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Homem na cama com a mão na testa dorida, ao lado de um copo de água, comprimidos e um calendário com dias marcados
Sintomas

Enxaqueca que não passa: porque dura dias e quando falar com o médico

Por Laurine Nicoletti11 min

Acordaste na segunda-feira com a cabeça a latejar, fizeste o que costumas fazer e, na quarta, a dor ainda lá está. Já nem sabes se é a mesma crise, se é outra, ou se há alguma coisa de diferente. Uma enxaqueca que não passa durante dias assusta, mas tem explicações conhecidas e, na maioria dos casos, um caminho para falar com o médico.

Neste artigo vês o que pode explicar uma crise que ultrapassa as 72 horas, o que costuma ajudar enquanto ela dura e quando vale mesmo a pena pedir ajuda. Faz parte do nosso guia sobre os sintomas da enxaqueca.

Em resumo

  • Segundo o Manual MSD, uma enxaqueca dura tipicamente entre 4 e 72 horas, mas pode prolongar-se por vários dias.
  • Uma crise que passa das 72 horas e não cede ao tratamento habitual chama-se estado de mal migranoso, termo usado nas orientações da Sociedade Portuguesa de Cefaleias.
  • Tomar analgésicos com demasiada frequência pode manter a dor de cabeça viva: o Manual MSD descreve a cefaleia por excesso de medicação como dor de cabeça em mais de 15 dias por mês, durante mais de três meses.
  • Se a crise passa das 72 horas, se é diferente do habitual ou vem com sinais como febre e rigidez da nuca, fala com um profissional de saúde; numa emergência, o número é o 112.

Quanto tempo pode durar uma crise de enxaqueca?

Uma crise de enxaqueca dura, em geral, entre 4 e 72 horas, mas há crises que se estendem por vários dias. O Manual MSD refere que as enxaquecas duram "de quatro horas a vários dias", e a CUF indica que uma crise pode durar até 72 horas.

Isto quer dizer que ter dor durante um dia e meio, ou dois, não é necessariamente sinal de que algo está errado. A dor é só uma parte da crise, que tem fases antes e depois. Podes ver como se organizam em quanto tempo dura uma enxaqueca.

O que muda a conversa é passar o limite das 72 horas, sobretudo se a dor não cede ao que costuma funcionar contigo.

O que é o estado de mal migranoso?

O estado de mal migranoso é uma crise de enxaqueca que dura mais de 72 horas e não responde ao tratamento habitual. O nome soa pesado, mas descreve apenas isso: uma crise que se prolonga para lá do que é típico e que precisa de ser avaliada por um médico.

Não é um diagnóstico que consigas fazer sozinha, nem um motivo para entrar em pânico. O médico começa por confirmar que se trata mesmo de enxaqueca e por afastar outras causas.

Um ponto que vale a pena saber: as orientações da Sociedade Portuguesa de Cefaleias para os serviços de urgência sublinham que as cefaleias primárias, como a enxaqueca, são muitas vezes pouco valorizadas e subtratadas nesse contexto. Ou seja, pedir ajuda para uma crise que se arrasta é legítimo.

Enxaqueca que não passa: as explicações mais comuns

Quando uma enxaqueca não passa, as explicações mais frequentes são a medicação tomada com demasiada frequência, desencadeantes que continuam presentes e um ciclo em que a dor alimenta aquilo que a mantém. Nem sempre há uma única causa, e o mais provável é que se misturem.

Analgésicos e outros medicamentos usados com demasiada frequência

Usar medicamentos para a dor de cabeça muitas vezes ao mês pode, paradoxalmente, tornar as dores de cabeça mais frequentes. Chama-se cefaleia por excesso de medicação (ou cefaleia de rebote), e o Manual MSD descreve-a como dor de cabeça em mais de 15 dias por mês, durante mais de três meses, em pessoas que tomam muitos medicamentos para a dor.

Segundo a mesma fonte, afeta cerca de 1% a 2% da população e é mais comum nas mulheres. A maioria das pessoas já tinha enxaqueca ou cefaleia tensional e toma o medicamento em excesso, geralmente porque ele deixou de aliviar a dor.

Para os triptanos e outros medicamentos específicos, o Manual MSD para profissionais refere limiares mais baixos (10 dias por mês) do que para analgésicos simples. Estes números são critérios que os médicos usam para o diagnóstico, não uma regra para te avaliares sozinha.

Em Portugal, a Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar descreve o caso de uma doente que se automedicava com analgésicos e nota que a enxaqueca é o tipo de dor de cabeça que mais leva as pessoas à consulta. A mensagem é a mesma: o padrão de uso da medicação deve ser visto com o médico.

Se ficaste com receio de tomar o que precisas, respira: tratar as crises é parte do cuidado. O que importa é que o médico saiba com que frequência o fazes.

Desencadeantes que continuam presentes

A crise pode não passar porque aquilo que a desencadeou continua lá. A CUF lista entre os fatores precipitantes o jejum, as alterações do ritmo do sono, o stress, a menstruação, algumas bebidas alcoólicas e os esforços intensos. O Manual MSD acrescenta a falta de sono, as mudanças no clima, a fome e o excesso de estimulação dos sentidos.

Pensa no que se passou nos dias antes e durante a crise: trabalho a dobrar, noites curtas, refeições saltadas, uma semana de ecrãs sem pausas. Se queres um método para isto, o guia sobre como identificar os desencadeantes ajuda.

O ciclo da dor

Uma dor que se prolonga também mexe com aquilo que a alimenta. Dormes pior, comes menos ou fora de horas, ficas tensa por não conseguires fazer nada, e tudo isso são desencadeantes conhecidos, como vimos acima.

Importa ser honesta: este ciclo é uma forma de ligar fatores que as fontes descrevem como desencadeantes, e não conheço um estudo que o meça crise a crise. Mas muita gente reconhece-se nele, e o artigo sobre enxaqueca e stress explica como quebrar este círculo.

É mesmo enxaqueca?

Nem toda a dor de cabeça que dura dias é enxaqueca, e só um médico pode dizer que tipo de dor tens. Uma dor persistente pode ser uma cefaleia tensional, uma dor de cabeça diária que se instalou, o efeito da medicação em excesso ou uma mistura destas.

Há pistas que ajudam a pensar, mas não substituem a consulta. A enxaqueca típica é pulsátil, afeta muitas vezes um lado da cabeça, piora com o esforço e vem com náuseas e sensibilidade à luz e ao som, segundo a CUF. Vê as diferenças entre enxaqueca e dor de cabeça para te situares.

Se a tua dor está presente quase todos os dias, o artigo sobre dor de cabeça todos os dias explica porquê e quando falar com o médico.

O que pode ajudar enquanto a crise se arrasta

Enquanto a crise dura, o que costuma ajudar é manter o básico em ordem e seguir o plano que o teu médico definiu, sem improvisar com a medicação. Não há truque que corte uma crise longa de um momento para o outro, e nenhuma fonte séria o promete.

Algumas coisas estão ao teu alcance:

  • Dormir e descansar num sítio calmo e com pouca luz, sem te forçares a fazer o dia normal.
  • Comer e beber a horas, mesmo pouco, porque o jejum é um dos fatores precipitantes referidos pela CUF.
  • Reduzir estímulos: menos ecrãs, menos ruído, menos cheiros fortes.
  • Anotar a hora a que a dor começou e o que tomaste, para o dizeres ao médico.

Se queres mais ideias sem medicamentos, o artigo como aliviar uma enxaqueca sem medicamentos separa o que ajuda mesmo do que é só mito.

Sobre medicação: o que tomar, quanto e durante quantos dias é uma decisão do teu médico, que conhece o teu historial. Se aquilo que te receitaram deixou de resultar, essa é precisamente uma razão para o contactar, e não para tomares mais por tua conta.

Quando procurar ajuda médica para uma enxaqueca que dura dias

Procura ajuda médica se a crise passa das 72 horas, se não cede ao que costuma resultar contigo ou se a dor é diferente do habitual. Não precisas de esperar que fique insuportável.

Vale a pena marcar consulta (ou falar com o teu médico de família) quando:

  • a crise ultrapassa as 72 horas ou não cede ao tratamento que já tens;
  • as crises estão a tornar-se mais frequentes ou mais longas;
  • usas analgésicos ou outros medicamentos para a dor com muita frequência ao longo do mês;
  • as náuseas e os vómitos são tão intensos que não consegues manter líquidos;
  • a dor está a afetar o trabalho, o estudo ou o sono de forma repetida.

Se preferires uma primeira orientação, o SNS 24 (808 24 24 24) serve para problemas de saúde que não são uma emergência. Para situações que ponham a vida em risco, o número é o 112.

Sinais de alarme que pedem avaliação urgente

Algumas características da dor de cabeça pedem avaliação rápida, mesmo em quem tem enxaqueca conhecida. O Manual MSD trata estes sinais de alarme nas considerações gerais sobre a cefaleia. Em linguagem simples, vai às urgências ou liga 112 se tiveres:

  • uma dor de cabeça de início súbito e muito intensa, a pior que já sentiste;
  • febre com rigidez da nuca;
  • confusão, dificuldade em falar ou em ver, ou fraqueza num lado do corpo;
  • uma dor claramente diferente de todas as anteriores.

Não é para te assustar: a esmagadora maioria das dores de cabeça não é isto. Mas, perante estes sinais, não esperes. Mais detalhes em dor de cabeça: quando ir às urgências.

Como preparar a consulta

Uma consulta rende muito mais quando levas dados concretos em vez de memórias vagas. Antes de ir, reúne o essencial:

  1. Datas e duração: quando começou a crise, se houve pausas e quantas crises tiveste nos últimos meses.
  2. O que tomaste: nomes dos medicamentos e em quantos dias do mês os usaste, incluindo os que se compram sem receita.
  3. O que mudou: sono, stress, horários, ciclo menstrual, ecrãs, viagens ou mudanças de tempo.
  4. Sintomas associados: náuseas, sensibilidade à luz, aura, tonturas, qualquer coisa nova.
  5. O que funcionou e o que não funcionou.

Se ainda não tens o hábito, o artigo diário de enxaqueca: o que anotar mostra como fazê-lo sem complicar. No Mellow, o histórico das crises e o relatório para o médico juntam esta informação por ti.

Uma crise longa não significa que vai ser sempre assim

Uma crise que dura dias é um sinal para pedir ajuda, e não uma sentença. A enxaqueca não tem cura, mas, como diz a CUF, pode ser controlada: existem medicamentos e comportamentos que reduzem a frequência, a duração ou a intensidade das crises.

Também não estás sozinha. A DECO Proteste refere cerca de dois milhões de portugueses afetados pela enxaqueca e novos medicamentos já disponíveis em Portugal.

O passo seguinte, agora, é simples: se a tua crise já passou as 72 horas, ou se esta foi só a mais longa de uma série, escreve o que se passou e leva isso ao teu médico. É assim que se começa a quebrar o ciclo.

Perguntas frequentes

Uma enxaqueca pode durar três dias?

Pode. O Manual MSD refere que as enxaquecas duram de quatro horas a vários dias, e a CUF fala em crises até 72 horas. Se passa disso, ou se não cede ao tratamento habitual, vale a pena falar com o médico.

Porque é que a minha enxaqueca não passa com o analgésico?

Há várias razões possíveis: a crise já estar muito instalada, os desencadeantes continuarem presentes ou o uso frequente de medicamentos estar a manter a dor. O Manual MSD nota que quem desenvolve cefaleia por excesso de medicação costuma tomar mais medicamento porque ele deixou de aliviar. O médico é quem pode avaliar o teu caso.

O estado de mal migranoso é perigoso?

É uma crise prolongada e muito incapacitante que merece avaliação médica, sobretudo para confirmar o diagnóstico e afastar outras causas. Não é um motivo para entrar em pânico, mas é um motivo para pedir ajuda em vez de aguentar em casa.

Quando devo ir às urgências por uma dor de cabeça?

Se a dor surgir de forma súbita e muito intensa, se vier com febre e rigidez da nuca, ou com confusão, alterações da fala ou da visão ou fraqueza num lado do corpo, procura as urgências ou liga 112. Para dúvidas que não são uma emergência, podes ligar para o SNS 24 (808 24 24 24).

Posso ter enxaqueca todos os dias?

Pode haver dor de cabeça quase diária em quem tem enxaqueca, e as causas incluem a enxaqueca crónica, a cefaleia tensional e o excesso de medicação. Só o médico consegue distinguir o que está por trás; o artigo sobre dor de cabeça todos os dias ajuda a preparar essa conversa.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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