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Homem exausto, de olhos fechados e com a mão na testa, deitado sob uma manta no sofá
Sintomas

Pósdromo da enxaqueca: porque estás tão cansada depois da crise

Por Laurine Nicoletti10 min

A dor passou, mas tu não estás bem. Acordas ou levantas-te do sofá com a cabeça "enevoada", sem energia, com dificuldade em ler uma frase até ao fim e, às vezes, com o pescoço rígido e o humor em baixo. Pensas: "Se já não me dói, porque é que me sinto assim?" Muitas vezes, é o pósdromo da enxaqueca a fazer-se sentir.

Isto tem nome: pósdromo da enxaqueca, a última fase da crise. Neste artigo explico o que é o pósdromo da enxaqueca, que sintomas tem, quanto tempo costuma durar e como podes identificá-lo no teu diário para organizares melhor o dia seguinte. É um dos sintomas de que menos se fala, e faz parte do conjunto de sintomas da enxaqueca, muito para além da dor.

Em resumo

  • O pósdromo é a fase final da crise: começa quando a dor de cabeça termina e dura até te sentires "normal" outra vez, segundo o SNS 24.
  • Os sintomas mais descritos são cansaço, sonolência, mal-estar, dificuldade de concentração, dores no corpo, rigidez no pescoço e alterações de humor e de apetite, segundo o SNS 24.
  • A duração varia de pessoa para pessoa e de crise para crise: o teu diário vai mostrar-te qual é a tua.
  • Nem todas as pessoas passam pelas quatro fases em todas as crises, por isso o pósdromo pode ser mais marcado numas crises do que noutras.

O que é o pósdromo da enxaqueca?

O pósdromo é a fase que vem depois da dor: começa quando a cefaleia termina e acaba quando voltas a sentir-te normal, de acordo com o SNS 24. O mesmo portal explica que, à medida que uma crise começa e evolui, se podem identificar quatro fases diferentes.

Essas fases, de forma simples, são:

  1. Pródromo: os avisos que surgem horas ou até um a dois dias antes da dor.
  2. Aura: sintomas neurológicos temporários (como alterações da visão), que só alguns doentes têm.
  3. Dor de cabeça: a fase que todos reconhecemos como "a crise".
  4. Pósdromo: a recuperação, que muita gente descreve como uma "ressaca".

Nem todas as pessoas passam por todas as fases, nem em todas as crises. Se quiseres ver o conjunto, o artigo sobre as 4 fases de uma crise e a sua duração ajuda a ter uma visão completa.

Que sintomas tem o pósdromo?

O pósdromo traz sobretudo sintomas "silenciosos", sem dor intensa, mas que pesam no dia a dia. O SNS 24 descreve nesta fase:

  • sensação de cansaço ou fadiga e sonolência;
  • mal-estar geral;
  • dificuldade de concentração;
  • dores no corpo e rigidez no pescoço;
  • diarreia ou obstipação;
  • alterações de humor e do apetite;
  • sede.

Para muitas pessoas, o mais difícil não é nenhum destes sintomas em particular, mas a mistura: pensas devagar, as palavras demoram a chegar, tens pouca paciência e tudo custa mais do que o normal. É por isso que tanta gente fala em "nevoeiro mental" ou em "ressaca de enxaqueca". O próprio SNS 24 refere que muitas vezes se descreve uma espécie de "ressaca" depois da crise.

Convém dizer que cada pessoa vive o pósdromo à sua maneira. Há quem se sinta apenas muito cansada e quem fique sensível à luz ou irritável. Não há um "pósdromo certo".

Porque estás tão cansada depois da crise?

O cansaço faz parte do próprio quadro da enxaqueca: as fontes portuguesas que consultei descrevem-no como um sintoma da fase posdrómica, mas não há uma explicação simples e definitiva para ele. A enxaqueca é uma doença neurológica e o que se passa no cérebro durante e depois de uma crise ainda está a ser estudado. Se queres perceber melhor o que se sabe, tens um resumo em causas da enxaqueca.

O que dá para dizer com honestidade é isto:

  • O cansaço não é "preguiça" nem exagero. É um sintoma reconhecido da fase final da crise.
  • A crise em si também pesa. Uma crise pode vir com náuseas, noite mal dormida e dias de refeições saltadas. É razoável pensar que isso contribui para a sensação de esgotamento, mas esta é uma observação prática, não uma conclusão de estudos.
  • A recuperação não é igual à da dor. Podes ficar sem dor e ainda assim precisar de algumas horas para voltares ao teu ritmo.

Se és daquelas pessoas que se censuram por "não render" no dia seguinte, tenta ver isto de outra forma: o teu corpo está a recuperar de uma crise neurológica, não de uma noite de festa.

Quanto tempo dura o pósdromo da enxaqueca?

A duração varia de pessoa para pessoa. Para muita gente, o pior passa numa noite de sono ou ao fim de uma manhã tranquila, mas há quem note sintomas durante mais tempo.

Na prática, é normal que varie de crise para crise. Uma crise curta e tratada cedo pode deixar-te só um pouco "lenta"; uma crise longa e intensa pode deixar-te de rastos durante mais tempo. Não é raro sentires-te mais frágil durante todo o dia seguinte.

Se te sentires mal durante vários dias seguidos e não souberes se ainda é pósdromo ou se a crise não terminou, lê Enxaqueca que não passa: porque dura dias e quando falar com o médico.

Pósdromo, pródromo ou nova crise: como distinguir?

O pósdromo e o pródromo podem parecer-se muito, e esse é o motivo da confusão. Os sintomas de ambas as fases são parecidos: cansaço, sonolência, dificuldade de concentração, rigidez no pescoço, mal-estar.

A diferença está no momento em que aparecem:

Há um pormenor que dá trabalho a quem tem enxaqueca sem aura (a forma mais frequente, com sintomas e duração próprios): quando a dor desaparece de forma gradual, é difícil dizer onde acaba a crise e começa a recuperação. É aqui que um registo ajuda mais do que a memória.

Outro cuidado: se, ao acordares, tens dor de cabeça e não sabes se é o fim de uma crise ou o início de outra, vale a pena ler Dor de cabeça ao acordar: enxaqueca, sono e outras causas.

Como reconhecer o teu pósdromo no diário de enxaqueca

O diário é a melhor forma de perceberes o teu pósdromo: quando começa, como se sente e quanto tempo demora a passar. Sem registo, o dia seguinte à crise costuma ficar "perdido" na memória, como um dia mau sem etiqueta.

Em cada crise, podes anotar:

  • Hora a que a dor terminou (ou deixou de incomodar);
  • Como te sentiste nas horas seguintes: cansaço, sonolência, nevoeiro mental, pescoço rígido, humor, apetite;
  • Hora em que te sentiste "normal" outra vez: é o que marca o fim do pósdromo;
  • O que fizeste nesse dia e se correu melhor ou pior por isso.

Ao fim de algumas crises começas a ver padrões: talvez o teu pósdromo dure sempre meio dia, talvez seja pior depois de crises longas, talvez o trabalho de ecrã nesse dia o agrave. Se precisares de ideias sobre o que registar, o artigo Diário de enxaqueca: o que anotar para que sirva mesmo explica o essencial sem complicar.

Como te organizares no dia seguinte a uma crise

O objetivo não é "recuperar o tempo perdido", é poupar energia enquanto o corpo e a cabeça voltam ao normal. Não são conselhos médicos, apenas ideias práticas que podes adaptar:

  • Pensa no dia seguinte ainda durante a crise (se conseguires). Se sabes que costumas ficar lenta no dia a seguir, avisa quem precisas ou adia o que não for urgente.
  • Deixa as tarefas que exigem concentração para mais tarde. Responder a emails difíceis, estudar matéria nova ou tomar decisões importantes podem esperar umas horas.
  • Começa pelo simples. Uma lista curta de duas ou três coisas realistas é melhor do que uma lista longa que te faz sentir mal.
  • Alimenta-te e hidrata-te com calma. Alterações de apetite e sede fazem parte dos sintomas descritos pelo SNS 24, por isso não ignores o que o corpo pede.
  • Faz pausas e reduz estímulos. Se a luz, o ruído ou os ecrãs te incomodam, baixa o brilho e faz intervalos.
  • Sê gentil contigo. A culpa por "não fazer nada" não ajuda a recuperar.

Se for possível, evita também encadear um dia exigente logo a seguir a uma crise. Quando isso não depende de ti (estudos, trabalho, filhos), pensa em quem te pode ajudar com uma tarefa ou duas. Para mais ideias sobre como aliviar a crise em si, vê Como aliviar uma enxaqueca sem medicamentos.

Quando falar com o médico sobre o pósdromo?

Vale a pena falar com o teu médico quando o pósdromo interfere de forma regular na tua vida, quando dura mais do que o habitual ou quando algo te parece diferente do teu padrão. Não é preciso esperar que seja "grave" para pedir ajuda.

Podes levar à consulta, por exemplo:

  • as datas e a duração das tuas crises, incluindo as horas ou dias de recuperação;
  • quantas vezes por mês perdes dias de trabalho ou de estudo por causa do pósdromo;
  • o que costuma agravar ou aliviar esses dias.

O médico pode avaliar se o teu plano de tratamento está adequado e se há outras causas de cansaço a considerar. Não mudes nem tomes medicação por tua conta com base no que lês na internet. Se não sabes a quem recorrer, o artigo Enxaqueca: que médico consultar e como preparar a tua consulta ajuda a perceber por onde começar.

Se tiveres uma dor de cabeça súbita e muito intensa, diferente de tudo o que já sentiste, ou sintomas novos que te assustam, não esperes: lê Dor de cabeça: quando ir às urgências e quando podes esperar.

Conclusão: a crise não acaba quando a dor passa

O pósdromo é uma parte real da enxaqueca, e o cansaço, o nevoeiro mental e o mal-estar que sentes depois da dor não são "frescuras". A sua duração varia de crise para crise.

Reconhecer esta fase no diário e planear o dia seguinte com mais calma pode tirar-lhe peso. E não precisas de ter pressa em estar "boa": o teu corpo precisa de tempo para voltar ao normal.

Perguntas frequentes

Todas as pessoas com enxaqueca têm pósdromo?

Não necessariamente. Nem todas as pessoas passam por todas as fases da crise, nem em todas as crises. Por isso podes ter um pósdromo marcado numa crise e quase nenhum noutra.

O pósdromo é o mesmo que "ressaca de enxaqueca"?

Sim, "ressaca" é a forma como muitas pessoas descrevem o pósdromo no dia a dia. O SNS 24 refere que, nesta fase, se descreve muitas vezes uma espécie de "ressaca" depois da crise.

Quanto tempo devo esperar até me sentir normal?

Varia de pessoa para pessoa e de crise para crise. O teu diário vai mostrar-te qual é a tua duração habitual.

Posso confundir o pósdromo com o início de outra crise?

Pode acontecer, porque os sintomas do início e do fim da crise são parecidos (cansaço, sonolência, rigidez no pescoço). O que ajuda a distinguir é o momento: o pósdromo vem depois de a dor terminar, enquanto o pródromo aparece antes da dor seguinte. Anotar horas e sintomas ajuda a ver a diferença.

Devo falar com o médico se o cansaço depois da crise for muito forte?

Sim, sobretudo se for frequente, se te impedir de fazer a tua vida normal ou se durar mais do que o habitual. O médico pode avaliar o teu caso e ajustar o plano de tratamento, se for preciso.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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