
Analgésico para dor de cabeça: paracetamol, ibuprofeno ou aspirina? As diferenças explicadas
Estás no trabalho ou na faculdade, a cabeça começa a pesar e abres a gaveta onde guardas os comprimidos à procura de um analgésico para dor de cabeça. Ben-u-ron, Brufen, Aspirina: qual deles faz mais sentido? E será que podes tomar o que já tens em casa?
Não existe um analgésico para dor de cabeça que seja o melhor para toda a gente. Cada família de medicamentos tem vantagens, limites e precauções diferentes, e o que mais conta é a tua situação (outras doenças, gravidez, estômago, outros medicamentos). Neste artigo explicamos como se distinguem o paracetamol, o ibuprofeno e a aspirina, sem doses e sem substituir o teu médico ou o farmacêutico. Se quiseres a visão geral dos tratamentos, tens também a nossa página sobre os tratamentos da enxaqueca.
Em resumo
- O paracetamol alivia a dor mas não é anti-inflamatório; o ibuprofeno e a aspirina são anti-inflamatórios, com mais precauções para o estômago e o coração.
- Na dor de cabeça de tensão e na enxaqueca, os mesmos analgésicos comuns podem ser usados, mas a enxaqueca pode precisar de tratamentos específicos como os triptanos, prescritos por um médico.
- Misturar vários medicamentos sem aconselhamento é arriscado, porque muitos já contêm a mesma substância.
- Tomar analgésicos em 15 ou mais dias por mês, durante mais de três meses, pode dar origem a uma dor de cabeça causada pela própria medicação.
Que analgésico para dor de cabeça se compra sem receita?
Em geral, falamos de três nomes: o paracetamol, o ibuprofeno e o ácido acetilsalicílico (a aspirina). Os dois últimos pertencem à família dos anti-inflamatórios não esteroides, muitas vezes abreviados como AINEs. O paracetamol é um analgésico simples, que alivia a dor e a febre mas não trata a inflamação, como explica a CUF.
Esta diferença parece técnica, mas tem consequências práticas. Como atuam de formas distintas, também têm efeitos secundários diferentes e não servem exatamente as mesmas pessoas. Aliás, o folheto do ibuprofeno avisa quem tem asma ou reações a outros anti-inflamatórios, o que mostra que ibuprofeno e aspirina são "primos" e podem provocar o mesmo tipo de reação.
Para a enxaqueca, quem decide o que é adequado para ti é o teu médico, e é por isso que esta comparação serve para perceberes as diferenças, não para escolheres sozinha um tratamento.
Paracetamol: o mais suave, mas não o mais potente
O paracetamol costuma ser a escolha de quem tem o estômago sensível, porque não irrita a mucosa como os anti-inflamatórios. Segundo a CUF, quem tem problemas de estômago ou de rins, ou está grávida ou a amamentar, deve preferir o paracetamol ao ibuprofeno. Nestes casos, a decisão deve sempre passar por um profissional de saúde.
O ponto fraco do paracetamol é o fígado. A mesma fonte indica que o paracetamol é mais danoso para o fígado, sobretudo quando se toma a mais. O folheto informativo também alerta que quem consome álcool de forma crónica tem maior risco de lesão do fígado.
Há ainda uma armadilha frequente: o paracetamol está escondido em muitos medicamentos para a gripe e a constipação. O Infarmed deixou um alerta sobre os cuidados a ter com a dose e sobre o facto de alguns medicamentos já o conterem, por isso lê sempre a composição antes de juntar um segundo comprimido.
Será o paracetamol eficaz numa enxaqueca? Pode ajudar nas crises mais ligeiras, mas na prática costuma ser menos potente do que um anti-inflamatório ou um medicamento específico. Se vês que nunca é suficiente, vale a pena falar disso na consulta, em vez de ires aumentando por tua conta.
Ibuprofeno e outros anti-inflamatórios: mais opções, mais precauções
O ibuprofeno atua na dor e na inflamação, mas pede mais cuidados com o estômago e o coração. A CUF resume que o ibuprofeno favorece mais problemas de estômago e cardiovasculares do que o paracetamol, o que não significa que seja perigoso, mas que não é indicado para toda a gente.
Os folhetos informativos aprovados em Portugal são claros sobre quem deve evitá-lo: pessoas com úlcera no estômago, doença inflamatória do intestino ou hemorragias digestivas anteriores, e quem teve crises de asma ou reações alérgicas com aspirina ou outros anti-inflamatórios. Na gravidez, a CUF indica que o ibuprofeno deve ser evitado, pelo que convém falar com o médico antes de tomar qualquer coisa.
Um conselho de bom senso, que vem dos próprios folhetos: tomar com alimentos ou depois de comer costuma ser mais gentil para o estômago, mas pergunta ao farmacêutico o que é indicado para ti.
Por que razão os anti-inflamatórios são tantas vezes mencionados na enxaqueca? Porque fazem parte das opções habituais de tratamento da crise, a par dos analgésicos simples e dos triptanos. Podes ler a visão completa em Medicamentos para a enxaqueca.
Aspirina: um anti-inflamatório com regras próprias
A aspirina (ácido acetilsalicílico) é também um anti-inflamatório, mas tem restrições específicas que a distinguem do ibuprofeno. A mais importante diz respeito a crianças e adolescentes: o folheto informativo de cada produto com aspirina deve ser lido com atenção, pois existe o risco de síndrome de Reye, uma doença rara mas muito grave, associada a infeções virais como a gripe e a varicela.
Na prática, se tens uma irmã mais nova, um filho ou um sobrinho adolescente com dor de cabeça, não lhes dês a tua aspirina sem falar com um médico ou farmacêutico. Para mais informação sobre os mais novos, podes ler o nosso guia para pais sobre enxaqueca em crianças.
Como é um AINE, a aspirina partilha com o ibuprofeno as precauções para o estômago e para quem tem asma sensível a estes medicamentos. Quem já toma aspirina ou outro anticoagulante por indicação médica não deve juntar mais um comprimido sem perguntar.
Dor de cabeça de tensão ou enxaqueca: a escolha muda?
Os analgésicos comuns podem ser usados nos dois tipos de dor, mas a enxaqueca tem tratamentos específicos que a dor de tensão não precisa. A dor de tensão costuma ser mais leve, em "aperto" dos dois lados, sem náuseas importantes. Já a enxaqueca é muitas vezes pulsátil, de um lado só, com sensibilidade à luz e ao ruído. Se tens dúvidas sobre o que sentes, lê a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça e a nossa explicação sobre a dor de cabeça de tensão.
Na enxaqueca, as crises mais fortes ou que não respondem aos analgésicos comuns podem justificar uma consulta para ver se há lugar a triptanos, que são medicamentos de prescrição médica pensados para a crise de enxaqueca. Não há aqui um "truque" para escolher sozinha: é uma conversa com o médico, com base na frequência e na intensidade das tuas crises.
Outro ponto: a enxaqueca vem muitas vezes com náuseas, o que pode dificultar a toma de comprimidos. É um tema que merece ser falado na consulta, e temos um artigo sobre enxaqueca e náuseas.
Posso combinar ou alternar vários analgésicos?
Não deves misturar ou alternar analgésicos por tua conta, porque muitos produtos contêm a mesma substância sem que dês por isso. O folheto do paracetamol desaconselha associá-lo a outros medicamentos que o contenham, a salicilatos ou a outros anti-inflamatórios sem aconselhamento. Existem, é verdade, esquemas que os médicos propõem em certas situações, mas isso é uma decisão clínica e individual.
Antes de tomares um segundo comprimido, faz estas verificações simples:
- Lê a composição do primeiro (muitos medicamentos para gripe incluem paracetamol).
- Confirma se tomas outros medicamentos que possam interagir (anticoagulantes, por exemplo).
- Pergunta ao farmacêutico, que não precisa de marcação e conhece o teu perfil.
Se te sentires a cair no "mais um por precaução", é um bom sinal para falar com um profissional. A nossa página sobre como aliviar uma enxaqueca sem medicamentos também tem ideias complementares (descanso, ambiente calmo, hidratação), que não substituem o tratamento mas podem ajudar.
Quantas vezes é demais? Quando o analgésico mantém a dor de cabeça
Tomar analgésicos com demasiada frequência pode, paradoxalmente, tornar as dores de cabeça mais frequentes. Chama-se cefaleia por uso excessivo de medicação e aparece em pessoas que já tinham dor de cabeça (como enxaqueca ou dor de tensão) e que usam medicação aguda com regularidade.
Os critérios médicos são concretos. Segundo um artigo da revista Sinapse sobre enxaqueca crónica e cefaleias por uso excessivo de medicação, fala-se de problema quando há dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, com uso excessivo de medicação aguda durante mais de três meses. O limiar é de 10 ou mais dias por mês para triptanos e para alguns analgésicos combinados, e de 15 ou mais para analgésicos simples e anti-inflamatórios.
Isto não quer dizer que um mês mais difícil te coloque neste grupo, nem que tens de sentir culpa. Muitas pessoas chegam aí porque as crises são frequentes e a dor é real. O que importa é perceber o padrão e não o ignorar.
Como saber quantos dias tomas? Um bom ponto de partida é o diário de enxaqueca e a forma de analisar o calendário e as tendências. Se já tens dor de cabeça muitas vezes por semana, lê também dor de cabeça todos os dias.
Se reconheces este padrão, não pares nem mudes a medicação sozinha. O médico pode propor um plano com tratamento preventivo (por exemplo os anti-CGRP ou outras opções), e é ele quem define como reduzir o analgésico de forma segura.
Quando falar com o médico ou o farmacêutico?
Fala com o farmacêutico para dúvidas pontuais e com o médico quando a dor se repete, muda de padrão ou não responde ao que tomas. O farmacêutico ajuda a escolher entre produtos de venda livre, a ler o folheto e a evitar duplicações. O médico avalia o tipo de dor de cabeça e decide o plano de tratamento.
Alguns sinais pedem uma consulta:
- Dores de cabeça frequentes, ou que te obrigam a tomar comprimidos muitas vezes por mês.
- Crises que deixam de responder ao que costumava funcionar.
- Gravidez, amamentação, doença do fígado, rins ou estômago, asma, ou toma de outros medicamentos.
- Uma dor de cabeça diferente de todas as anteriores.
Se não sabes a quem recorrer, o nosso artigo sobre que médico consultar na enxaqueca ajuda a preparar a consulta. Para uma dor súbita e muito intensa ou acompanhada de sintomas neurológicos, consulta quando ir às urgências.
Como escolher sem errar
Escolher bem passa menos por procurar o comprimido "perfeito" e mais por conhecer os limites de cada um e a frequência com que o usas. O paracetamol é mais suave para o estômago, mas exige atenção ao fígado e às duplicações. O ibuprofeno e a aspirina tratam também a inflamação, mas pedem cuidado com estômago, coração, asma e, no caso da aspirina, com os mais novos.
Em qualquer caso, leva contigo estas ideias:
- Lê o folheto e a composição antes de juntar medicamentos.
- Usa os analgésicos o mínimo de dias possível e regista quantos dias tomas.
- Fala com um profissional se a dor se repete ou se sentes que precisas de mais e mais.
Registar as tuas crises é, muitas vezes, o primeiro passo para uma consulta mais útil, e é isso que a Mellow te ajuda a fazer, de forma calma e sem pressões.
Perguntas frequentes
Qual é o melhor analgésico para a dor de cabeça?
Não há um melhor para todas as pessoas. A escolha depende do tipo de dor, do estômago, do fígado, da gravidez e de outros medicamentos que tomas, por isso convém falar com o farmacêutico ou o médico. A CUF recomenda, por exemplo, preferir o paracetamol em caso de problemas de estômago ou rins.
Posso tomar paracetamol e ibuprofeno ao mesmo tempo?
Alguns esquemas existem, mas devem ser indicados por um profissional de saúde, que avalia o teu caso. Tomar vários comprimidos por conta própria é arriscado porque muitos produtos contêm as mesmas substâncias.
Os analgésicos podem causar mais dor de cabeça?
Sim, quando usados com demasiada frequência. A cefaleia por uso excessivo de medicação é descrita quando a dor surge em 15 ou mais dias por mês, com uso regular de medicação aguda durante mais de três meses. Se te reconheces, fala com o médico antes de alterares o que tomas.
Posso dar aspirina a um adolescente com dor de cabeça?
Não sem falar com um médico ou farmacêutico, por causa do risco de síndrome de Reye em contexto de infeções virais. O farmacêutico pode indicar o que é adequado para a idade.
Quando uma dor de cabeça exige ir ao médico?
Quando é frequente, muda de padrão ou deixa de responder ao que tomas. Se for súbita, muito intensa ou vier com sintomas neurológicos, procura os serviços de urgência.
Fontes
- Paracetamol vs. ibuprofeno:
- Enxaqueca crónica, refratária e cefaleias por uso excessivo de
- Com o apoio do
- paracetamol algik
- ibuprofeno betude
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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