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Mulher serena de olhos fechados ao lado de um escudo com cérebro e três cápsulas, simbolizando o tratamento preventivo da enxaqueca
Tratamentos

Anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado

Por Laurine Nicoletti9 min

Tens enxaquecas várias vezes por mês, já experimentaste comprimidos preventivos e continuas a perder dias de trabalho, de aulas ou de vida social. Talvez o neurologista, ou uma notícia, te tenha falado de um tratamento "novo" chamado anti-CGRP. E ficaste com perguntas: o que é isto, funciona mesmo, e quem pode ter acesso em Portugal?

Neste artigo explicamos o que são os anti-CGRP na enxaqueca, que medicamentos existem, o que se sabe sobre a sua eficácia e os seus efeitos secundários, e como se chega a eles no Serviço Nacional de Saúde. Não é um tratamento milagroso, e a decisão é sempre do teu médico, mas vale a pena perceber como funciona. Este texto faz parte do nosso tema Tratamentos da enxaqueca.

Em resumo

  • Os anti-CGRP são medicamentos preventivos da enxaqueca que bloqueiam o CGRP, uma molécula envolvida nas crises, ou o seu recetor; não servem para tratar uma crise que já começou.
  • Segundo a DECO Proteste, há quatro anticorpos monoclonais disponíveis em Portugal (erenumab, fremanezumab, galcanezumab e eptinezumab), indicados para adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês.
  • Nos estudos resumidos pela Agência Europeia de Medicamentos, os doentes tratados tiveram menos dias de enxaqueca do que com placebo, mas a resposta varia muito de pessoa para pessoa.
  • Os efeitos secundários descritos são geralmente ligeiros a moderados, e o acesso comparticipado no SNS passa por consulta hospitalar e critérios que o médico confirma.

Anti-CGRP e enxaqueca: o que é o CGRP e como atuam?

O CGRP (péptido relacionado com o gene da calcitonina) é uma molécula que o nosso sistema nervoso produz naturalmente. Na enxaqueca, parece ter um papel importante: segundo uma revisão publicada na revista Sinapse, os níveis de CGRP aumentam durante as crises, e dar CGRP a pessoas com enxaqueca pode desencadear uma crise.

Os medicamentos anti-CGRP bloqueiam esta molécula ou o sítio onde ela se liga. Os anticorpos monoclonais são proteínas feitas em laboratório para esse fim. Por exemplo, o erenumab liga-se ao recetor do CGRP nas células, enquanto o eptinezumab liga-se ao próprio CGRP para o impedir de chegar ao alvo.

Atenção a uma distinção importante: estes medicamentos são preventivos. Servem para reduzir o número e o peso das crises ao longo do tempo, não para tirar uma dor de cabeça que já começou. É isto que se quer dizer com "tratamento de fundo".

Que anti-CGRP existem em Portugal?

Segundo a DECO Proteste, estão disponíveis em Portugal quatro anticorpos monoclonais contra o CGRP ou o seu recetor:

  • Erenumab (Aimovig): bloqueia o recetor do CGRP.
  • Fremanezumab (Ajovy): bloqueia o CGRP.
  • Galcanezumab (Emgality): bloqueia o CGRP.
  • Eptinezumab (Vyepti): bloqueia o CGRP e é dado por perfusão (soro) na veia.

Todos estão indicados para a prevenção da enxaqueca em adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês, como indica, por exemplo, a Agência Europeia de Medicamentos para o Aimovig. Os três primeiros são injeções sob a pele, com intervalos mensais ou trimestrais conforme o medicamento, e o Vyepti é administrado por perfusão intravenosa. Quem define o esquema é o médico.

Por agora, estes medicamentos estão aprovados para adultos. Se estás a pensar num filho ou numa filha, o nosso guia sobre enxaqueca em crianças e adolescentes explica as opções mais habituais nessas idades.

Quanto funcionam, na prática?

Vamos ser honestas: funcionam bem para muitas pessoas, mas não para todas, e não eliminam a enxaqueca. Os números dos estudos ajudam a pôr isto em perspetiva.

No resumo público da EMA sobre o erenumab, num estudo com 955 doentes que tinham em média 8 dias de enxaqueca por mês, quem recebeu o medicamento teve menos 3 a 4 dias de enxaqueca por mês, contra cerca de menos 2 dias no grupo do placebo. Ou seja, a diferença em relação ao placebo foi de cerca de 1 a 2 dias por mês, em média.

"Em média" esconde histórias muito diferentes. Há quem tenha uma melhoria enorme e quem quase não note diferença. Por isso o médico costuma avaliar o benefício ao fim de alguns meses: no caso do fremanezumab, a ficha do medicamento refere uma avaliação durante os primeiros 3 meses de tratamento.

E os efeitos secundários?

Em geral, os efeitos secundários descritos são ligeiros a moderados. Os mais frequentes com o erenumab, segundo a EMA, são reações no local da injeção, prisão de ventre, espasmos musculares e comichão.

A prisão de ventre merece uma nota. Se tiveres este problema, não ajustes nada por conta própria: fala com o teu médico ou farmacêutico.

O que continua menos conhecido? Estes medicamentos são relativamente recentes, por isso os dados de segurança a muito longo prazo continuam a ser acompanhados. Se tens outras doenças, estás a pensar engravidar ou tomas outros medicamentos, é essencial discutir isso com o especialista antes de começar.

Quem pode fazer anti-CGRP e como se chega lá no SNS?

Em Portugal, o acesso comparticipado tem regras definidas, em geral para adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês que não tiveram bons resultados com terapêuticas convencionais, e com seguimento em consulta de especialidade num hospital do SNS, com a respetiva prescrição. Os critérios exatos devem ser confirmados com o teu médico.

Isto significa, na prática, que o caminho normal passa por:

  1. Ter o diagnóstico de enxaqueca confirmado por um médico.
  2. Ter experimentado, sem sucesso ou com efeitos secundários que impedem continuar, outros preventivos mais antigos.
  3. Ser referenciada para uma consulta de cefaleias ou neurologia hospitalar.

As regras podem ser atualizadas, por isso confirma sempre a situação atual com o teu médico de família ou com a equipa do hospital. Se queres perceber melhor uma das alternativas que normalmente se tentam antes, lê o nosso artigo sobre o Botox na enxaqueca crónica e o protocolo PREEMPT.

E os gepantes? A versão em comprimido

Os gepantes são medicamentos orais que também atuam no sistema do CGRP, mas são moléculas pequenas, tomadas em comprimido, em vez de anticorpos injetados.

O atogepant, por exemplo, é um comprimido tomado uma vez por dia para a prevenção da enxaqueca. Segundo a EMA, num estudo com 882 doentes com pelo menos 4 enxaquecas por mês, o tratamento durante 12 semanas reduziu os dias de enxaqueca de cerca de 8 para cerca de 3 a 4 por mês, contra cerca de 5 por mês no grupo do placebo.

A DECO Proteste referia que o rimegepant e o atogepant já se encontravam nas farmácias com receita médica, mas que, à data do artigo, só o atogepant era comparticipado e o custo era elevado para muitas pessoas. Estas condições mudam com o tempo, por isso pergunta ao teu médico e ao farmacêutico o que se aplica hoje.

Anti-CGRP e outros tratamentos: não é tudo ou nada

Um anti-CGRP não substitui automaticamente tudo o resto. A ficha do fremanezumab refere que, ao iniciar o tratamento, o outro preventivo pode ser mantido se o médico considerar necessário. Quem decide o que mantém, ajusta ou deixa é sempre o médico, nunca tu sozinha.

Também continuam a ser importantes os cuidados do dia a dia: rotinas de sono regulares, gestão do stress, alimentação e pausas do ecrã. Se quiseres explorar um deles, temos um artigo sobre enxaqueca e ecrãs. Medicamentos preventivos e hábitos não competem entre si, complementam-se.

Como medir se o tratamento está mesmo a resultar

Aqui o teu registo faz toda a diferença. A avaliação do tratamento depende de comparar o antes e o depois, e a memória engana: depois de um mês mau, é fácil esquecer os dias bons, e vice-versa.

Antes de começar (e durante o tratamento), vale a pena anotar:

  • Quantos dias de enxaqueca tens por mês.
  • A intensidade e a duração de cada crise.
  • Quantas vezes precisas de medicação para a crise (sem teres de dizer qual ou em que quantidade neste registo, só as vezes).
  • Possíveis efeitos secundários e a data em que começaram.
  • Os teus gatilhos habituais (stress, sono, ciclo menstrual, ecrãs, alimentação), porque ajudam a perceber se uma crise "fora do normal" teve uma causa clara.

Com o histórico à frente, a conversa com o médico deixa de ser "acho que melhorei um bocadinho" e passa a ser "passei de 9 para 5 dias por mês". Isso ajuda a decidir se vale a pena continuar, ajustar ou tentar outra abordagem.

O que levar daqui

  • Os anti-CGRP bloqueiam uma molécula envolvida nas crises e são tratamentos preventivos, não servem para tirar uma crise que já começou.
  • Em Portugal há quatro anticorpos monoclonais disponíveis, dados por injeção ou perfusão, e também gepantes em comprimido.
  • Os estudos mostram redução dos dias de enxaqueca em relação ao placebo, mas a resposta varia muito de pessoa para pessoa.
  • Os efeitos secundários descritos são geralmente ligeiros a moderados, como reações no local da injeção ou prisão de ventre, mas o seguimento a longo prazo continua.
  • O acesso comparticipado passa por consulta hospitalar e critérios definidos, que podem mudar: confirma sempre com o teu médico.

Perguntas frequentes

Os anti-CGRP servem para tirar uma crise de enxaqueca que já começou?

Não. Os anti-CGRP são tratamentos preventivos, usados para reduzir o número e o peso das crises ao longo do tempo. Não são feitos para aliviar uma dor de cabeça que já está a decorrer.

Que anti-CGRP existem em Portugal?

Segundo a DECO Proteste, estão disponíveis quatro anticorpos monoclonais: erenumab (Aimovig), fremanezumab (Ajovy), galcanezumab (Emgality) e eptinezumab (Vyepti). Os três primeiros são injeções sob a pele e o eptinezumab é dado por perfusão na veia. Existem também gepantes, que são comprimidos.

Os anti-CGRP funcionam para toda a gente?

Não. Funcionam bem para muitas pessoas, mas não para todas, e não eliminam a enxaqueca. No resumo público da EMA sobre o erenumab, a diferença em relação ao placebo foi de cerca de 1 a 2 dias de enxaqueca por mês, em média.

Quais são os efeitos secundários mais frequentes?

Segundo a EMA, os mais frequentes com o erenumab são reações no local da injeção, prisão de ventre, espasmos musculares e comichão. Os dados de segurança a muito longo prazo continuam a ser acompanhados, por isso convém falar com o médico antes de começar.

Como se tem acesso aos anti-CGRP no SNS?

Em geral, o acesso comparticipado é para adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês que não tiveram bons resultados com outros preventivos, com seguimento em consulta hospitalar. Os critérios podem mudar, por isso deves confirmá-los com o teu médico.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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