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Mulher de olhos fechados com a mão na têmpora, ao lado de um calendário com muitos dias marcados
Diagnóstico

Dor de cabeça todos os dias: porquê e quando falar com o médico

Por Laurine Nicoletti11 min

Acordas e a cabeça já pesa. Tomas um comprimido, o dia lá segue, e no dia seguinte volta tudo outra vez. Quando tens dor de cabeça todos os dias, é normal ficares cansada, preocupada e sem saber por onde começar.

A boa notícia é que a dor de cabeça diária tem, na maioria dos casos, causas conhecidas e abordagens possíveis. Neste artigo vamos ver o que pode estar por trás, porque é que os analgésicos podem entrar num círculo difícil, que outras causas existem e quando faz sentido falar com um médico. Se quiseres explorar o tema mais largo, podes passar pela nossa secção Diagnóstico da enxaqueca.

Um aviso simples: este texto serve para te ajudar a perceber o que se passa, não para fazer diagnóstico. Só um profissional de saúde pode dizer o que tens.

Em resumo

  • A dor de cabeça diária tem, na maioria dos casos, causas conhecidas: cefaleia de tensão, enxaqueca frequente e uso repetido de analgésicos, que muitas vezes se misturam.
  • Segundo a CUF, se a enxaqueca ocorre todos os dias, pode existir um uso excessivo de analgésicos, que pode converter a enxaqueca numa cefaleia crónica diária.
  • Se tens dor de cabeça todos os dias, vale a pena marcar consulta com o médico de família, mesmo sem sinais de alarme, e não decidir sozinha parar ou mudar de medicamento.
  • Registar quantos dias por mês tens dor, a medicação usada e os desencadeantes ajuda o médico a perceber o que se passa.

O que conta como dor de cabeça "diária"?

Não existe um número mágico que valha para toda a gente. Em linguagem corrente, falamos de dor de cabeça diária quando ela aparece quase todos os dias, durante semanas ou meses, mesmo que varie de intensidade ao longo do tempo.

Os médicos chamam às dores de cabeça cefaleias. As cefaleias dividem-se em dois grandes grupos: as primárias, em que a dor de cabeça é o próprio problema (enxaqueca, cefaleia de tensão, cefaleia em salvas), e as secundárias, em que a dor é consequência de outra coisa, como uma infeção, um traumatismo ou o efeito de um medicamento. Esta distinção vem da explicação da CUF sobre cefaleias e ajuda a perceber porque é que a investigação de uma dor diária passa por duas perguntas: que tipo de dor é, e se há algo a alimentá-la.

Quais são as causas mais comuns?

Na prática, três situações explicam grande parte das dores de cabeça quase diárias: a cefaleia de tensão, a enxaqueca frequente e o uso repetido de analgésicos. Muitas vezes misturam-se.

Cefaleia de tensão

É a mais comum. A CUF descreve-a como uma dor mais leve, tipo pressão ou aperto, dos dois lados da cabeça, que não piora com a atividade física. Muitas pessoas descrevem-na como um "capacete" ou uma moinha constante.

Pode durar apenas alguns minutos ou ser quase contínua. A mesma fonte, num texto sobre dor de cabeça na criança, refere que as dores crónicas quase diárias na infância são, na maioria, cefaleias de tensão, por vezes associadas a insónias, pressão para corresponder a expectativas ou tristeza. Estes sintomas também se aplicam a adultas: a pressão dos estudos, do trabalho ou de uma fase mais difícil da vida conta.

Enxaqueca frequente

A enxaqueca costuma ser mais intensa: dor pulsátil, muitas vezes de um só lado, que piora com o esforço ou com o movimento da cabeça, acompanhada de náuseas, vómitos e sensibilidade à luz, ao ruído e a certos cheiros. É o que descreve a CUF sobre enxaqueca.

Normalmente a enxaqueca vem em crises, com intervalos sem dor. Mas, quando as crises se tornam muito frequentes e se misturam com dias de dor mais leve, pode ficar difícil distinguir uma coisa da outra. Daí a importância de registar o que sentes (vamos chegar lá).

Uso frequente de analgésicos

Esta é a causa de que menos se fala e que mais surpreende. A CUF refere que, se a enxaqueca ocorre todos os dias, provavelmente existe um uso excessivo de analgésicos ou de outros medicamentos, e esse excesso pode converter uma enxaqueca numa cefaleia crónica diária.

Vale a pena parar um pouco nesta ideia, porque ela é muito fácil de viver sem dar por isso.

O círculo vicioso do comprimido

Funciona assim, e não é falta de força de vontade de ninguém. Tens dor, tomas um analgésico, a dor passa. Dias depois, a dor volta, tomas outro. Com o tempo, o cérebro pode ficar mais sensível e a dor regressa mais cedo, o que te leva a tomar mais um comprimido.

Este quadro chama-se cefaleia por uso excessivo de medicação. Não afeta só quem toma medicamentos fortes: pode acontecer com analgésicos comuns, de venda livre. A CUF aconselha mesmo a evitar o uso abusivo de paracetamol e, na cefaleia de tensão, evitar sempre que possível o uso frequente de analgésicos.

Dois pontos importantes:

  • Não decidas sozinha parar ou mudar de medicamento. A forma de sair deste círculo deve ser definida com o teu médico, que avalia o teu caso.
  • Isto não é culpa tua. Tomaste um comprimido porque tinhas dor. É uma reação totalmente humana.

Se reconheces este padrão, o passo útil é contar ao médico, com franqueza, quantos dias por mês precisas de tomar algo. Esse número diz muito.

Que outras causas podem existir?

Quando a dor é diária, também se olha para causas menos frequentes. Não é para te assustares: é só para o médico poder excluir o que for preciso.

  • Maxilar e dentes. A CUF explica que algumas dores de cabeça podem ter origem nos músculos da boca e do maxilar, situação chamada disfunção temporomandibular. Um dos principais fatores de risco é o bruxismo, isto é, apertar ou ranger os dentes. Segundo a mesma fonte, as dores de cabeça são o sintoma mais comum do bruxismo e aparecem três vezes mais nestas pessoas do que nas restantes.
  • Sono irregular ou pouco reparador. Horários de sono que mudam muito são um desencadeante conhecido da enxaqueca, segundo a CUF.
  • Desidratação, álcool, gripe e outros problemas. A lista de causas secundárias da CUF inclui o consumo de álcool, a desidratação, o bruxismo e a gripe, entre outras situações mais sérias que o médico saberá avaliar.
  • Ecrãs e esforço visual. Muitas pessoas associam as dores de cabeça às horas à frente do computador. O tema é mais subtil do que parece, e falámos dele em Enxaqueca e ecrãs: a luz azul é mesmo a culpada?.

Também é possível teres mais do que uma causa ao mesmo tempo, por exemplo tensão, sono curto e analgésicos frequentes.

Quando ir ao médico?

Se a dor de cabeça é diária, vale a pena marcar consulta, mesmo sem sinais de alarme. Falar com o médico de família é um bom ponto de partida, e ele pode encaminhar-te para neurologia, incluindo consultas dedicadas às cefaleias.

A CUF indica que deves consultar um médico se as dores são recorrentes, os analgésicos comuns já não aliviam e a dor tem vindo a piorar. Também deves procurar ajuda se surgirem sintomas como fraqueza ou dormência nas mãos ou nos braços.

Procura um serviço de urgência se a dor for intensa e vier acompanhada de visão turva ou dupla, tonturas, confusão, febre com calafrios ou depois de uma pancada ou queda. Perante uma dor mais forte e repentina do que alguma vez sentiste, ou novas dificuldades de fala, visão ou equilíbrio, procura ajuda imediata.

Como perceber o que tens (sem te diagnosticares)

Ninguém consegue distinguir sozinha entre tensão, enxaqueca e uso excessivo de analgésicos só pela sensação. O que podes fazer é chegar à consulta com informação, e isso muda muito a conversa.

A própria consulta de cefaleias da CUF recomenda levar um registo da frequência das dores, da medicação usada e dos fatores que as desencadeiam. Alguns pontos que ajudam o médico:

  • Quantos dias por mês tens dor, e se há dias sem dor nenhuma.
  • Como é a dor: pulsátil ou em aperto, de um lado ou dos dois, mais leve ou incapacitante.
  • Se há náuseas, sensibilidade à luz ou ao som.
  • Que medicamentos tomas, quantas vezes e em que dias.
  • O que aconteceu antes: noite mal dormida, refeição saltada, stress, menstruação.

Na CUF, os desencadeantes mais referidos da enxaqueca incluem stress, irregularidade do sono e das refeições, ciclo menstrual, jejum e, raramente, certos alimentos. Registar torna estes padrões visíveis, o que é mais fiável do que confiar na memória.

O que pode ajudar no dia a dia?

Sem promessas de milagre: nenhum hábito substitui a avaliação médica, mas há coisas que costumam ajudar a reduzir o peso das dores.

  • Rotina de sono e refeições. Como a CUF refere, alterações no horário de sono e saltar o pequeno-almoço podem precipitar crises. Horários regulares são um ponto de partida.
  • Aliviar a pressão. Para a cefaleia de tensão, a CUF destaca a prevenção: aliviar a pressão e ter uma atividade lúdica regular.
  • Falar sobre o stress. Se sentes que a ansiedade ou a tristeza estão a pesar, isso também é um tema para a consulta.
  • Perguntar ao médico sobre prevenção. A CUF explica que, quando as enxaquecas ocorrem quatro dias ou mais por mês, o médico pode prescrever medicação preventiva para reduzir a gravidade ou a frequência. Existem também outras opções para casos de enxaqueca crónica, como o Botox, que é um tratamento médico, decidido caso a caso. Se quiseres ver o panorama de cuidados, temos a secção Tratamentos da enxaqueca.

Não estás condenada a ter dor todos os dias

Ter dor de cabeça todos os dias não é "normal" nem algo que tenhas de aceitar em silêncio. Mas também não é um beco sem saída. Muitas vezes há uma combinação de fatores que, uma vez identificados, podem ser trabalhados com acompanhamento médico.

O primeiro passo é pequeno: observar durante algumas semanas o que sentes, quando e o que tomaste. Com esses dados, a conversa com o médico fica mais concreta e as decisões, mais acertadas.

Perguntas frequentes

O que conta como dor de cabeça diária?

Não existe um número mágico que valha para toda a gente. Em linguagem corrente, fala-se de dor de cabeça diária quando ela aparece quase todos os dias, durante semanas ou meses, mesmo que a intensidade varie.

Os analgésicos podem causar dor de cabeça todos os dias?

Sim, pode acontecer. Segundo a CUF, se a enxaqueca ocorre todos os dias, provavelmente existe um uso excessivo de analgésicos ou de outros medicamentos, que pode converter uma enxaqueca numa cefaleia crónica diária. A forma de sair deste círculo deve ser definida com o médico, sem parar ou mudar de medicamento por conta própria.

Quando devo ir ao médico por causa de dores de cabeça frequentes?

Se a dor de cabeça é diária, vale a pena marcar consulta, mesmo sem sinais de alarme. A CUF indica que deves consultar um médico se as dores são recorrentes, os analgésicos comuns já não aliviam e a dor tem vindo a piorar.

Quando devo procurar um serviço de urgência?

Segundo a CUF, deves procurar urgência se a dor for intensa e vier com visão turva ou dupla, tonturas, confusão, febre com calafrios ou depois de uma pancada ou queda. O mesmo vale para uma dor mais forte e repentina do que alguma vez sentiste.

Como me preparar para a consulta?

A consulta de cefaleias da CUF recomenda levar um registo da frequência das dores, da medicação usada e dos fatores desencadeantes. Anotar quantos dias por mês tens dor e como ela é ajuda o médico a perceber o que se passa.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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