← Voltar ao blog
Médica de jaleco branco toca a têmpora de uma paciente sorridente, de olhos fechados, reclinada em uma poltrona azul
Tratamentos

Botox para enxaqueca crônica: o protocolo PREEMPT explicado

Por Laurine Nicoletti12 min

Você tem dor de cabeça em mais da metade dos dias do mês e já tentou um ou dois remédios preventivos sem muito resultado. Alguém falou em botox para enxaqueca crônica e você ficou com dúvidas: funciona mesmo? Dói? É só estética? Quem pode fazer?

O botox para enxaqueca crônica é um tratamento preventivo, aplicado por médico, que segue um roteiro padronizado chamado protocolo PREEMPT. Neste artigo, explicamos como ele funciona, para quem é indicado, o que os estudos mostram (e o que não mostram) e como está o acesso no Brasil. Ele faz parte do nosso guia sobre como gerenciar a enxaqueca.

Em resumo

  • O botox para enxaqueca crônica é um tratamento preventivo, aplicado por médico, indicado para adultos com dor de cabeça em 15 dias ou mais por mês, e não trata a crise já em andamento.
  • O protocolo PREEMPT prevê injeções em 31 pontos fixos da cabeça, do pescoço e dos ombros, repetidas com intervalo mínimo de 3 meses.
  • Segundo o relatório preliminar da Conitec, a toxina botulínica reduz em média cerca de 2 dias de enxaqueca por mês em comparação ao placebo, e a resposta varia de pessoa para pessoa.
  • No Brasil, o acesso pelo SUS ainda estava em avaliação pela Conitec, e a cobertura nos planos de saúde depende do Rol da ANS. Só o neurologista pode dizer se o tratamento faz sentido para cada pessoa.

O que é enxaqueca crônica e por que ela é tratada de forma diferente?

Falamos em enxaqueca crônica quando a dor de cabeça aparece em 15 dias ou mais por mês, durante pelo menos 3 meses, segundo o Guia do Episódio de Cuidado Enxaqueca do Hospital Israelita Albert Einstein. Em boa parte desses dias, a dor tem as características de uma crise de enxaqueca, como pulsação, náusea e sensibilidade à luz. Os critérios completos estão no consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia sobre tratamento profilático.

Isso é diferente da enxaqueca episódica, em que as crises são mais espaçadas. Na forma crônica, o objetivo principal é reduzir a frequência das crises, e não só tratar cada uma quando ela chega. Por isso entram os tratamentos preventivos, que você usa mesmo nos dias sem dor.

Se você ainda está tentando entender a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça comum, vale passar pela nossa página Sintomas da enxaqueca.

Como o botox age na enxaqueca?

A toxina botulínica tipo A é a mesma substância usada em procedimentos estéticos, mas aqui a ideia é outra: não é mexer na expressão do rosto, e sim atuar na transmissão da dor. Segundo um documento técnico da ANS, a toxina onabotulínica A interfere na liberação de substâncias ligadas à origem da dor, como o CGRP, o glutamato e a substância P.

Na prática, acredita-se que ela reduza a ativação das fibras nervosas que levam o sinal de dor até o sistema nervoso central. O mecanismo exato ainda é estudado, e o efeito não é "relaxar o músculo" até a dor sumir.

Também é bom saber que o botox não trata a crise já instalada. Ele funciona como prevenção, com aplicações repetidas ao longo do tempo.

O que é o protocolo PREEMPT?

PREEMPT é o nome dos dois grandes estudos clínicos (PREEMPT 1 e 2) que testaram a toxina botulínica contra placebo em pessoas com enxaqueca crônica. O mesmo nome passou a designar o roteiro de aplicação usado nesses estudos.

Segundo o Guia do Einstein, o protocolo prevê injeções em 31 pontos de músculos da cabeça e do pescoço: testa, têmporas, parte de trás da cabeça, região alta do pescoço e ombros, dos dois lados. A Sociedade Brasileira de Cefaleia lembra que, para chegar aos resultados do PREEMPT, a aplicação deve usar de 31 a 39 pontos.

Os pontos fixos são o coração do protocolo. Uma aplicação feita em poucos pontos, sem seguir o roteiro, não reproduz o que foi testado nos estudos. As quantidades e a distribuição exatas são definidas pelo médico.

Para quem o botox é indicado?

A indicação é para adultos com enxaqueca crônica diagnosticada. A SBCe destaca que o diagnóstico correto pode levar meses e deve seguir os critérios da própria sociedade e da Sociedade Internacional de Cefaleia. Ela alerta que, sem esse cuidado, a pessoa pode não responder ao tratamento, e o botox acaba "desacreditado" sem merecer (SBCe).

O mesmo texto informa que a Anvisa aprovou o Botox para a prevenção da enxaqueca crônica em adultos. O Guia do Einstein também orienta que, depois da falha de dois medicamentos preventivos, a pessoa seja encaminhada a um neurologista para avaliar outras opções, como os anticorpos anti-CGRP ou o botox.

Isso não quer dizer que você precise de botox. Só o seu médico pode avaliar isso, olhando seu histórico, os remédios que você já usou e como a doença impacta sua vida. Se você tem crises esporádicas, esse não costuma ser o caminho.

Qual é a eficácia real do botox para enxaqueca crônica?

Os resultados são bons para muita gente, mas não são mágicos, e vale falar disso com honestidade.

O relatório preliminar da Conitec, a comissão que avalia tecnologias para o SUS, concluiu que a toxina botulínica provavelmente reduz os dias com dor de cabeça e os dias com enxaqueca por mês em comparação ao placebo. A diferença média foi de 1,86 dia a menos de cefaleia e 1,96 dia a menos de enxaqueca por mês, com certeza moderada das evidências.

Em média, são cerca de dois dias a menos por mês. Para algumas pessoas a melhora é bem maior, para outras é pequena ou inexistente. Os estudos PREEMPT também indicaram redução da intensidade da dor, das horas de dor e do uso de triptanos e analgésicos, com ganho de qualidade de vida, segundo o documento da ANS.

Uma revisão sistemática da UFRGS, com 21 artigos, também apontou que os ensaios controlados indicam eficácia da toxina botulínica tipo A na enxaqueca crônica.

Quanto tempo leva para fazer efeito?

Segundo o Guia do Einstein, os resultados podem aparecer já na primeira semana e durar de 3 a 6 meses. As aplicações são repetidas com intervalo mínimo de 3 meses, e repetir pode levar a resultados melhores. Por isso, muitos médicos pedem um período de avaliação, com algumas sessões, antes de decidir se vale continuar.

Como é uma sessão, passo a passo?

Cada serviço tem suas rotinas, então confirme os detalhes com o seu médico. De forma geral, a sessão acontece em consultório ou clínica, com você sentada, e o médico aplica pequenas injeções com agulha bem fina nos pontos do protocolo.

  • Antes: o médico revisa seu histórico, seu diário de crises e os remédios que você já usou.
  • Durante: as injeções são feitas em sequência, na testa, nas têmporas, atrás da cabeça, no pescoço e nos ombros.
  • Depois: o médico explica os cuidados e os sinais a observar nos dias seguintes.
  • Retorno: nova aplicação com intervalo mínimo de 3 meses, como orienta o Guia do Einstein.

Dica prática: se você usa celular para anotar crises, leve o registro dos últimos meses para a consulta. Isso ajuda o médico a comparar o "antes" e o "depois" de cada aplicação.

Quais efeitos colaterais o botox pode causar?

A revisão sistemática da UFRGS descreve um bom perfil de segurança, com poucos efeitos adversos, em geral leves ou moderados. Isso não significa ausência de riscos.

A bula do Botox disponibilizada pela SBCe lista os efeitos possíveis. Entre os que mais preocupam quem faz o tratamento na região da cabeça e do pescoço estão:

  • dor ou desconforto no local da injeção;
  • sensação de peso ou desconforto no pescoço;
  • fraqueza temporária de músculos próximos aos pontos de aplicação;
  • queda da pálpebra (ptose), que costuma ser passageira.

Esses efeitos tendem a melhorar com o tempo, já que a toxina perde o efeito gradualmente. Mesmo assim, avise o médico sobre qualquer sintoma novo e procure atendimento rápido se tiver dificuldade para engolir, respirar ou falar, ou fraqueza que se espalhe pelo corpo. Se você está grávida, amamentando ou tem alguma doença neuromuscular, converse sobre isso antes.

Como está o acesso ao botox para enxaqueca no Brasil?

Este é um ponto delicado, e a situação está em movimento. Em julho de 2026, a Conitec decidiu abrir consulta pública (CP nº 70/2026) sobre a toxina botulínica A para a prevenção da enxaqueca crônica em adultos que não responderam, não toleraram ou têm contraindicação a pelo menos três medicamentos preventivos. A consulta ocorreu entre 5 e 24 de agosto de 2026.

Esse é um passo de avaliação, não uma garantia de oferta no SUS. Na data em que escrevemos, não encontramos a decisão final publicada. Para saber como está, pergunte ao seu neurologista.

Nos planos de saúde, a cobertura depende do Rol da ANS e das diretrizes de utilização. Em 2017, o grupo técnico da ANS recomendou não incluir a indicação de migrânea crônica, por falta de evidência considerada robusta na época (ata do COSAÚDE). Como as regras mudam, o melhor caminho é confirmar com a operadora e pedir ao médico um relatório com o histórico de tratamentos.

Botox ou anti-CGRP: como escolher?

Os anticorpos monoclonais anti-CGRP são outra opção de prevenção. Eles bloqueiam o CGRP, uma substância envolvida na enxaqueca, e alguns já estão disponíveis no Brasil, com aprovação da Anvisa para adultos.

Não existe uma resposta única, e a escolha é sempre do médico, junto com você. Alguns pontos costumam entrar na conversa:

  • Diagnóstico: o botox tem indicação específica para a forma crônica. Os anti-CGRP também são usados na episódica.
  • Preferência: aplicação feita no consultório a cada 3 meses, ou injeção mais frequente em casa.
  • Outras condições de saúde e tratamentos já tentados.
  • Acesso e custo: muitas vezes pesam tanto quanto a eficácia.

Em alguns casos, o médico pode pensar em combinações ou trocas. Isso depende totalmente de cada caso, e não é algo para decidir sozinha.

Por que registrar suas crises faz diferença com o botox?

O botox demora a "mostrar serviço" e pede paciência. Sem registro, a memória engana: depois de três meses, é difícil lembrar se você teve 18 ou 12 dias de dor, e se as crises estavam mais fortes ou mais curtas.

Anotar o dia, a intensidade, a duração e o que pode ter influenciado (sono ruim, estresse, ciclo menstrual, tempo de tela) ajuda a ver tendências. Isso dá ao médico dados concretos para decidir se mantém, ajusta ou muda o tratamento. Se quiser entender melhor o que pode estar por trás das suas crises, veja também a página Gatilhos da enxaqueca.

O que lembrar

  • O botox é uma prevenção para enxaqueca crônica (15 dias ou mais de dor por mês), e não trata a crise em andamento.
  • O protocolo PREEMPT segue 31 pontos fixos de injeção, repetidos com intervalo mínimo de 3 meses.
  • Em média, o ganho é de cerca de 2 dias a menos de dor por mês nos estudos. A resposta varia bastante.
  • Os efeitos colaterais costumam ser leves e passageiros, mas devem ser discutidos com o médico.
  • No Brasil, o acesso ainda está em avaliação no SUS e depende de cada plano de saúde.
  • Quem decide se o botox faz sentido para você é o seu neurologista.

Perguntas frequentes

O botox para enxaqueca crônica trata a crise na hora?

Não. Ele funciona como prevenção, com aplicações repetidas ao longo do tempo, e não trata a crise já instalada. Para a dor do momento, converse com seu médico sobre as opções.

Quantos pontos de injeção tem o protocolo PREEMPT?

Segundo o Guia do Episódio de Cuidado Enxaqueca do Hospital Israelita Albert Einstein, o protocolo prevê injeções em 31 pontos de músculos da cabeça e do pescoço. A Sociedade Brasileira de Cefaleia lembra que a aplicação deve usar de 31 a 39 pontos para chegar aos resultados dos estudos.

Quanto tempo o botox leva para fazer efeito na enxaqueca?

Segundo o Guia do Einstein, os resultados podem aparecer já na primeira semana e durar de 3 a 6 meses. As aplicações são repetidas com intervalo mínimo de 3 meses.

Quais são os possíveis efeitos colaterais do botox para enxaqueca?

Uma revisão sistemática da UFRGS descreve um bom perfil de segurança, com efeitos em geral leves ou moderados, como dor no local da injeção, desconforto no pescoço e queda temporária da pálpebra. Quem tiver dificuldade para engolir, respirar ou falar deve procurar atendimento rápido.

O SUS oferece botox para enxaqueca crônica?

A Conitec abriu a consulta pública nº 70/2026 sobre a toxina botulínica A para a prevenção da enxaqueca crônica em adultos, mas isso não garante a oferta no SUS. Para saber a situação atual, o ideal é perguntar ao neurologista.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

Artigos relacionados

Todos os artigos “Tratamentos”

Baixe o Mellow

Gratuito para baixar. Registre sua primeira crise em poucos segundos.

4,8 em 62 avaliações
Baixar na App StoreDisponível no Google Play