← Voltar ao blog
Mulher de olhos fechados, com a mão na têmpora, ao lado de um cérebro luminoso
O essencial

Causas da enxaqueca: o que acontece no seu cérebro durante uma crise

Por Laurine Nicoletti11 min

Você já ficou olhando para o teto no meio de uma crise e se perguntou: "Por que isso acontece comigo? O que eu fiz de errado?". Ou então viu outra pessoa comer a mesma coisa, dormir mal na mesma noite e passar muito bem. A pergunta é legítima, e a resposta é mais tranquilizadora do que parece.

As causas da enxaqueca não estão no que você fez ou deixou de fazer. A enxaqueca nasce de um sistema nervoso que reage de forma mais intensa a estímulos que, para outras pessoas, passam batidos. Neste artigo, a gente explica de forma simples o que acontece no cérebro, qual é o papel do nervo trigêmeo e do CGRP, o que a genética tem a ver com isso e o que a ciência ainda não sabe. Se quiser a visão geral do tema, ela está no nosso guia Tudo sobre enxaqueca.

Em resumo

  • A enxaqueca é uma doença neurológica de base genética: segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, os gatilhos podem desencadear ou piorar as crises, mas não são a causa da doença.
  • O cérebro de quem tem enxaqueca é mais vulnerável à dor porque vários neurotransmissores, como a serotonina e o glutamato, funcionam de maneira diferente, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia.
  • Na fase da dor, o nervo trigêmeo é ativado e libera CGRP, uma substância que ajuda a transmitir e amplificar o sinal doloroso.
  • Ainda há perguntas sem resposta: os cientistas ainda discutem exatamente onde a crise começa e por que ela aparece num dia e não em outro.

Quais são as causas da enxaqueca? Um cérebro mais sensível

A enxaqueca acontece porque o cérebro de quem tem a doença é mais excitável e mais sensível a mudanças do que o de outras pessoas. Não é fraqueza nem frescura: é uma característica neurológica.

A Sociedade Brasileira de Cefaleia explica que essa maior vulnerabilidade do cérebro está ligada a disfunções em vários neurotransmissores, como a serotonina, a dopamina, a noradrenalina e o glutamato. Neurotransmissores são os mensageiros químicos que fazem os neurônios conversarem entre si. Em quem tem enxaqueca, essa conversa funciona de um jeito diferente, e o cérebro fica mais suscetível à dor.

Na prática, é como um alarme de carro regulado para disparar com qualquer vento mais forte. Uma noite mal dormida, um jejum longo ou uma mudança hormonal podem ser suficientes para ele tocar. Em outra pessoa, o mesmo "vento" nem seria notado.

Por isso a enxaqueca vai muito além de uma dor de cabeça forte. Ela costuma vir com sensibilidade à luz, ao barulho e a cheiros, náusea e cansaço, porque é o sistema nervoso inteiro que está em modo de alerta. Se quiser entender os termos que aparecem nos laudos e nas consultas, o glossário da enxaqueca ajuda.

Nervo trigêmeo e CGRP: como a dor se monta

Durante a fase da dor, o nervo trigêmeo é ativado e libera substâncias, entre elas o CGRP, que transmitem e amplificam o sinal doloroso. Esse é considerado um dos principais caminhos da dor na enxaqueca.

O nervo trigêmeo é um nervo do rosto e da cabeça: é ele que dá sensibilidade à testa, aos olhos, às bochechas e à mandíbula. Suas terminações também envolvem as meninges, as membranas que revestem o cérebro.

O CGRP (sigla em inglês para "peptídeo relacionado ao gene da calcitonina") é uma pequena molécula que o sistema nervoso produz naturalmente. Na enxaqueca, ele participa da transmissão da dor e da inflamação ao redor desses nervos. A própria Sociedade Brasileira de Cefaleia descreve o CGRP como uma substância ligada ao disparo das crises, e foi por isso que os remédios que o bloqueiam foram desenvolvidos. Se você quer entender como esses tratamentos funcionam, leia Anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado.

E a ideia de que a enxaqueca é um problema nos vasos do cérebro?

Essa explicação foi muito popular durante décadas, mas hoje a enxaqueca é entendida principalmente como uma doença neurológica, e não como um simples problema de circulação. A Sociedade Brasileira de Cefaleia a descreve exatamente assim, como doença neurológica genética. Os vasos continuam fazendo parte da história, mas como parte de um processo que começa no sistema nervoso.

O que acontece no cérebro durante a aura?

A aura é provavelmente causada por uma onda de atividade elétrica que se espalha lentamente pelo córtex cerebral e depois "silencia" a região por onde passou. Esse fenômeno se chama depressão alastrante (ou depressão alastrante cortical).

Segundo a revisão da Unifesp sobre o tema, trata-se de uma onda lenta de despolarização de neurônios e células de suporte que se propaga pelo córtex e reduz temporariamente a atividade neural. O fenômeno leva o nome do pesquisador brasileiro Aristides Leão, que o descreveu. Como a onda avança devagar, os sintomas da aura também vão "caminhando": uma mancha que cresce no campo de visão, um formigamento que sobe pelo braço.

Essa onda ainda pode estar ligada à dor. Entre as ações que se supõem para a depressão alastrante estão causar a aura, ativar as fibras do nervo trigêmeo e alterar a permeabilidade da barreira que protege o cérebro. Note a palavra "supõem": é uma hipótese bem estudada, mas não uma história fechada.

Nem toda pessoa com enxaqueca tem aura. Para entender como reconhecer esses sinais, veja Enxaqueca com aura: como entender os sinais antes da crise.

A enxaqueca é hereditária? Uma predisposição, não uma sentença

A enxaqueca tem forte componente genético, mas herdar a predisposição não significa que você terá a doença com certeza. A herança é do tipo poligênica e multifatorial: muitos genes, cada um com pequeno efeito, somam-se a fatores do ambiente.

De acordo com uma reportagem da CNN Brasil sobre genética e enxaqueca, estudos com famílias e gêmeos estimam que a herdabilidade varia entre cerca de 35% e 60%, dependendo do subtipo e da população estudada. Uma revisão integrativa brasileira aponta que avanços recentes já identificaram 123 regiões do DNA ligadas ao risco, enriquecidas em tecidos do cérebro e dos vasos.

Existem formas raras de enxaqueca causadas por uma mutação específica, como a enxaqueca hemiplégica familiar, mas elas são exceção. Na maioria das pessoas, o que existe é um conjunto de pequenas variações que, juntas, deixam o cérebro mais sensível.

Se você tem mãe, tia ou avó com enxaqueca, isso faz sentido com o que a ciência mostra. Para saber o que isso significa para seus filhos, leia A enxaqueca é hereditária?.

Por que a enxaqueca é mais comum em mulheres?

A enxaqueca é duas a três vezes mais comum em mulheres do que em homens depois da puberdade, e as oscilações hormonais do ciclo parecem ter um papel importante nisso. Na infância, a diferença entre meninos e meninas é pequena.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, o principal fator não é o estrogênio em si, mas a variação hormonal que acompanha o ciclo menstrual. O mesmo texto lembra que, na gestação, quando os hormônios ficam em níveis altos e estáveis, muitas mulheres sentem melhora das crises. É um bom indício de que a mudança brusca pesa mais do que o nível absoluto.

Isso ajuda a explicar a enxaqueca que aparece perto da menstruação. Para ir mais a fundo, leia Enxaqueca menstrual: por que a menstruação desencadeia crises. E, se você quer ver os números gerais no Brasil e no mundo, eles estão em Enxaqueca em números.

Gatilhos não são causas

Gatilhos como estresse, sono ruim ou jejum podem disparar uma crise num cérebro já predisposto, mas não são a origem da enxaqueca. A Sociedade Brasileira de Cefaleia é clara: os gatilhos não causam as crises, mas podem piorá-las.

Entre os mais citados pela entidade estão o estresse, o jejum e as alterações do sono, como dormir pouco, dormir demais ou acordar no meio da noite. A resposta ao mesmo gatilho muda de pessoa para pessoa, e também de um dia para outro na mesma pessoa. Muitas vezes é a soma de vários fatores que ultrapassa o "limiar" do cérebro, não um único culpado.

Essa distinção tira um peso enorme. Se a causa fosse o gatilho, qualquer crise seria culpa sua. Como a causa é a sensibilidade do sistema nervoso, o gatilho é só a faísca. Para aprender a observar o que costuma acender essa faísca em você, veja Como identificar os gatilhos da enxaqueca.

O que a ciência ainda não sabe

Apesar de muito progresso, ainda não existe uma explicação única e completa para a enxaqueca. Os pesquisadores concordam sobre várias peças do quebra-cabeça, mas discutem como elas se encaixam.

Alguns pontos que continuam em aberto:

  • Onde a crise começa. Há indícios de que áreas profundas do cérebro, como o hipotálamo, participem da fase que antecede a dor, mas esse papel ainda é debatido.
  • O que faz a crise aparecer hoje e não ontem. Dois dias parecidos podem ter desfechos completamente diferentes, e isso ainda não é totalmente previsível.
  • Por que a doença muda ao longo da vida. Algumas pessoas têm crises mais espaçadas com o passar dos anos, outras pioram em certas fases hormonais.
  • Por que os tratamentos funcionam para uns e não para outros. A resposta aos remédios varia bastante, e a ciência ainda não sabe prever com precisão quem responde a quê.

Ou seja: o que existe hoje é um modelo sólido, mas ainda em construção. Quando alguém promete explicar "a causa definitiva" da enxaqueca ou oferece uma cura rápida, desconfie.

O que fazer com tudo isso no dia a dia?

Entender as causas não elimina as crises, mas muda a forma como você se relaciona com elas: menos culpa, mais observação. Algumas ideias práticas:

  • Pare de procurar o culpado único. Pense em fatores que se somam, e não em uma causa só.
  • Observe seus padrões. Anotar data, duração, intensidade e o que aconteceu nas horas anteriores ajuda a ver o que se repete. Veja o que anotar no diário de enxaqueca.
  • Valorize a regularidade. Como o cérebro migranoso gosta de rotina, horários mais constantes de sono e de refeições costumam ser um bom ponto de partida, sem rigidez nem cobrança.
  • Converse com um médico. Para avaliar tratamentos, diferenciar a enxaqueca de outras dores de cabeça e decidir o que faz sentido no seu caso, procure um clínico, neurologista ou a unidade de saúde (inclusive pelo SUS). Remédios nunca devem ser ajustados por conta própria.

Você não escolheu ter um cérebro mais sensível, e isso não diz nada sobre sua força ou seu cuidado. Entender o mecanismo é um primeiro passo para tratar a enxaqueca com mais gentileza e mais informação.

Perguntas frequentes

O que causa a enxaqueca, afinal?

A enxaqueca é causada por uma predisposição genética que deixa o sistema nervoso mais sensível, com alterações em neurotransmissores e ativação do nervo trigêmeo durante a crise. Os gatilhos, como estresse e sono ruim, podem disparar uma crise, mas não são a causa da doença, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia.

O que é o CGRP e por que se fala tanto nele?

O CGRP é uma molécula produzida pelo próprio sistema nervoso que participa da transmissão da dor e da inflamação durante a enxaqueca. Ele ganhou destaque porque novos remédios preventivos, os anticorpos anti-CGRP, atuam bloqueando essa substância ou seu receptor. Quem pode avaliar se esse tipo de tratamento faz sentido para você é o seu médico.

Enxaqueca é um problema psicológico ou emocional?

Não. A enxaqueca é uma doença neurológica com base genética, e não um problema "da cabeça" no sentido emocional. O estresse pode ser um gatilho, mas ele não explica a doença. Para entender melhor essa relação, leia Estresse e enxaqueca: como quebrar o ciclo vicioso.

Se ninguém da minha família tem enxaqueca, posso ter mesmo assim?

Sim. Como a herança é poligênica, combinando muitos genes de pequeno efeito, a doença pode aparecer mesmo sem casos conhecidos na família. Às vezes, parentes tiveram crises que nunca foram diagnosticadas como enxaqueca. Um médico pode avaliar o seu caso.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

Artigos relacionados

Todos os artigos “O essencial”

Baixe o Mellow

Gratuito para baixar. Registre sua primeira crise em poucos segundos.

4,8 em 62 avaliações
Baixar na App StoreDisponível no Google Play