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Homem de óculos, olhos fechados e mão na têmpora, ao lado de uma visão turva com linhas luminosas em zigue-zague
Sintomas

Enxaqueca ocular (oftálmica): tudo o que precisas de saber

Por Laurine Nicoletti12 min

Estás a ler ou a trabalhar e, de repente, aparece um ziguezague brilhante no canto da visão. Ou uma mancha que cresce e te tapa metade da palavra que estavas a olhar. Passam uns minutos, a visão volta ao normal e, às vezes, a seguir vem uma dor de cabeça. Se isto te soa familiar, é provável que já tenhas pesquisado por enxaqueca ocular.

Isto é o que muita gente chama enxaqueca ocular (ou enxaqueca oftálmica). Neste artigo explico o que costuma estar por trás da enxaqueca ocular, como é a aura visual, quando é só enxaqueca e quando vale a pena pedir ajuda depressa. É um dos temas que reunimos na nossa área Sintomas da enxaqueca.

Em resumo

  • Segundo a CUF, a enxaqueca ocular (ou oftálmica), em sentido estrito, é um tipo raro de enxaqueca que provoca sintomas visuais num dos olhos.
  • Quem descreve luzes a piscar, ziguezagues ou manchas na visão costuma estar a falar de aura visual, que dura cerca de 10 a 30 minutos e é reversível.
  • Perda de visão súbita num só olho, boca ao lado, fraqueza num braço ou perda de fala justificam ligar 112, segundo o SNS 24 e a CUF.
  • Quem tem enxaqueca com aura deve dizê-lo ao médico, sobretudo antes de escolher ou mudar de contraceção.

O que é a enxaqueca ocular (ou oftálmica)?

Aqui há uma confusão de nomes que convém desfazer. Na linguagem do dia a dia, "enxaqueca ocular" ou "enxaqueca oftálmica" costuma referir-se a alterações da visão que surgem com a enxaqueca. Em medicina, o termo é mais restrito.

Segundo a CUF, a enxaqueca ocular (também chamada oftálmica) é um tipo raro de enxaqueca que provoca sintomas visuais, como a perda de visão num dos olhos. Nos diferentes episódios é quase sempre o mesmo olho a ser afetado. A mesma página explica que se pensa que se deva a uma contração dos vasos sanguíneos do olho, que passa a receber menos sangue.

Já a enxaqueca com aura é outra coisa. A CUF sublinha que não se deve confundir as duas: a aura também pode dar luzes cintilantes e pontos cegos, mas é um fenómeno do cérebro, não do olho.

Na prática, a maioria das pessoas que pesquisa "enxaqueca ocular" por causa de luzes a piscar, ziguezagues ou manchas na visão está a descrever uma aura visual. É isso que vou tratar sobretudo daqui para a frente, e só um médico pode dizer qual é o teu caso.

Como é a aura visual? Os sintomas típicos

A aura é um conjunto de sintomas passageiros que surgem antes da dor de cabeça (ou, por vezes, sem ela). A CUF explica que as auras mais comuns são perturbações passageiras da visão, como:

  • perda de visão de um dos lados do campo visual;
  • imagens turvas;
  • pontos luminosos, figuras geométricas ou ziguezagues brilhantes.

Um pormenor tranquilizador e útil: as alterações visuais costumam estar presentes mesmo com os olhos fechados, porque são provocadas pelo cérebro e não têm origem nos olhos.

A aura pode ir além da visão. Há quem sinta formigueiro ou dormência de um lado da cara ou de uma mão, dificuldade em falar ou fraqueza passageira dos membros, habitualmente só de um lado do corpo. Estas alterações duram cerca de 10 a 30 minutos e antecedem a dor, segundo a mesma fonte.

Quantas pessoas têm aura?

A aura não é a regra. De acordo com a CUF, as formas com aura afetam cerca de 15% das pessoas com enxaqueca. Ou seja, se tens enxaqueca sem nunca teres visto luzes ou manchas, é perfeitamente normal.

O que se passa no cérebro durante a aura?

Ninguém tem ainda uma explicação simples e completa para tudo. O que a CUF resume é que a enxaqueca resulta de uma combinação de processos cerebrais: excitação e depressão de células, dilatação de artérias e libertação de substâncias químicas.

Uma imagem útil, sem entrar em jargão: durante a aura, parte do cérebro que trata a visão fica temporariamente "fora do normal", e por isso vês coisas que não estão lá ou deixas de ver certas zonas. Quando a perturbação passa, a visão volta. Por isso a aura é reversível, e é isso que a distingue de um problema que deixa marcas.

Aura e depois dor de cabeça: a sequência clássica

O padrão típico tem duas fases. Primeiro vem a aura, durante cerca de 10 a 30 minutos. Depois pode aparecer a dor de cabeça.

Segundo a CUF, a dor da enxaqueca ocular dura entre 4 e 72 horas, tende a afetar um lado da cabeça, é de intensidade moderada a forte, pulsátil e agrava-se com o movimento. Pode vir acompanhada de náuseas, vómitos e sensibilidade à luz e ao som. A página refere ainda que a maioria dos episódios visuais em si é breve, com menos de uma hora.

Pode haver aura sem dor de cabeça?

É uma dúvida frequente. Nas fontes portuguesas que consultei, a informação explícita é limitada: a CUF refere, a propósito da enxaqueca vestibular, que a dor de cabeça nem sempre está presente e que, por isso, esse tipo pode ser confundido com outras condições.

O que posso dizer com segurança é isto: se tiveres alterações visuais sem dor, não deves tirar conclusões sozinha. Vale a pena falar com o teu médico, porque são precisamente estas situações que precisam de avaliação para excluir outras causas.

Quando te deves preocupar a sério?

A maior parte das auras visuais típicas é desconfortável mas benigna. Ainda assim, há situações em que convém agir depressa. Sem alarmismo, aqui ficam os sinais a que deves prestar atenção.

Liga 112 se suspeitares de AVC. O SNS 24 indica que os principais sintomas de alerta são paralisia facial com desvio da boca, perda da fala ou dificuldade em falar e perda de força num braço ou perna. Nesse caso, deve-se ligar 112 o mais depressa possível para ativar a Via Verde do AVC. A mesma página menciona também formigueiro num braço ou perna, dor de cabeça forte ou perda de visão de um dos lados como sintomas a que estar atenta.

Perda de visão súbita, sobretudo num só olho. A CUF refere que a perda de visão, particularmente se for só num olho, pode dever-se a outro problema mais grave que não a enxaqueca. Deves procurar aconselhamento médico rapidamente, principalmente se a visão se deteriorar de forma súbita.

Também é boa ideia falar com o médico se:

  • os sintomas visuais forem novos ou diferentes dos que já conheces;
  • se repetirem com frequência;
  • a aura durar bem mais do que o habitual para ti.

Se estiveres em dúvida sobre o que fazer no momento, podes ligar para o SNS 24 (808 24 24 24), que faz uma triagem e orienta para o nível de cuidados adequado.

E se for a primeira vez? Porque podem pedir exames

Na primeira vez, é normal ficares assustada. Segundo a CUF, o diagnóstico da enxaqueca assenta sobretudo na história clínica e no exame físico e neurológico. Em alguns casos pode ser necessário fazer uma TAC ou uma ressonância magnética, para excluir outras doenças.

A mesma página acrescenta que, se a enxaqueca surgir pela primeira vez depois dos 45 anos, devem ser excluídas outras causas. Um exame pedido numa primeira consulta não significa que o médico espere algo grave. Muitas vezes serve para ficar tudo bem esclarecido.

Para a consulta correr bem, ajuda levares uma descrição o mais concreta possível: o que viste, de que lado, quanto tempo durou e o que aconteceu a seguir. Falar da tua experiência com pormenor é muitas vezes a parte mais valiosa do diagnóstico.

O que pode desencadear um episódio?

Os desencadeadores variam muito de pessoa para pessoa, e nem sempre há um só culpado. A CUF enumera como fatores frequentes de enxaqueca: queijos, chocolates, morangos, marisco, vinho, alterações do ritmo de sono, stress, menstruação, jejum, exercício físico e pequenos traumatismos. Noutra página, a CUF salienta que as crises podem ser precipitadas por alterações no horário de sono, por falhar o pequeno-almoço ou por excesso de álcool, e que o primeiro passo na prevenção é identificar e afastar os fatores desencadeantes.

Importa ser honesta: ter um desses fatores não significa que vais ter sempre uma crise, e há episódios que surgem sem razão aparente. Se tens dúvidas sobre os ecrãs, temos um artigo dedicado: Enxaqueca e ecrãs: a luz azul é mesmo a culpada?. E para o panorama geral da prevenção, passa pela área Desencadeantes da enxaqueca.

Enxaqueca com aura e contracetivos: um aviso importante

Este ponto é pouco falado e merece atenção. Segundo a CUF, a enxaqueca com aura está associada ao AVC isquémico em mulheres mais jovens, sobretudo se fumarem ou tomarem contracetivos orais. O risco absoluto continua a ser baixo, mas é por isso que o tema aparece nas orientações.

O Programa Nacional de Saúde Reprodutiva (DGS) inclui as cefaleias do tipo enxaqueca nas contraindicações para o uso da pílula. O SNS 24 explica ainda que o dispositivo intrauterino pode ser usado por mulheres em que os estrogénios dos métodos hormonais combinados estejam contraindicados.

Nada disto é para tomares decisões sozinha. Não deixes de tomar nenhum método sem falar antes com o teu médico ou ginecologista. Diz-lhe se tens aura, porque é uma informação que pode mudar as opções que te propõe.

Como atravessar um episódio com mais calma

Não há truques mágicos, e a enxaqueca não tem cura, mas há formas de tornar o momento menos assustador. Segundo a CUF, a enxaqueca não tem cura, mas os sintomas podem ser aliviados. Durante a crise, o tratamento passa por repousar num local sossegado e escuro, e dormir é muitas vezes o melhor remédio.

Algumas ideias práticas durante a aura:

  • Pára o que estás a fazer. Conduzir, andar de bicicleta ou usar máquinas com a visão alterada não é boa ideia.
  • Senta-te ou deita-te num sítio seguro, de preferência com pouca luz.
  • Respira devagar e lembra-te de que, se já tens este padrão conhecido, a aura costuma passar em minutos.
  • Repara na hora em que começou e quanto durou, para registares mais tarde.

Quanto aos medicamentos, a CUF refere que analgésicos simples e anti-inflamatórios costumam ser eficazes em crises leves a moderadas, e que convém tomar cedo o que o médico te indicou. O que tomar, quando e em que quantidade é uma conversa para teres com o teu médico ou farmacêutico.

Tratamentos de fundo

Se as crises forem frequentes ou te limitarem a vida, existem tratamentos preventivos que o médico pode discutir contigo. Não os escolhas por conta própria. Se quiseres perceber as opções, temos a área Tratamentos da enxaqueca.

Anotar os episódios para perceberes melhor o que te acontece

Quando não sabes porquê, cada aura parece sempre a primeira. Registar ajuda a transformar o susto em informação: quando aconteceu, como foi, quanto durou, se veio dor depois e o que se passou nas horas anteriores (sono, refeições, stress, ciclo menstrual).

A CUF recomenda precisamente registar comportamentos e procurar associações quando as crises são frequentes. Com o tempo, esse registo mostra padrões que de cabeça é difícil ver, e dá ao teu médico dados concretos em vez de memórias vagas.

Em resumo

  • A aura visual (luzes, ziguezagues, manchas) é o que a maioria das pessoas descreve como "enxaqueca ocular". Costuma durar 10 a 30 minutos e é reversível.
  • Em sentido estrito, a enxaqueca ocular ou oftálmica afeta um olho e é rara. Não é o mesmo que aura.
  • Perda de visão súbita num olho, ou sinais como boca ao lado, fraqueza num braço ou perda de fala: pede ajuda de imediato (112).
  • Se tens aura, diz-o sempre ao médico, sobretudo antes de escolher ou mudar de contraceção.
  • Registar os episódios ajuda-te a ti e ao teu médico.

Perguntas frequentes

A enxaqueca ocular é o mesmo que enxaqueca com aura?

Não. Segundo a CUF, a enxaqueca ocular (ou oftálmica) é um tipo raro que provoca sintomas visuais num dos olhos. A aura também pode dar luzes cintilantes e pontos cegos, mas é um fenómeno do cérebro, não do olho.

Quanto tempo dura a aura visual?

Segundo a CUF, as alterações da aura duram cerca de 10 a 30 minutos e antecedem a dor de cabeça. A dor da enxaqueca ocular, quando surge, pode durar entre 4 e 72 horas.

Quando devo procurar ajuda urgente?

Segundo o SNS 24, paralisia facial com desvio da boca, perda da fala ou perda de força num braço ou perna são sinais de AVC, e nesse caso deve ligar-se 112. A CUF refere também que a perda de visão súbita, sobretudo num só olho, pode dever-se a outro problema mais grave e exige aconselhamento médico rápido.

Posso ter aura sem dor de cabeça?

A informação explícita nas fontes portuguesas consultadas é limitada. Se tiveres alterações visuais sem dor, não deves tirar conclusões sozinha: fala com o teu médico, para excluir outras causas.

Ter aura muda a escolha do contracetivo?

Pode mudar. Segundo a CUF, a enxaqueca com aura está associada ao AVC isquémico em mulheres mais jovens, sobretudo se fumarem ou tomarem contracetivos orais, embora o risco absoluto seja baixo. Não deixes de tomar nenhum método sem falar antes com o teu médico ou ginecologista.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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