
Anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado
Tens enxaquecas várias vezes por mês, já experimentaste comprimidos preventivos e continuas a perder dias de trabalho, de aulas ou de vida social. Talvez o neurologista, ou uma notícia, te tenha falado de um tratamento "novo" chamado anti-CGRP. E ficaste com perguntas: o que é isto, funciona mesmo, e quem pode ter acesso em Portugal?
Neste artigo explicamos o que são os anti-CGRP na enxaqueca, que medicamentos existem, o que se sabe sobre a sua eficácia e os seus efeitos secundários, e como se chega a eles no Serviço Nacional de Saúde. Não é um tratamento milagroso, e a decisão é sempre do teu médico, mas vale a pena perceber como funciona. Este texto faz parte do nosso tema Tratamentos da enxaqueca.
Em resumo
- Os anti-CGRP são medicamentos preventivos da enxaqueca que bloqueiam o CGRP, uma molécula envolvida nas crises, ou o seu recetor; não servem para tratar uma crise que já começou.
- Segundo a DECO Proteste, há quatro anticorpos monoclonais disponíveis em Portugal (erenumab, fremanezumab, galcanezumab e eptinezumab), indicados para adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês.
- Nos estudos resumidos pela Agência Europeia de Medicamentos, os doentes tratados tiveram menos dias de enxaqueca do que com placebo, mas a resposta varia muito de pessoa para pessoa.
- Os efeitos secundários descritos são geralmente ligeiros a moderados, e o acesso comparticipado no SNS passa por consulta hospitalar e critérios que o médico confirma.
Anti-CGRP e enxaqueca: o que é o CGRP e como atuam?
O CGRP (péptido relacionado com o gene da calcitonina) é uma molécula que o nosso sistema nervoso produz naturalmente. Na enxaqueca, parece ter um papel importante: segundo uma revisão publicada na revista Sinapse, os níveis de CGRP aumentam durante as crises, e dar CGRP a pessoas com enxaqueca pode desencadear uma crise.
Os medicamentos anti-CGRP bloqueiam esta molécula ou o sítio onde ela se liga. Os anticorpos monoclonais são proteínas feitas em laboratório para esse fim. Por exemplo, o erenumab liga-se ao recetor do CGRP nas células, enquanto o eptinezumab liga-se ao próprio CGRP para o impedir de chegar ao alvo.
Atenção a uma distinção importante: estes medicamentos são preventivos. Servem para reduzir o número e o peso das crises ao longo do tempo, não para tirar uma dor de cabeça que já começou. É isto que se quer dizer com "tratamento de fundo".
Que anti-CGRP existem em Portugal?
Segundo a DECO Proteste, estão disponíveis em Portugal quatro anticorpos monoclonais contra o CGRP ou o seu recetor:
- Erenumab (Aimovig): bloqueia o recetor do CGRP.
- Fremanezumab (Ajovy): bloqueia o CGRP.
- Galcanezumab (Emgality): bloqueia o CGRP.
- Eptinezumab (Vyepti): bloqueia o CGRP e é dado por perfusão (soro) na veia.
Todos estão indicados para a prevenção da enxaqueca em adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês, como indica, por exemplo, a Agência Europeia de Medicamentos para o Aimovig. Os três primeiros são injeções sob a pele, com intervalos mensais ou trimestrais conforme o medicamento, e o Vyepti é administrado por perfusão intravenosa. Quem define o esquema é o médico.
Por agora, estes medicamentos estão aprovados para adultos. Se estás a pensar num filho ou numa filha, o nosso guia sobre enxaqueca em crianças e adolescentes explica as opções mais habituais nessas idades.
Quanto funcionam, na prática?
Vamos ser honestas: funcionam bem para muitas pessoas, mas não para todas, e não eliminam a enxaqueca. Os números dos estudos ajudam a pôr isto em perspetiva.
No resumo público da EMA sobre o erenumab, num estudo com 955 doentes que tinham em média 8 dias de enxaqueca por mês, quem recebeu o medicamento teve menos 3 a 4 dias de enxaqueca por mês, contra cerca de menos 2 dias no grupo do placebo. Ou seja, a diferença em relação ao placebo foi de cerca de 1 a 2 dias por mês, em média.
"Em média" esconde histórias muito diferentes. Há quem tenha uma melhoria enorme e quem quase não note diferença. Por isso o médico costuma avaliar o benefício ao fim de alguns meses: no caso do fremanezumab, a ficha do medicamento refere uma avaliação durante os primeiros 3 meses de tratamento.
E os efeitos secundários?
Em geral, os efeitos secundários descritos são ligeiros a moderados. Os mais frequentes com o erenumab, segundo a EMA, são reações no local da injeção, prisão de ventre, espasmos musculares e comichão.
A prisão de ventre merece uma nota. Se tiveres este problema, não ajustes nada por conta própria: fala com o teu médico ou farmacêutico.
O que continua menos conhecido? Estes medicamentos são relativamente recentes, por isso os dados de segurança a muito longo prazo continuam a ser acompanhados. Se tens outras doenças, estás a pensar engravidar ou tomas outros medicamentos, é essencial discutir isso com o especialista antes de começar.
Quem pode fazer anti-CGRP e como se chega lá no SNS?
Em Portugal, o acesso comparticipado tem regras definidas, em geral para adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês que não tiveram bons resultados com terapêuticas convencionais, e com seguimento em consulta de especialidade num hospital do SNS, com a respetiva prescrição. Os critérios exatos devem ser confirmados com o teu médico.
Isto significa, na prática, que o caminho normal passa por:
- Ter o diagnóstico de enxaqueca confirmado por um médico.
- Ter experimentado, sem sucesso ou com efeitos secundários que impedem continuar, outros preventivos mais antigos.
- Ser referenciada para uma consulta de cefaleias ou neurologia hospitalar.
As regras podem ser atualizadas, por isso confirma sempre a situação atual com o teu médico de família ou com a equipa do hospital. Se queres perceber melhor uma das alternativas que normalmente se tentam antes, lê o nosso artigo sobre o Botox na enxaqueca crónica e o protocolo PREEMPT.
E os gepantes? A versão em comprimido
Os gepantes são medicamentos orais que também atuam no sistema do CGRP, mas são moléculas pequenas, tomadas em comprimido, em vez de anticorpos injetados.
O atogepant, por exemplo, é um comprimido tomado uma vez por dia para a prevenção da enxaqueca. Segundo a EMA, num estudo com 882 doentes com pelo menos 4 enxaquecas por mês, o tratamento durante 12 semanas reduziu os dias de enxaqueca de cerca de 8 para cerca de 3 a 4 por mês, contra cerca de 5 por mês no grupo do placebo.
A DECO Proteste referia que o rimegepant e o atogepant já se encontravam nas farmácias com receita médica, mas que, à data do artigo, só o atogepant era comparticipado e o custo era elevado para muitas pessoas. Estas condições mudam com o tempo, por isso pergunta ao teu médico e ao farmacêutico o que se aplica hoje.
Anti-CGRP e outros tratamentos: não é tudo ou nada
Um anti-CGRP não substitui automaticamente tudo o resto. A ficha do fremanezumab refere que, ao iniciar o tratamento, o outro preventivo pode ser mantido se o médico considerar necessário. Quem decide o que mantém, ajusta ou deixa é sempre o médico, nunca tu sozinha.
Também continuam a ser importantes os cuidados do dia a dia: rotinas de sono regulares, gestão do stress, alimentação e pausas do ecrã. Se quiseres explorar um deles, temos um artigo sobre enxaqueca e ecrãs. Medicamentos preventivos e hábitos não competem entre si, complementam-se.
Como medir se o tratamento está mesmo a resultar
Aqui o teu registo faz toda a diferença. A avaliação do tratamento depende de comparar o antes e o depois, e a memória engana: depois de um mês mau, é fácil esquecer os dias bons, e vice-versa.
Antes de começar (e durante o tratamento), vale a pena anotar:
- Quantos dias de enxaqueca tens por mês.
- A intensidade e a duração de cada crise.
- Quantas vezes precisas de medicação para a crise (sem teres de dizer qual ou em que quantidade neste registo, só as vezes).
- Possíveis efeitos secundários e a data em que começaram.
- Os teus gatilhos habituais (stress, sono, ciclo menstrual, ecrãs, alimentação), porque ajudam a perceber se uma crise "fora do normal" teve uma causa clara.
Com o histórico à frente, a conversa com o médico deixa de ser "acho que melhorei um bocadinho" e passa a ser "passei de 9 para 5 dias por mês". Isso ajuda a decidir se vale a pena continuar, ajustar ou tentar outra abordagem.
O que levar daqui
- Os anti-CGRP bloqueiam uma molécula envolvida nas crises e são tratamentos preventivos, não servem para tirar uma crise que já começou.
- Em Portugal há quatro anticorpos monoclonais disponíveis, dados por injeção ou perfusão, e também gepantes em comprimido.
- Os estudos mostram redução dos dias de enxaqueca em relação ao placebo, mas a resposta varia muito de pessoa para pessoa.
- Os efeitos secundários descritos são geralmente ligeiros a moderados, como reações no local da injeção ou prisão de ventre, mas o seguimento a longo prazo continua.
- O acesso comparticipado passa por consulta hospitalar e critérios definidos, que podem mudar: confirma sempre com o teu médico.
Perguntas frequentes
Os anti-CGRP servem para tirar uma crise de enxaqueca que já começou?
Não. Os anti-CGRP são tratamentos preventivos, usados para reduzir o número e o peso das crises ao longo do tempo. Não são feitos para aliviar uma dor de cabeça que já está a decorrer.
Que anti-CGRP existem em Portugal?
Segundo a DECO Proteste, estão disponíveis quatro anticorpos monoclonais: erenumab (Aimovig), fremanezumab (Ajovy), galcanezumab (Emgality) e eptinezumab (Vyepti). Os três primeiros são injeções sob a pele e o eptinezumab é dado por perfusão na veia. Existem também gepantes, que são comprimidos.
Os anti-CGRP funcionam para toda a gente?
Não. Funcionam bem para muitas pessoas, mas não para todas, e não eliminam a enxaqueca. No resumo público da EMA sobre o erenumab, a diferença em relação ao placebo foi de cerca de 1 a 2 dias de enxaqueca por mês, em média.
Quais são os efeitos secundários mais frequentes?
Segundo a EMA, os mais frequentes com o erenumab são reações no local da injeção, prisão de ventre, espasmos musculares e comichão. Os dados de segurança a muito longo prazo continuam a ser acompanhados, por isso convém falar com o médico antes de começar.
Como se tem acesso aos anti-CGRP no SNS?
Em geral, o acesso comparticipado é para adultos com pelo menos 4 dias de enxaqueca por mês que não tiveram bons resultados com outros preventivos, com seguimento em consulta hospitalar. Os critérios podem mudar, por isso deves confirmá-los com o teu médico.
Fontes
- Utilização de Anticorpos Monoclonais no Tratamento da ...
- 30 Churchill Place ● Canary Wharf ● London E14 5EU ● United Kingdom
- AJOVY, INN-fremanezumab
- Aquipta (atogepant) - European Medicines Agency
- Enxaqueca: há novos tratamentos para gerir as crises
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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