualquer método, hormonal ou não, exceto se os hormonais estiverem a piorar os sintomas.
A ficha do GPnotebook refere que a pílula combinada pode ser prescrita com cautela quando não há aura típica. Mas indica também situações em que não é adequada: crises graves e regulares que duram mais de 72 horas apesar do tratamento, ou enxaqueca sem aura quando existe mais do que um fator adicional de risco para doença arterial. Quem avalia esses fatores é o médico, com a tua história completa.
Na prática, o que conta aqui é o teu padrão. Se as crises mudaram desde que começaste, se ficaram mais longas ou se há alguma coisa nova, é um bom motivo para voltar a falar sobre o método. Para perceberes melhor este tipo de crise, tens o artigo sobre enxaqueca sem aura: sintomas e duração.
Que alternativas existem quando a pílula combinada não convém?
Existem vários métodos sem estrogénio, e a escolha faz-se numa consulta. De acordo com o SAPO, as mulheres com enxaqueca com aura podem recorrer a contracetivos só com progestativo, como a pílula não combinada, o implante, a injeção ou o sistema intrauterino hormonal (SIU). Há ainda métodos não hormonais, como o DIU de cobre e o preservativo.
Isto não quer dizer que todos se comportem da mesma maneira face às tuas crises. Cada método tem vantagens, limitações e efeitos secundários próprios, e alguns podem alterar o padrão da menstruação. A APF (Associação para o Planeamento da Família) tem informação sobre os contracetivos hormonais orais, incluindo contraindicações, e é um bom ponto de partida para leres antes da consulta.
Uma nota: a mesma página da APF lista, entre as situações de contraindicação da pílula, o risco de AVC, a doença arterial cerebral e as fumadoras com mais de 35 anos, e refere as dores de cabeça graves como contraindicação relativa. Mais uma razão para falares abertamente do teu historial de dor de cabeça.
O que ainda é incerto
Há perguntas para as quais não existe uma resposta única, e convém dizê-lo com honestidade.
- O efeito individual. Não é possível prever, só pelo tipo de pílula, se as tuas crises vão melhorar, ficar iguais ou piorar. Muitas vezes só se percebe observando durante alguns ciclos.
- O peso do risco em cada pessoa. As fontes falam de risco acrescido de AVC na enxaqueca com aura associada a estrogénios, mas isso não diz quanto esse risco pesa na tua situação, que depende também de tabaco, tensão arterial e história familiar. Por isso a decisão é feita com o médico.
- Saber se tens mesmo aura. Há pessoas que só descobrem que têm aura quando alguém lhes pergunta com as palavras certas. Esse detalhe muda as opções de contraceção.
- A explicação exata. As hormonas influenciam a enxaqueca, mas os mecanismos não estão totalmente esclarecidos. A fonte de Coimbra descreve a influência hormonal como um tema em estudo, não fechado.
Dizer "não se sabe tudo" não é dizer que não há orientação. As recomendações de prudência existem e são razoáveis, mas aplicam-se com bom senso e com acompanhamento.
Quando falar com o médico e que perguntas fazer?
Fala com o médico antes de começar, trocar ou parar um método, e sempre que as crises mudarem. Podes marcar com o médico de família, com um ginecologista ou numa consulta de planeamento familiar. Se já tens neurologista por causa da enxaqueca, conta-lhe também o que usas para contraceção.
Situações em que vale a pena marcar consulta:
- começaste uma pílula e as crises ficaram mais frequentes ou mais fortes;
- tens ou suspeitas de ter aura (alterações da visão, formigueiro, dificuldade em falar antes da dor);
- as crises aparecem sempre à volta da menstruação ou da pausa entre cartelas;
- fumas, tens tensão arterial alta ou casos de AVC na família.
Perguntas que podes levar escritas:
- Pelo que me descreves, tenho enxaqueca com ou sem aura?
- O tipo de contracetivo que uso é adequado para a minha enxaqueca?
- Se não for, que opções sem estrogénio fazem sentido para mim?
- Há algum sinal em que devo procurar ajuda mais cedo?
- Quanto tempo devo observar as crises antes de reavaliarmos o método?
- Os meus fatores de risco (tabaco, tensão arterial, família) mudam alguma coisa?
Para a consulta render, ajuda levares dados. Anota quando começam as crises, quanto duram, a intensidade e o que estavas a viver nesses dias. O artigo sobre como identificar os desencadeantes da enxaqueca mostra como fazer este registo passo a passo.
Em resumo: o que podes levar daqui
A pílula não é "boa" nem "má" para a enxaqueca em geral. O que muda é o tipo de enxaqueca, o tipo de método e o teu contexto. A enxaqueca com aura é a situação em que as fontes pedem mais prudência com os estrogénios, e há alternativas.
Se te identificas com alguma destas situações, não precisas de decidir sozinha nem de largar o método por tua conta. Leva as tuas notas, as tuas dúvidas e a lista de perguntas, e deixa que seja a conversa com o médico a orientar o caminho.
Perguntas frequentes
A pílula pode causar enxaqueca?
Pode alterar o padrão das crises em algumas mulheres, mas não em todas. Um artigo do SAPO resume que a resposta depende do tipo de enxaqueca e do método. Se notares mudanças depois de começares, conta ao teu médico.
Posso tomar a pílula se tenho enxaqueca com aura?
As fontes consultadas desaconselham os contracetivos com estrogénio (pílula combinada, anel e adesivo) na enxaqueca com aura, porque a CUF associa esta enxaqueca ao AVC isquémico em mulheres mais jovens, sobretudo com tabaco ou contracetivos orais. Existem alternativas sem estrogénio, e a escolha faz-se com o médico.
E se tenho enxaqueca sem aura?
Em regra, a enxaqueca sem aura não impede o uso de métodos hormonais, exceto se estes estiverem a piorar os sintomas, segundo o SAPO. Cada caso é avaliado pelo médico, que tem em conta outros fatores de risco.
Que contracetivos não têm estrogénio?
Segundo o SAPO, há a pílula só com progestativo, o implante, a injeção, o SIU hormonal, o DIU de cobre e o preservativo. Qual escolher depende de ti, e deve ser decidido numa consulta.
Devo deixar de tomar a pílula se tiver mais crises?
Não deves decidir sozinha: fala primeiro com o teu médico, que pode propor ajustar ou trocar o método com segurança. Entretanto, registar as crises ajuda a perceber se houve mesmo uma mudança.
Fontes
- Sabia que as mulheres têm maior risco de AVC?
- Mulheres com enxaqueca podem tomar a pílula? Depende dos casos
- Este site destina-se a profissionais de saúde
- Este site destina-se a profissionais de saúde
- Pílula - Contraceção hormonal oral - APF
- Tatiana Carvalho
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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