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Mulher de hijab azul, olhos fechados e mão na têmpora, com luzes coloridas em zigue-zague ao lado
Sintomas

Enxaqueca com aura: como entender os sinais antes da crise

Por Laurine Nicoletti12 min

Você está no ônibus, olhando o celular, e de repente uma pontinha da visão começa a brilhar em zigue-zague. Ou sente a mão formigando e a palavra que você queria dizer simplesmente não sai. Poucos minutos depois, a dor de cabeça chega. Se isso soa familiar, é provável que você já tenha ouvido falar de enxaqueca com aura.

A aura é um conjunto de sintomas do sistema nervoso que aparece antes (ou junto) da dor, passa sozinho e costuma assustar bastante na primeira vez. Neste artigo, você vai entender o que ela é, por que acontece, como se apresenta, como diferenciá-la de um AVC e como anotar suas crises para conversar melhor com seu médico. Se quiser uma visão mais ampla do assunto, a página Sintomas da enxaqueca reúne os outros textos do blog sobre o tema.

Em resumo

  • A aura é um conjunto de sintomas neurológicos reversíveis (visuais, de sensibilidade ou de fala) que se instalam aos poucos e duram, em geral, de 5 a 60 minutos, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia.
  • A aura visual é a mais comum: ocorre em cerca de 90% das pessoas com enxaqueca com aura, segundo a mesma fonte.
  • Sintomas que surgem de repente, como perda de força, rosto torto ou fala embolada, não devem ser tratados como aura: ligue para o SAMU 192, conforme orienta o Ministério da Saúde.
  • Ter aura está associado a um risco um pouco maior de AVC, mas é um risco que seu médico pode avaliar junto com outros fatores, como a escolha do método contraceptivo.

O que é a enxaqueca com aura?

A enxaqueca com aura é uma enxaqueca em que, antes ou durante a dor, aparecem sintomas neurológicos temporários e totalmente reversíveis. A Sociedade Brasileira de Cefaleia define a aura como manifestações neurológicas bem localizadas, que surgem de forma gradual (não súbita), em um dos lados do corpo, e que duram de 5 a 60 minutos cada.

Nem toda pessoa com enxaqueca tem aura. Segundo o Hospital Israelita Albert Einstein, cerca de 20% dos pacientes com enxaqueca apresentam aura. Isso quer dizer que a maioria das pessoas migranosas nunca vai ter esses sintomas, e quem tem pode senti-los em algumas crises e em outras não.

A aura costuma vir seguida da dor de cabeça, mas a ordem pode variar. A dor pode começar durante a aura ou logo depois, e a SBCefaleia lembra que a cefaleia que vem após a aura pode ou não ter as características típicas da enxaqueca.

Como é uma aura? Os tipos mais comuns

A aura mais comum é a visual, e ela costuma aparecer em uma parte do campo de visão e crescer devagar. De acordo com a SBCefaleia, cerca de 90% das pessoas com enxaqueca com aura têm sintomas visuais, como:

  • pontos escuros (escotomas), uma área em que você enxerga menos;
  • pontos brilhantes ou cintilações, parecidos com flashes;
  • imagens em zigue-zague, chamadas de espectros de fortificação, que lembram as muralhas de um castelo.

O Einstein também descreve a aura visual como brilhos, luzes e manchas que podem se deslocar no campo de visão.

E os outros tipos de aura?

Além da visão, a aura pode envolver outras funções. Segundo a SBCefaleia, a evolução típica começa pelos sintomas visuais, segue para os de sensibilidade e, por fim, podem aparecer alterações de fala ou linguagem.

  • Sensitiva: formigamento ou dormência, em geral de um lado só do corpo. É o segundo tipo mais frequente, segundo o guia clínico do Einstein.
  • Fala e linguagem: dificuldade para encontrar palavras ou para falar, que passa junto com a aura.
  • Motora, de tronco cerebral ou da retina: são formas menos comuns, listadas pelo Einstein entre os tipos de aura, e merecem avaliação de um profissional.

Se você tem sintomas diferentes desses ou nunca foi avaliada, vale contar para o médico. Só ele pode confirmar se o que você sente é mesmo aura.

Por que a aura aparece? A onda que percorre o cérebro

A explicação mais aceita é uma onda de atividade elétrica que se espalha lentamente pelo córtex, a camada externa do cérebro. Ela se chama depressão alastrante cortical. Uma revisão publicada na SciELO descreve esse fenômeno como uma onda de forte despolarização de neurônios que se propaga devagar, em torno de 2 a 6 mm por minuto.

Há um detalhe de orgulho nacional aqui: o fenômeno foi descrito em 1945 pelo fisiologista brasileiro Aristides Leão, ainda em estudos com coelhos, e por isso também é conhecido como "depressão alastrante de Leão", de acordo com a mesma publicação.

Como a onda é lenta, ela explica por que a aura não vem de uma vez: a luz começa pequena e vai aumentando, o formigamento "caminha" pela mão e depois pelo rosto. A mesma revisão aponta que essa onda tem velocidade parecida com a da aura e está ligada a processos que ativam a via da dor da enxaqueca. Ainda existem debates científicos sobre exatamente como a onda se relaciona com a dor, e isso é algo que a pesquisa continua investigando.

O que acontece antes da crise com aura?

Antes da aura, muita gente percebe sinais mais discretos, chamados de fase premonitória ou pródromo. A SBCefaleia descreve a enxaqueca em quatro fases: premonitória, aura, dor de cabeça e resolução (a "ressaca" depois da crise). Nem toda crise passa por todas as fases.

Os sinais da fase premonitória podem surgir até 72 horas (3 dias) antes da dor, segundo a SBCefaleia. Entre os mais citados:

  • cansaço e bocejos repetidos;
  • dificuldade de concentração;
  • irritabilidade ou mudança de humor;
  • vontade de comer doces.

Esses sinais não são aura, e é fácil confundi-los com um dia ruim. Mas, se você começar a perceber um padrão, eles podem funcionar como um aviso. Anotar o que você sentiu nas horas ou nos dias anteriores ajuda a descobrir se isso se repete.

Quanto tempo dura a aura e ela pode vir sem dor?

A aura dura, em geral, de 5 a 60 minutos e depois desaparece completamente. A SBCefaleia explica que ela se desenvolve de forma gradual, ao longo de no mínimo 5 minutos. Se um mesmo sintoma passa de uma hora, o guia do Einstein trata isso como um sinal que pede investigação médica.

E a dor? Costuma surgir logo depois do fim da aura, mas a aura também pode acontecer sem dor de cabeça nenhuma. Foi o caso de documentos do Ministério da Saúde sobre enxaqueca, que incluem a "aura sem enxaqueca" entre as formas possíveis da doença. Mesmo sem dor, vale contar ao médico, principalmente se for a primeira vez.

Aura ou AVC: como saber a diferença?

A diferença mais importante é a forma como os sintomas começam: na aura, eles se instalam aos poucos; no AVC, costumam surgir de repente. Segundo a Secretaria de Saúde de Alagoas, na enxaqueca os sintomas costumam "caminhar" (as luzes começam pequenas e crescem), enquanto no AVC o déficit costuma ser súbito, com perda de função.

Em outras palavras, a aura costuma trazer sintomas "a mais", como luzes e formigamento. O AVC costuma trazer sintomas "a menos": perda de força, perda de visão como se uma cortina fechasse, perda da fala.

O Ministério da Saúde lista como sinais de alerta de AVC:

  • confusão mental;
  • alteração da fala ou da compreensão;
  • alteração da visão em um ou nos dois olhos;
  • dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente;
  • alteração do equilíbrio, tontura ou dificuldade para andar;
  • fraqueza ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna).

Se algum deles aparecer, o Ministério orienta ligar para o SAMU (192) ou os Bombeiros (193), ou ir imediatamente a um hospital. Os sintomas podem se sobrepor, e a própria Secretaria de Saúde de Alagoas destaca que, na dúvida, é essencial buscar avaliação médica. O Einstein também alerta que um AVC pode ser confundido com aura, principalmente quando o único sintoma é a perda de campo visual. Na dúvida, não espere: procure atendimento.

Ter enxaqueca com aura aumenta o risco de AVC?

Sim, estudos mostram uma associação, embora o risco individual continue sendo baixo para a maioria das pessoas. Segundo o Einstein, ter enxaqueca com aura aumenta em cerca de três vezes o risco de AVC, e isso foi reconhecido como fator de risco em revisões de estudos da última década. A Febrasgo fala em um aumento de 2 a 3 vezes.

Isso não significa que você vai ter um AVC. Quer dizer que a aura é uma informação que o médico leva em conta, junto com pressão, colesterol, cigarro, histórico familiar e outros fatores. Cuidar desses itens é parte do acompanhamento.

E o anticoncepcional?

Esse é um ponto que merece uma conversa com seu ginecologista ou neurologista. A Febrasgo afirma que o uso de anticoncepcionais hormonais combinados está associado a maior risco de AVC, especialmente em mulheres com enxaqueca com aura (de 2 a 4 vezes). Para mulheres que relatam aura, a Febrasgo indica contraindicação dos métodos hormonais combinados, independentemente da via.

Isso não é um recado para você mudar nada por conta própria. Se você usa pílula, adesivo ou anel e tem aura, ou se começou a ter aura depois de iniciar um método, conte isso ao seu médico. Ele vai avaliar as alternativas, algumas disponíveis no SUS.

Quando fazer exames, como a ressonância?

Na maioria dos casos de aura típica, o diagnóstico é clínico, ou seja, feito pela conversa e pelo exame com o médico. O Einstein explica que exames de imagem são pedidos quando há suspeita de que a dor ou os sintomas sejam causados por outra doença.

O guia clínico do Einstein cita, entre os sinais que levam a pedir neuroimagem:

  • dor de cabeça que piora progressivamente em intensidade ou frequência;
  • déficits neurológicos focais (como fraqueza em um lado do corpo);
  • aura que dura mais de uma hora;
  • dor de cabeça que começa depois dos 50 anos.

Perda súbita do campo visual junto com dor de cabeça também é um sinal de alerta que exige investigação, segundo o Einstein. Se alguma dessas situações lembra o seu caso, converse com o médico. Quem decide se um exame é necessário é ele, não a internet.

Registrar suas auras muda a consulta

Auras são difíceis de descrever depois que passam, e o registro na hora ajuda muito. A SBCefaleia disponibiliza um diário da cefaleia e recomenda anotar as crises conforme elas acontecem, em vez de esperar para anotar várias de uma vez. Isso permite ao médico ver duração, horário, remédios usados e fatores desencadeantes.

Em vez de dizer "às vezes eu vejo umas luzes", você pode chegar com informações como:

  • como foi a aura (luzes, formigamento, dificuldade de falar) e quanto tempo durou;
  • quanto tempo depois a dor chegou, ou se ela não veio;
  • o que aconteceu nas 24 horas antes: sono, estresse, refeições puladas, horas de tela, fase do ciclo;
  • se algum sintoma foi diferente do habitual.

Esse último ponto é o mais valioso: se um dia a aura mudar, durar mais ou vier acompanhada de algo novo, você vai perceber porque tem um histórico para comparar. Sobre telas, por exemplo, vale ler Luz azul e enxaqueca: as telas são mesmo culpadas?. E se você tem familiares com enxaqueca, o texto A enxaqueca é hereditária? explica o que os estudos dizem.

O que você pode fazer a partir de agora

Você não precisa ter medo da aura, mas também não precisa passar por ela sozinha. Alguns passos práticos:

  1. Anote cada aura: tipo, duração e o que veio antes e depois.
  2. Aprenda o seu padrão. Sintomas que aparecem aos poucos, com sua cara de sempre, tendem a ser a aura que você já conhece.
  3. Conheça os sinais de alerta de AVC e saiba que o número é o 192.
  4. Leve seu histórico para o médico, principalmente se você usa anticoncepcional hormonal ou tem outros fatores de risco.
  5. Não se automedique nem mude seu tratamento sem orientação profissional.

A enxaqueca não tem uma cura definitiva, mas pode ser acompanhada e controlada com orientação médica. Conhecer a sua aura é um bom primeiro passo para conversar com mais segurança.

Perguntas frequentes

Toda enxaqueca com aura vem com dor de cabeça?

Não. A aura pode acontecer sem dor, embora costume ser seguida de cefaleia. Mesmo quando só aparece a aura, vale registrar e contar ao médico, principalmente se for a primeira vez.

Quantas pessoas com enxaqueca têm aura?

Segundo o Hospital Israelita Albert Einstein, cerca de 20% das pessoas com enxaqueca apresentam aura. A maioria, portanto, tem crises sem esses sintomas.

Uma aura pode ser confundida com AVC?

Sim, porque alguns sintomas se parecem, como alterações visuais e formigamento. A pista principal é o ritmo: na aura, os sintomas se instalam aos poucos e somem em até uma hora; no AVC, costumam começar de repente. Na dúvida, ligue para o SAMU (192).

Quanto tempo dura uma aura?

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, cada sintoma de aura dura de 5 a 60 minutos e se desenvolve gradualmente. Se passar de uma hora ou for diferente do seu padrão, procure avaliação médica.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

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