
Anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado
Você tem crises de enxaqueca várias vezes por mês, já tentou um ou outro remédio preventivo e ouviu falar de uma "injeção nova" feita só para enxaqueca. Talvez seu médico tenha mencionado o nome, ou você viu uma reportagem sobre os remédios anti-CGRP para enxaqueca e sobre um comprimido que acabou de ser aprovado no Brasil.
Se você pesquisou por anti-CGRP enxaqueca, a resposta curta é esta: são medicamentos que bloqueiam uma molécula ligada à dor da enxaqueca, o CGRP, para tentar reduzir o número de crises. Neste texto, explico como eles funcionam, o que os estudos mostram, para quem costumam ser considerados e como fica o acesso no Brasil. É uma explicação para você chegar mais preparada à consulta, não uma indicação de tratamento. Quem decide se faz sentido para você é seu médico.
Esse assunto faz parte do pilar Tratamentos da enxaqueca, onde reunimos os tratamentos e as formas de lidar com as crises.
Em resumo
- Os anti-CGRP são medicamentos preventivos que bloqueiam o CGRP, uma molécula ligada à dor da enxaqueca, para tentar reduzir o número de crises ao longo dos meses.
- Em um estudo em enxaqueca episódica resumido em documento técnico da ANS, o erenumabe reduziu os dias de enxaqueca por mês em 3,2 a 3,7 dias, contra 1,8 dia no placebo.
- Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, a maioria das pessoas não tem efeitos colaterais significativos além de dor no local da injeção, mas quem avalia riscos e indicação é o médico.
- No Brasil, o acesso depende de disponibilidade, preço, plano de saúde e, no SUS, da avaliação da Conitec, e os gepantes aprovados pela Anvisa em 2026 ainda não têm chegada confirmada às farmácias.
Anti-CGRP enxaqueca: o que é o CGRP e como esses remédios agem?
CGRP é a sigla em inglês de peptídeo relacionado ao gene da calcitonina. É uma substância que o corpo produz naturalmente e que participa da transmissão da dor. Em uma revisão em português sobre o tema, os autores descrevem o CGRP como um mediador cujos níveis ficam elevados durante a crise e diminuem depois que ela termina ou com o uso de medicamentos específicos.
A Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBCe) explica a ideia dos anticorpos anti-CGRP de forma simples: eles buscam "sequestrar" o CGRP da circulação, diminuindo a quantidade dessa substância e, com isso, o desencadeamento das crises. Alguns bloqueiam o próprio CGRP, e outros bloqueiam o receptor, a "fechadura" onde ele se encaixa.
Um ponto importante: é um tratamento preventivo. Ele não serve para cortar uma crise que já começou. A proposta é diminuir a frequência das crises ao longo dos meses.
Quais são os anticorpos anti-CGRP no Brasil?
Os anticorpos monoclonais são produzidos em laboratório para agir em um alvo específico. Segundo a SBCe, os mais conhecidos são o erenumabe, o fremanezumabe e o galcanezumabe, aplicados em injeção subcutânea uma vez por mês, além do eptinezumabe, que é aplicado na veia.
No Brasil, a Anvisa aprovou o primeiro deles, o erenumabe (Pasurta), em março de 2019, como o primeiro medicamento específico para o tratamento preventivo da enxaqueca. Em uma análise da produção científica publicada na revista Headache Medicine, esses anticorpos aparecem descritos com intervalos mensais ou trimestrais. O esquema depende de cada medicamento.
Duas observações práticas:
- A disponibilidade muda. Uma reportagem da CNN Brasil informou que o galcanezumabe (Emgality) deixaria de ser vendido no país, por decisão de "atualização de portfólio" da empresa que o comercializava. Pergunte ao seu médico o que está disponível hoje.
- Eptinezumabe: não encontrei uma confirmação clara do registro dele na Anvisa nas fontes que consultei. Se isso for do seu interesse, converse com seu médico ou consulte o site da Anvisa.
Eles funcionam de verdade?
Os estudos mostram que sim, em média, mas com uma ressalva: não funcionam igual para todo mundo. Um documento técnico sobre o erenumabe, publicado pela ANS, resume um dos estudos em enxaqueca episódica. Entre o quarto e o sexto mês, os dias de enxaqueca por mês diminuíram 3,2 dias com a dose menor, 3,7 com a dose maior e 1,8 dia no grupo placebo.
Repare que o placebo também reduziu os dias de crise. Esse efeito é comum em estudos de enxaqueca. A diferença real do remédio é a que sobra depois de descontar o placebo, e ela costuma ser de poucos dias por mês, não de "zero crise".
Segundo a SBCe, esses medicamentos servem para prevenir tanto a enxaqueca episódica quanto a crônica, com ou sem aura, e independentemente do uso excessivo de analgésicos. A mesma página destaca o entusiasmo dos especialistas, porque pela primeira vez um tratamento foi desenvolvido especificamente para a enxaqueca. Isso não é promessa de cura, e a enxaqueca continua sendo uma condição que se controla, não que desaparece.
E os efeitos colaterais?
De acordo com a SBCe, para a grande maioria das pessoas não há efeitos colaterais significativos além de alguma dor no local da injeção. A sociedade aponta isso como uma vantagem em relação a preventivos tradicionais, que costumam causar mais incômodos.
Isso não significa ausência de risco. Cada medicamento tem uma bula com efeitos possíveis, e a segurança em gravidez e amamentação é um assunto para tratar com o médico. Se você pensa em engravidar, avise quem acompanha sua enxaqueca antes de qualquer decisão.
Para quem os anti-CGRP costumam ser considerados?
Não existe uma regra única, e quem define é o médico. Em geral, o raciocínio parte de pessoas com crises frequentes ou que atrapalham muito a vida. Os preventivos mais antigos, como topiramato, ácido valproico, amitriptilina, propranolol e toxina botulínica, continuam muito úteis. Os anti-CGRP entram como mais uma ferramenta, não como substitutos automáticos.
Na prática, o médico costuma avaliar:
- quantos dias por mês você tem enxaqueca e quanto ela interfere no trabalho, nos estudos e na vida social;
- o que você já tentou antes e como foi a resposta ou a tolerância;
- outras condições de saúde e outros remédios que você usa;
- planos de gravidez e amamentação.
Se você tem enxaqueca crônica (muitos dias de dor por mês), vale conhecer também o Botox para enxaqueca crônica e o protocolo PREEMPT, outra opção preventiva que o médico pode comparar com os anti-CGRP.
Como funciona o acesso: SUS, plano de saúde e preço
Esta é a parte mais delicada. Em 2020, um documento da Fiocruz em Brasília apontava que o erenumabe ainda não havia sido avaliado pela Conitec, a comissão que recomenda ou não a incorporação de tecnologias ao SUS. Para um medicamento chegar à rede pública, a Anvisa precisa registrá-lo e a Conitec precisa avaliar e recomendar. Vale conferir o andamento atual com seu médico ou nos canais oficiais do Ministério da Saúde.
Sobre o preço, a reportagem da CNN Brasil citada acima informa que o Emgality custava entre R$ 1.200 e R$ 1.300 por aplicação mensal, e que o alto custo contrariava as expectativas de incorporação ao SUS e aos planos de saúde. Os valores mudam com o tempo e com o medicamento, então trate isso como uma referência.
Nos planos de saúde, o cenário também é complexo. Um escritório de advocacia explica que o erenumabe não consta no rol da ANS e que operadoras costumam negar a cobertura por esse motivo, embora a Lei 14.454/2022 tenha tornado o rol exemplificativo. Isso é informação geral, não orientação jurídica. Se o seu médico indicar o tratamento e a operadora negar, peça a negativa por escrito e procure orientação específica.
E os gepantes, a versão em comprimido?
Os gepantes também atuam na via do CGRP, mas são moléculas pequenas, em comprimido, e não anticorpos injetáveis. Eles bloqueiam o receptor do CGRP.
Em 2026, a Anvisa aprovou dois deles:
- Rimegepanto (Nurtec ODT): aprovado em 25 de maio de 2026, em comprimido orodispersível, que se dissolve na boca. A Anvisa informou a indicação para o tratamento da crise, com ou sem aura, e para a prevenção da enxaqueca episódica em adultos com pelo menos quatro crises por mês.
- Atogepanto (Aquipta): aprovado em setembro de 2026 para a prevenção da enxaqueca em adultos com pelo menos quatro crises por mês. Segundo a CNN Brasil, apesar da aprovação, ainda não há previsão de chegada às farmácias brasileiras.
Para a crise, a SBCe descreve um estudo de fase III do rimegepanto em que 19,6% das pessoas ficaram sem dor após 2 horas, contra 12% no placebo. Ou seja, ajuda uma parte das pessoas, e não todas.
Aprovação não é o mesmo que acesso. Preço, disponibilidade e eventual cobertura ainda são perguntas em aberto, e quem diz se algum desses remédios cabe no seu caso é seu médico.
Anti-CGRP e outros tratamentos: não é tudo ou nada
Falar em tratamento de fundo não significa abandonar o resto. Dormir em horários mais regulares, notar o que costuma disparar suas crises e tratar a dor cedo continuam fazendo parte do cuidado. Para entender melhor os gatilhos, vale ler o pilar Gatilhos da enxaqueca.
Também não existe um único caminho. Alguns médicos preferem começar por preventivos orais, outros avaliam anticorpos mais cedo em casos de grande impacto. A SBCe publicou consensos para o tratamento preventivo da enxaqueca, que tratam de classes como anticonvulsivantes, antidepressivos tricíclicos, anticorpos anti-CGRP e betabloqueadores. A conversa com o médico é o que define a sequência para você.
Como saber se o tratamento está funcionando?
Os efeitos de um preventivo não aparecem de um dia para o outro, e a memória engana: depois de três meses fica difícil lembrar quantas crises você teve. Por isso, o diário de crises é a melhor ferramenta antes, durante e depois de começar qualquer tratamento.
Algumas informações que ajudam seu médico a avaliar:
- quantos dias de enxaqueca você teve por mês, antes e depois;
- a intensidade e a duração das crises;
- quantas vezes precisou de remédio para a crise;
- possíveis gatilhos nesse período, como sono ruim, estresse, ciclo menstrual ou mudança do tempo;
- qualquer efeito incômodo depois da aplicação.
Anotar isso evita decisões baseadas na impressão do momento, tanto a de "não adiantou nada" quanto a de "melhorou muito".
O que levar daqui para a consulta
- Anti-CGRP são medicamentos preventivos, que bloqueiam uma molécula envolvida na dor da enxaqueca. Não servem para cortar uma crise já em andamento (exceto o rimegepanto, que tem indicação de uso na crise).
- Os estudos mostram redução média de poucos dias de enxaqueca por mês, e a resposta varia de pessoa para pessoa.
- A SBCe aponta boa tolerância para a maioria, mas quem avalia riscos e indicação é o médico.
- No Brasil, o acesso depende de disponibilidade, preço, plano de saúde e, no SUS, da avaliação da Conitec. Confirme a situação atual.
- Dois gepantes foram aprovados pela Anvisa em 2026, mas isso ainda não significa que estejam nas farmácias.
Perguntas frequentes
Os anti-CGRP servem para cortar uma crise de enxaqueca?
Os anticorpos anti-CGRP são tratamentos preventivos, feitos para diminuir a frequência das crises ao longo dos meses, e não para cortar uma crise já iniciada. A exceção entre os remédios que atuam na via do CGRP é o rimegepanto, um gepante em comprimido aprovado pela Anvisa em 2026 também para o tratamento da crise.
Os anti-CGRP funcionam para todo mundo?
Não. Em um estudo em enxaqueca episódica resumido em documento técnico da ANS, os dias de enxaqueca por mês diminuíram 3,2 dias com a dose menor do erenumabe e 3,7 com a dose maior, contra 1,8 dia no placebo. A diferença costuma ser de poucos dias por mês, e a resposta varia de pessoa para pessoa.
Os anti-CGRP têm efeitos colaterais?
Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, para a maioria das pessoas não há efeitos colaterais significativos além de alguma dor no local da injeção. Isso não significa ausência de risco: cada medicamento tem sua bula, e a segurança em gravidez e amamentação deve ser conversada com o médico.
Os anti-CGRP estão disponíveis no SUS?
Em 2020, um documento da Fiocruz em Brasília apontava que o erenumabe ainda não havia sido avaliado pela Conitec, comissão que recomenda a incorporação de tecnologias ao SUS. Para chegar à rede pública, o medicamento precisa de registro na Anvisa e de recomendação da Conitec, então vale confirmar a situação atual com o médico ou nos canais do Ministério da Saúde.
O que são os gepantes?
Os gepantes também atuam na via do CGRP, mas são moléculas pequenas em comprimido, e não anticorpos injetáveis. Em 2026, a Anvisa aprovou o rimegepanto e o atogepanto, mas preço, disponibilidade e cobertura ainda são perguntas em aberto.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Cefaléia
- aprovada nova medicação contra enxaqueca
- Rimegepant - Mais um Tratamento Agudo para Migrânea ...
- Revisão Anticorpos monoclonais para o tratamento de enxaqueca (migrânea)
- Análise cienciométrica dos anticorpos monoclonais utilizados no tratamento da enxaqueca disponíveis no Brasil
- ATUALIZAÇÃO DO ROL DE PROCEDIMENTOS E EVENTOS EM SAÚDE CICLO 2019/2020
- Palloma Sobrinho de Souza Dezembro / 2020 Instituto Nacional de Cardiologia
- Medicamento contra enxaqueca crônica deixará de ser vendido no Brasil
- Cobertura do Erenumabe (Pasurta®) pelo plano de saúde - Elton Fernandes
- Anvisa autoriza novo medicamento para enxaqueca
- Anvisa aprova medicamento para prevenção de enxaqueca
- Anvisa aprova novo medicamento para prevenção de enxaqueca; saiba qual
- Brazil - Consensus of the Brazilian Headache Society (SBCe) for the Prophylactic Treatment of Episodic Migraine: part I Consensus of the Brazilian Headache Society (SBCe) for the Prophylactic Treatment of Episodic Migraine: part I
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos
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