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Mulher serena de olhos fechados ao lado de um escudo com cérebro e cápsulas de remédio
Tratamentos

Anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado

Por Laurine Nicoletti12 min

Você tem crises de enxaqueca várias vezes por mês, já tentou um ou outro remédio preventivo e ouviu falar de uma "injeção nova" feita só para enxaqueca. Talvez seu médico tenha mencionado o nome, ou você viu uma reportagem sobre os remédios anti-CGRP para enxaqueca e sobre um comprimido que acabou de ser aprovado no Brasil.

Se você pesquisou por anti-CGRP enxaqueca, a resposta curta é esta: são medicamentos que bloqueiam uma molécula ligada à dor da enxaqueca, o CGRP, para tentar reduzir o número de crises. Neste texto, explico como eles funcionam, o que os estudos mostram, para quem costumam ser considerados e como fica o acesso no Brasil. É uma explicação para você chegar mais preparada à consulta, não uma indicação de tratamento. Quem decide se faz sentido para você é seu médico.

Esse assunto faz parte do pilar Tratamentos da enxaqueca, onde reunimos os tratamentos e as formas de lidar com as crises.

Em resumo

  • Os anti-CGRP são medicamentos preventivos que bloqueiam o CGRP, uma molécula ligada à dor da enxaqueca, para tentar reduzir o número de crises ao longo dos meses.
  • Em um estudo em enxaqueca episódica resumido em documento técnico da ANS, o erenumabe reduziu os dias de enxaqueca por mês em 3,2 a 3,7 dias, contra 1,8 dia no placebo.
  • Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, a maioria das pessoas não tem efeitos colaterais significativos além de dor no local da injeção, mas quem avalia riscos e indicação é o médico.
  • No Brasil, o acesso depende de disponibilidade, preço, plano de saúde e, no SUS, da avaliação da Conitec, e os gepantes aprovados pela Anvisa em 2026 ainda não têm chegada confirmada às farmácias.

Anti-CGRP enxaqueca: o que é o CGRP e como esses remédios agem?

CGRP é a sigla em inglês de peptídeo relacionado ao gene da calcitonina. É uma substância que o corpo produz naturalmente e que participa da transmissão da dor. Em uma revisão em português sobre o tema, os autores descrevem o CGRP como um mediador cujos níveis ficam elevados durante a crise e diminuem depois que ela termina ou com o uso de medicamentos específicos.

A Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe) explica a ideia dos anticorpos anti-CGRP de forma simples: eles buscam "sequestrar" o CGRP da circulação, diminuindo a quantidade dessa substância e, com isso, o desencadeamento das crises. Alguns bloqueiam o próprio CGRP, e outros bloqueiam o receptor, a "fechadura" onde ele se encaixa.

Um ponto importante: é um tratamento preventivo. Ele não serve para cortar uma crise que já começou. A proposta é diminuir a frequência das crises ao longo dos meses.

Quais são os anticorpos anti-CGRP no Brasil?

Os anticorpos monoclonais são produzidos em laboratório para agir em um alvo específico. Segundo a SBCe, os mais conhecidos são o erenumabe, o fremanezumabe e o galcanezumabe, aplicados em injeção subcutânea uma vez por mês, além do eptinezumabe, que é aplicado na veia.

No Brasil, a Anvisa aprovou o primeiro deles, o erenumabe (Pasurta), em março de 2019, como o primeiro medicamento específico para o tratamento preventivo da enxaqueca. Em uma análise da produção científica publicada na revista Headache Medicine, esses anticorpos aparecem descritos com intervalos mensais ou trimestrais. O esquema depende de cada medicamento.

Duas observações práticas:

  • A disponibilidade muda. Uma reportagem da CNN Brasil informou que o galcanezumabe (Emgality) deixaria de ser vendido no país, por decisão de "atualização de portfólio" da empresa que o comercializava. Pergunte ao seu médico o que está disponível hoje.
  • Eptinezumabe: não encontrei uma confirmação clara do registro dele na Anvisa nas fontes que consultei. Se isso for do seu interesse, converse com seu médico ou consulte o site da Anvisa.

Eles funcionam de verdade?

Os estudos mostram que sim, em média, mas com uma ressalva: não funcionam igual para todo mundo. Um documento técnico sobre o erenumabe, publicado pela ANS, resume um dos estudos em enxaqueca episódica. Entre o quarto e o sexto mês, os dias de enxaqueca por mês diminuíram 3,2 dias com a dose menor, 3,7 com a dose maior e 1,8 dia no grupo placebo.

Repare que o placebo também reduziu os dias de crise. Esse efeito é comum em estudos de enxaqueca. A diferença real do remédio é a que sobra depois de descontar o placebo, e ela costuma ser de poucos dias por mês, não de "zero crise".

Segundo a SBCe, esses medicamentos servem para prevenir tanto a enxaqueca episódica quanto a crônica, com ou sem aura, e independentemente do uso excessivo de analgésicos. A mesma página destaca o entusiasmo dos especialistas, porque pela primeira vez um tratamento foi desenvolvido especificamente para a enxaqueca. Isso não é promessa de cura, e a enxaqueca continua sendo uma condição que se controla, não que desaparece.

E os efeitos colaterais?

De acordo com a SBCe, para a grande maioria das pessoas não há efeitos colaterais significativos além de alguma dor no local da injeção. A sociedade aponta isso como uma vantagem em relação a preventivos tradicionais, que costumam causar mais incômodos.

Isso não significa ausência de risco. Cada medicamento tem uma bula com efeitos possíveis, e a segurança em gravidez e amamentação é um assunto para tratar com o médico. Se você pensa em engravidar, avise quem acompanha sua enxaqueca antes de qualquer decisão.

Para quem os anti-CGRP costumam ser considerados?

Não existe uma regra única, e quem define é o médico. Em geral, o raciocínio parte de pessoas com crises frequentes ou que atrapalham muito a vida. Os preventivos mais antigos, como topiramato, ácido valproico, amitriptilina, propranolol e toxina botulínica, continuam muito úteis. Os anti-CGRP entram como mais uma ferramenta, não como substitutos automáticos.

Na prática, o médico costuma avaliar:

  • quantos dias por mês você tem enxaqueca e quanto ela interfere no trabalho, nos estudos e na vida social;
  • o que você já tentou antes e como foi a resposta ou a tolerância;
  • outras condições de saúde e outros remédios que você usa;
  • planos de gravidez e amamentação.

Se você tem enxaqueca crônica (muitos dias de dor por mês), vale conhecer também o Botox para enxaqueca crônica e o protocolo PREEMPT, outra opção preventiva que o médico pode comparar com os anti-CGRP.

Como funciona o acesso: SUS, plano de saúde e preço

Esta é a parte mais delicada. Em 2020, um documento da Fiocruz em Brasília apontava que o erenumabe ainda não havia sido avaliado pela Conitec, a comissão que recomenda ou não a incorporação de tecnologias ao SUS. Para um medicamento chegar à rede pública, a Anvisa precisa registrá-lo e a Conitec precisa avaliar e recomendar. Vale conferir o andamento atual com seu médico ou nos canais oficiais do Ministério da Saúde.

Sobre o preço, a reportagem da CNN Brasil citada acima informa que o Emgality custava entre R$ 1.200 e R$ 1.300 por aplicação mensal, e que o alto custo contrariava as expectativas de incorporação ao SUS e aos planos de saúde. Os valores mudam com o tempo e com o medicamento, então trate isso como uma referência.

Nos planos de saúde, o cenário também é complexo. Um escritório de advocacia explica que o erenumabe não consta no rol da ANS e que operadoras costumam negar a cobertura por esse motivo, embora a Lei 14.454/2022 tenha tornado o rol exemplificativo. Isso é informação geral, não orientação jurídica. Se o seu médico indicar o tratamento e a operadora negar, peça a negativa por escrito e procure orientação específica.

E os gepantes, a versão em comprimido?

Os gepantes também atuam na via do CGRP, mas são moléculas pequenas, em comprimido, e não anticorpos injetáveis. Eles bloqueiam o receptor do CGRP.

Em 2026, a Anvisa aprovou dois deles:

Para a crise, a SBCe descreve um estudo de fase III do rimegepanto em que 19,6% das pessoas ficaram sem dor após 2 horas, contra 12% no placebo. Ou seja, ajuda uma parte das pessoas, e não todas.

Aprovação não é o mesmo que acesso. Preço, disponibilidade e eventual cobertura ainda são perguntas em aberto, e quem diz se algum desses remédios cabe no seu caso é seu médico.

Anti-CGRP e outros tratamentos: não é tudo ou nada

Falar em tratamento de fundo não significa abandonar o resto. Dormir em horários mais regulares, notar o que costuma disparar suas crises e tratar a dor cedo continuam fazendo parte do cuidado. Para entender melhor os gatilhos, vale ler o pilar Gatilhos da enxaqueca.

Também não existe um único caminho. Alguns médicos preferem começar por preventivos orais, outros avaliam anticorpos mais cedo em casos de grande impacto. A SBCe publicou consensos para o tratamento preventivo da enxaqueca, que tratam de classes como anticonvulsivantes, antidepressivos tricíclicos, anticorpos anti-CGRP e betabloqueadores. A conversa com o médico é o que define a sequência para você.

Como saber se o tratamento está funcionando?

Os efeitos de um preventivo não aparecem de um dia para o outro, e a memória engana: depois de três meses fica difícil lembrar quantas crises você teve. Por isso, o diário de crises é a melhor ferramenta antes, durante e depois de começar qualquer tratamento.

Algumas informações que ajudam seu médico a avaliar:

  • quantos dias de enxaqueca você teve por mês, antes e depois;
  • a intensidade e a duração das crises;
  • quantas vezes precisou de remédio para a crise;
  • possíveis gatilhos nesse período, como sono ruim, estresse, ciclo menstrual ou mudança do tempo;
  • qualquer efeito incômodo depois da aplicação.

Anotar isso evita decisões baseadas na impressão do momento, tanto a de "não adiantou nada" quanto a de "melhorou muito".

O que levar daqui para a consulta

  • Anti-CGRP são medicamentos preventivos, que bloqueiam uma molécula envolvida na dor da enxaqueca. Não servem para cortar uma crise já em andamento (exceto o rimegepanto, que tem indicação de uso na crise).
  • Os estudos mostram redução média de poucos dias de enxaqueca por mês, e a resposta varia de pessoa para pessoa.
  • A SBCe aponta boa tolerância para a maioria, mas quem avalia riscos e indicação é o médico.
  • No Brasil, o acesso depende de disponibilidade, preço, plano de saúde e, no SUS, da avaliação da Conitec. Confirme a situação atual.
  • Dois gepantes foram aprovados pela Anvisa em 2026, mas isso ainda não significa que estejam nas farmácias.

Perguntas frequentes

Os anti-CGRP servem para cortar uma crise de enxaqueca?

Os anticorpos anti-CGRP são tratamentos preventivos, feitos para diminuir a frequência das crises ao longo dos meses, e não para cortar uma crise já iniciada. A exceção entre os remédios que atuam na via do CGRP é o rimegepanto, um gepante em comprimido aprovado pela Anvisa em 2026 também para o tratamento da crise.

Os anti-CGRP funcionam para todo mundo?

Não. Em um estudo em enxaqueca episódica resumido em documento técnico da ANS, os dias de enxaqueca por mês diminuíram 3,2 dias com a dose menor do erenumabe e 3,7 com a dose maior, contra 1,8 dia no placebo. A diferença costuma ser de poucos dias por mês, e a resposta varia de pessoa para pessoa.

Os anti-CGRP têm efeitos colaterais?

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, para a maioria das pessoas não há efeitos colaterais significativos além de alguma dor no local da injeção. Isso não significa ausência de risco: cada medicamento tem sua bula, e a segurança em gravidez e amamentação deve ser conversada com o médico.

Os anti-CGRP estão disponíveis no SUS?

Em 2020, um documento da Fiocruz em Brasília apontava que o erenumabe ainda não havia sido avaliado pela Conitec, comissão que recomenda a incorporação de tecnologias ao SUS. Para chegar à rede pública, o medicamento precisa de registro na Anvisa e de recomendação da Conitec, então vale confirmar a situação atual com o médico ou nos canais do Ministério da Saúde.

O que são os gepantes?

Os gepantes também atuam na via do CGRP, mas são moléculas pequenas em comprimido, e não anticorpos injetáveis. Em 2026, a Anvisa aprovou o rimegepanto e o atogepanto, mas preço, disponibilidade e cobertura ainda são perguntas em aberto.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

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