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Mulher pensativa segurando um livro, cercada de bolhas com cérebro, aura visual, comprimidos e óculos de sol
O essencial

Glossário da enxaqueca: os termos explicados de forma simples

Por Laurine Nicoletti13 min

Você sai da consulta com um papel cheio de palavras novas: cefaleia, pródromo, aura, fotofobia, profilaxia. Ou lê uma matéria sobre enxaqueca e trava no meio do texto, sem saber se aquilo tem a ver com o que você sente. Um glossário da enxaqueca em linguagem simples ajuda justamente a destravar essas leituras e essas conversas.

Este glossário da enxaqueca reúne os termos mais comuns, explicados sem jargão e na ordem em que costumam aparecer na vida real: os tipos de dor de cabeça, as fases de uma crise, os sintomas, a frequência, os tratamentos, a ciência por trás e as ferramentas de acompanhamento. Se quiser uma visão mais ampla do assunto, a página Tudo sobre enxaqueca reúne os outros guias do blog.

Uma observação importante: este texto explica palavras, não faz diagnóstico nem indica tratamento. Para isso, converse sempre com um médico, de preferência um neurologista ou um especialista em cefaleia.

Em resumo

  • Cefaleia é o nome médico para dor de cabeça, e a enxaqueca é uma doença neurológica recorrente, com dor que costuma durar de 4 a 72 horas, segundo o Hospital Israelita Albert Einstein.
  • Uma crise de enxaqueca pode ter até quatro fases: pródromo, aura, dor e pósdromo, e nem todo mundo passa por todas.
  • Fotofobia, fonofobia e osmofobia significam intolerância a luz, sons e cheiros, e não medo.
  • Quem escolhe o tratamento (triptanos, anticorpos anti-CGRP, toxina botulínica) é o médico, e anotar as crises em um diário ajuda a descrever o padrão na consulta.

Por que vale a pena conhecer o vocabulário da enxaqueca?

Entender as palavras ajuda você a descrever melhor o que sente na consulta, e uma boa descrição é a base do diagnóstico. A própria Sociedade Brasileira de Cefaleia publica orientações para ajudar o paciente a preparar a conversa com o médico, justamente porque o diagnóstico depende muito do relato.

Também é uma questão de números. No Brasil, a prevalência de enxaqueca é estimada em cerca de 15,8%, com aproximadamente 22% das mulheres e 9% dos homens afetados, e pico entre 30 e 50 anos, segundo o protocolo nacional da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Ou seja: se você convive com isso, não está sozinha, e é bem provável que o vocabulário ainda apareça muitas vezes na sua vida.

Glossário da enxaqueca: os tipos de dor de cabeça

Cefaleia é o nome médico para dor de cabeça. É o termo guarda-chuva: toda enxaqueca é uma cefaleia, mas nem toda cefaleia é enxaqueca.

Enxaqueca (também chamada de migrânea) é uma doença neurológica recorrente, com dor que costuma ser latejante, em um dos lados da cabeça, durando de 4 a 72 horas e muitas vezes acompanhada de náusea e sensibilidade à luz e ao barulho. Não é "só uma dor forte": é uma condição com sintomas e fases próprias.

Cefaleia tensional é a dor de cabeça mais comum. Costuma ser de fraca a moderada, com sensação de aperto ou pressão, nos dois lados da cabeça, e em geral não vem com outros sintomas.

Cefaleia em salvas é rara e muito intensa. A dor fica de um lado só, em geral ao redor do olho, e vem com olho vermelho, lacrimejamento, nariz entupido e pálpebra caída do mesmo lado. Ao contrário da enxaqueca, afeta mais homens.

Cefaleia primária é aquela que é a própria doença (enxaqueca, tensional, em salvas). Cefaleia secundária é a que surge como consequência de outra causa, como uma infecção, uma pancada ou outro problema de saúde.

Para saber se o seu caso é enxaqueca ou outro tipo, só o médico pode dizer. Um sinal de alerta que vale conhecer: dor de início súbito e muito intensa, ou acompanhada de perda de consciência, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar, andar ou enxergar. Nesses casos, procure atendimento de urgência.

Quais são as fases de uma crise de enxaqueca?

Uma crise não é só o momento da dor. Ela costuma ser descrita em até quatro fases, e nem todo mundo passa por todas ou percebe todas.

  • Pródromo (fase premonitória): sinais que aparecem horas ou até dois ou três dias antes da dor. Podem ser cansaço, bocejos, irritabilidade, dificuldade de concentração e vontade de comer doce. Muita gente só percebe esse padrão depois de anotar várias crises.
  • Aura: sintomas neurológicos passageiros, que antecedem ou acompanham a dor. Veja a explicação logo abaixo.
  • Cefaleia (fase da dor): o auge da crise, que costuma durar de 4 a 72 horas.
  • Pósdromo (fase de resolução): a "ressaca" da crise. Podem aparecer cansaço, sonolência e dificuldade de pensar com clareza, às vezes por até dois dias.

O que é aura, de verdade?

A aura é um fenômeno neurológico passageiro, que normalmente dura entre 5 e 60 minutos e depois desaparece. A forma mais comum é a visual, que aparece em cerca de 90% das pessoas com enxaqueca com aura: pontos pretos (escotomas), pontos brilhantes (cintilações) e linhas em ziguezague que vão crescendo no campo de visão.

A aura também pode envolver formigamento ou alterações na fala. Enxaqueca com aura é quando isso acontece; enxaqueca sem aura é quando não acontece, o que é o caso da maioria das pessoas. Se você teve um sintoma desses pela primeira vez, ou algo diferente do seu padrão, procure um médico para avaliar.

Sintomas: o que significam as palavras difíceis?

Esses termos aparecem em quase toda descrição de enxaqueca. Todos eles terminam em "fobia", mas não têm nada a ver com medo: significam intolerância.

  • Fotofobia: intolerância à luz, que leva muita gente a procurar um quarto escuro.
  • Fonofobia: intolerância a sons e ruídos.
  • Osmofobia: intolerância a cheiros, como perfume, cigarro ou comida.
  • Cinetofobia: piora da dor com movimento, como subir uma escada ou balançar dentro de um ônibus.
  • Alodínia: dor causada por algo que normalmente não dói. Na enxaqueca, pode ser a sensação de que pentear o cabelo, usar um rabo de cavalo ou encostar a pele do couro cabeludo incomoda durante a crise. Esse tipo de alodínia costuma começar de 20 a 120 minutos depois do início da dor.

Se você se identifica com algumas dessas palavras, vale anotá-las. A luz, por exemplo, é um assunto frequente: no artigo sobre luz azul e enxaqueca explicamos o que se sabe (e o que ainda não se sabe) sobre as telas.

Enxaqueca crônica, episódica e uso excessivo de medicação: o que é a frequência?

Os médicos também usam palavras para descrever com que frequência as crises acontecem.

Enxaqueca episódica é a mais comum: as crises vêm de vez em quando, com dias sem dor entre uma e outra. Enxaqueca crônica é quando a dor de cabeça ocorre em mais de 15 dias por mês, por mais de três meses, com características de enxaqueca em pelo menos parte desses dias. Quem está nessa situação merece acompanhamento especializado.

Cefaleia por uso excessivo de medicação (também chamada de cefaleia de rebote) acontece quando analgésicos ou outros remédios para a crise são usados com frequência demais, e a dor de cabeça passa a ficar mais frequente por causa disso. A Sociedade Brasileira de Cefaleia alerta que o uso excessivo de analgésicos é hoje uma das principais causas de cronificação da dor. Por isso, se você percebe que está recorrendo ao remédio com muita frequência, converse com seu médico em vez de ajustar por conta própria.

Estado de mal migranoso é uma crise que se prolonga por mais de 72 horas. Quando a dor se arrasta desse jeito, é um motivo para buscar atendimento.

Tratamentos: o que significam os nomes que você ouve?

Aqui o vocabulário é bem diferente, e o importante é lembrar: quem escolhe o tratamento é o médico. Este trecho serve só para você entender as palavras.

Tratamento agudo (ou de crise) é o que se usa quando a dor já começou, para aliviá-la. Tratamento preventivo (ou profilaxia) é o que se usa de forma contínua, para reduzir a frequência e a intensidade das crises ao longo do tempo.

Triptanos

Os triptanos são uma classe de remédios criada especificamente para crises de enxaqueca. Atuam em receptores de serotonina e são usados para tratar a crise aguda, não para prevenir. Nem todo mundo responde da mesma forma, e só o médico avalia se faz sentido no seu caso.

Anticorpos monoclonais anti-CGRP

São medicamentos mais recentes, aplicados por injeção, que agem contra o CGRP (veja abaixo) ou contra o receptor dele. A Sociedade Brasileira de Cefaleia explica que eles têm o objetivo de reduzir a quantidade de CGRP em circulação e, com isso, diminuir o disparo das crises. Têm função preventiva. Os nomes que você pode ouvir são erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe e eptinezumabe.

Toxina botulínica (Botox)

Na enxaqueca crônica, a toxina botulínica é usada como tratamento preventivo, aplicada em pontos específicos da cabeça, do pescoço e dos ombros, repetida a cada 12 semanas. Para entender o protocolo em detalhes, leia Botox para enxaqueca crônica: o protocolo PREEMPT explicado.

E no SUS?

Hoje, segundo um relatório da Conitec, não existe um Protocolo Clínico e Diretriz Terapêutica (PCDT) específico para enxaqueca no SUS. Isso significa que o acesso a certos tratamentos pode variar. Se tiver dúvidas sobre o que está disponível na sua cidade ou no seu plano, o médico ou a unidade de saúde podem orientar.

A ciência por trás da enxaqueca, sem complicação

Nenhum desses termos precisa virar uma aula de neurologia, mas conhecê-los ajuda a entender as notícias e as consultas.

  • Hiperexcitabilidade neuronal: o cérebro de quem tem enxaqueca reage com mais intensidade a estímulos. A enxaqueca é descrita como uma doença com hiperexcitabilidade neuronal e desregulação do processamento sensorial, o que explica a sensibilidade a luz, som e cheiro.
  • Sistema trigeminovascular: o conjunto formado pelo nervo trigêmeo (que leva sensações do rosto e da cabeça ao cérebro) e pelos vasos sanguíneos da cabeça. Durante a crise, esse sistema é ativado e libera substâncias inflamatórias que mantêm a dor.
  • CGRP: sigla em inglês para peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, uma substância que participa do disparo das crises e é o alvo dos anticorpos monoclonais.
  • Sensibilização central: quando o sistema nervoso fica "mais sensível", e a dor passa a ser sentida com mais facilidade. É uma das explicações propostas para a cronificação da enxaqueca.
  • Componente genético: a enxaqueca tende a se repetir em famílias, mas isso não é uma regra. Sobre o que dizem os estudos, veja A enxaqueca é hereditária?.

Vale lembrar que a ciência ainda está descobrindo como tudo isso se encaixa. Por isso, evite explicações que prometem uma "causa única" ou uma cura.

Desencadeantes, diário e outras ferramentas de acompanhamento

Desencadeante (ou gatilho) é algo que aumenta a chance de uma crise, em pessoas que já têm a predisposição. A Sociedade Brasileira de Cefaleia lista, entre os fatores mais citados, jejum prolongado, sono ruim, estresse e ansiedade, além de certos alimentos e bebidas. Os gatilhos variam muito de pessoa para pessoa, e o que desencadeia a crise em uma não necessariamente atinge outra.

Diário de cefaleia é o registro das suas crises: data, horário, duração, intensidade, sintomas, o que você fez para aliviar e o que aconteceu nas horas anteriores. Profissionais de saúde recomendam anotar a rotina para identificar possíveis desencadeantes, e o registro costuma ajudar bastante o médico a entender o padrão.

Outras palavras que aparecem aqui:

  • Enxaqueca menstrual: crises que se concentram em torno da menstruação, relacionadas às variações hormonais.
  • Intensidade: o quanto a dor incomoda, em geral numa escala de 0 a 10.
  • Tendência: a direção em que as crises caminham ao longo de semanas ou meses (mais frequentes, menos frequentes, iguais).

Um diário só funciona se for fácil de preencher. No papel, ele costuma ser abandonado em poucas semanas. No celular, dá para registrar no meio da crise, sem precisar acender uma luz forte.

Como usar este glossário no dia a dia

Você não precisa decorar nada. Algumas ideias práticas:

  1. Anote com as suas palavras primeiro e depois confira aqui o termo correspondente. Dizer "a luz me incomoda" já ajuda, e o médico traduz para fotofobia.
  2. Leve dúvidas por escrito para a consulta, com os termos que você não entendeu.
  3. Observe as fases: se você percebe cansaço ou vontade de doce antes da dor, anote. Pode ser o pródromo.
  4. Cuide do uso de remédios: se você sente que precisa tomar analgésico com muita frequência, avise seu médico em vez de decidir sozinha.
  5. Use o glossário para ler com mais calma: matérias e bulas ficam menos assustadoras quando você reconhece as palavras.

Se algum dia aparecer uma dor muito diferente do seu padrão, súbita e intensa, ou com sintomas como fraqueza, dificuldade para falar ou alteração da visão que você nunca teve, procure atendimento de urgência.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre cefaleia e enxaqueca?

Cefaleia é o nome médico para dor de cabeça, um termo guarda-chuva. Toda enxaqueca é uma cefaleia, mas nem toda cefaleia é enxaqueca: existem também a cefaleia tensional e a cefaleia em salvas, por exemplo.

O que é aura na enxaqueca?

Aura é um fenômeno neurológico passageiro que normalmente dura entre 5 e 60 minutos. A forma mais comum é a visual, com pontos brilhantes ou linhas em ziguezague no campo de visão, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia. Quem tem aura tem enxaqueca com aura, mas a maioria das pessoas tem enxaqueca sem aura.

O que significa enxaqueca crônica?

Enxaqueca crônica é quando a dor de cabeça ocorre em mais de 15 dias por mês, por mais de três meses, com características de enxaqueca em pelo menos parte desses dias. Já a enxaqueca episódica é a mais comum, com dias sem dor entre as crises. Quem está na situação crônica merece acompanhamento especializado.

O que é cefaleia por uso excessivo de medicação?

Também chamada de cefaleia de rebote, acontece quando analgésicos ou outros remédios para a crise são usados com frequência demais e a dor passa a ficar mais frequente. Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, o uso excessivo de analgésicos é hoje uma das principais causas de cronificação da dor. Se isso acontecer com você, converse com seu médico.

Para que serve um diário de cefaleia?

O diário de cefaleia é o registro das crises, com data, duração, intensidade, sintomas e o que aconteceu antes. Ele ajuda a identificar possíveis desencadeantes e a mostrar o padrão ao médico durante a consulta.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

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