
Enxaqueca ocular: o que é, como reconhecer e quando se preocupar
De repente, você começa a ver um pontinho brilhante no meio da tela do celular. Ele cresce, vira uma linha em zigue-zague e parte do que você olha some. Dez ou vinte minutos depois, tudo volta ao normal, e às vezes vem uma dor de cabeça logo em seguida. Muita gente chama isso de enxaqueca ocular.
Se isso já aconteceu com você, o nome mais popular é enxaqueca ocular. Na prática, quando alguém fala em enxaqueca ocular, quase sempre se trata de uma aura visual, um sintoma da enxaqueca com aura. Neste artigo, você vai entender o que é isso, o que acontece no cérebro, quando é só a enxaqueca e quando vale procurar ajuda.
Este texto faz parte do nosso conteúdo sobre como entender a enxaqueca. Ele é informativo e não substitui uma consulta: só um profissional de saúde pode avaliar o seu caso.
Em resumo
- A enxaqueca ocular é o nome popular da aura visual, um sintoma que nasce no cérebro, e não nos olhos.
- Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, a aura costuma durar entre 5 e 60 minutos e some sozinha.
- A aura pode aparecer com ou sem dor de cabeça, e o primeiro episódio deve ser avaliado por um profissional de saúde.
- Sintomas muito repentinos, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou perda de visão em um olho só pedem atendimento de emergência.
O que é a enxaqueca ocular?
"Enxaqueca ocular" (ou "oftálmica") é um nome popular, não um diagnóstico formal. Em geral, ele descreve a aura visual: um conjunto de sintomas que aparece antes ou durante uma crise de enxaqueca, com luzes, manchas ou falhas na visão.
O que muita gente estranha é que o problema não está nos olhos. A aura nasce no cérebro, na região que processa as imagens, e por isso o fenômeno costuma afetar os dois olhos ao mesmo tempo. Os olhos continuam funcionando, o que muda é a forma como o cérebro interpreta o que eles enviam.
Existe ainda a chamada enxaqueca retiniana, que é diferente. Ela afeta apenas um olho e é considerada rara. Se o que você vê só existe quando um dos olhos está aberto, isso merece uma avaliação própria, com um médico.
Como é a aura visual? Os sintomas mais comuns
Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, a aura pode aparecer como pontos pretos (escotomas), pontos brilhantes (cintilações) e imagens em zigue-zague. Elas surgem em uma parte do campo visual e vão crescendo aos poucos.
Quem tem aura costuma descrever coisas como:
- um ponto brilhante que aumenta e se espalha em formato de arco ou "C";
- linhas tremidas, parecidas com ondas de calor sobre o asfalto;
- uma mancha cega, como se uma parte da imagem tivesse sido apagada;
- luzes piscando ou coloridas nos cantos da visão.
A aura também pode ir além da visão. De acordo com a SBCefaleia, o segundo sintoma mais frequente são alterações sensitivas, como formigamento ou dormência, geralmente em um lado do corpo e que se espalham em alguns minutos. É comum sentir isso em um braço, no rosto ou na língua.
Quanto tempo dura e com que frequência acontece?
A aura costuma durar entre 5 e 60 minutos, e o mais comum é algo em torno de 20 a 30 minutos. Ela é reversível: some sozinha e não deixa sequelas quando se trata de enxaqueca.
Quanto à frequência, a mesma página da SBCefaleia informa que, entre as pessoas com enxaqueca, a maioria (cerca de 70% a 80%) tem enxaqueca sem aura, e 20% a 30% têm enxaqueca com aura. Ou seja, é uma experiência bem menos universal do que se imagina, mas está longe de ser rara.
Uma pessoa pode ter crises com aura e crises sem aura, e isso varia ao longo da vida. Se você ainda não sabe se tem esse padrão, vale ler também sobre a hereditariedade da enxaqueca, porque a tendência costuma se repetir em famílias.
O que acontece no seu cérebro durante a aura?
A explicação mais aceita envolve um fenômeno chamado depressão alastrante cortical. É uma onda lenta de ativação elétrica das células do cérebro, seguida de uma queda temporária dessa atividade, que caminha pelo córtex, a camada externa do cérebro.
Como essa onda avança devagar, o sintoma também "caminha". Por isso a mancha cresce e se desloca pelo campo visual em vez de aparecer inteira de uma vez. Quando a onda passa pela região do cérebro ligada à visão, você vê as luzes. Quando passa por áreas ligadas ao tato, vem o formigamento.
Os pesquisadores ainda estudam todos os detalhes desse mecanismo e como ele se liga à dor de cabeça. O que se sabe é que ele é temporário e que explica bem por que a aura tem esse jeito característico, que anda aos poucos.
Aura e depois dor de cabeça: a sequência clássica
Em muitas pessoas, a crise segue uma ordem: primeiro vêm sinais discretos (cansaço, bocejos, irritação), depois a aura e, por fim, a dor de cabeça. A SBCefaleia lembra que a enxaqueca não é apenas dor de cabeça e que existem fases antes da dor.
Na prática, a dor costuma vir durante a aura ou logo depois dela. Em outras crises, ela vem mais fraca ou nem aparece. Cada pessoa tem o seu ritmo, e o seu pode mudar de uma crise para outra.
Se a aura é uma parte frequente das suas crises, o impacto da luz e das telas pode ser uma dúvida natural. Vale entender o que as pesquisas dizem (e o que ainda não está claro) antes de concluir que o celular é o vilão.
Dá para ter aura sem dor de cabeça?
Dá, sim. É a chamada aura sem dor de cabeça, às vezes chamada de "enxaqueca silenciosa". Segundo um neurologista que explica o tema, a pessoa tem os sintomas típicos de aura, mas nenhuma dor aparece em até 60 minutos.
Essa forma é mais comum com o passar dos anos. Mesmo assim, principalmente no primeiro episódio, ela merece avaliação neurológica, porque outros problemas também podem causar sintomas parecidos. Não dá para presumir que é "só enxaqueca" sem que alguém examine você.
Quando se preocupar de verdade?
A maioria das auras visuais de quem já tem diagnóstico de enxaqueca é benigna. Mas existem situações em que é importante não esperar:
- Sintomas muito repentinos, que aparecem em segundos, sem "caminhar" aos poucos. A aura da enxaqueca se instala devagar, ao longo de minutos, enquanto os sintomas de um AVC costumam surgir de forma súbita.
- Fraqueza em um lado do corpo, boca torta ou dificuldade para falar, que pedem atendimento de emergência.
- Perda de visão em um olho só ou que não melhora.
- Aura que passa de uma hora, que muda de padrão ou que aparece pela primeira vez em uma fase da vida em que você nunca teve.
- Dor de cabeça muito forte e repentina, a pior da sua vida, ou com febre e rigidez no pescoço.
O Einstein explica que dor de cabeça associada a perda aguda do campo de visão é um sinal de alerta e que, na dúvida, o melhor é procurar um serviço de emergência. No Brasil, você pode ligar para o SAMU (192). Não é exagero: é melhor descobrir que era só uma aura do que ignorar um AVC.
A mesma matéria afirma que ter enxaqueca com aura aumenta em cerca de três vezes o risco de AVC. É uma informação importante para conversar com seu médico, e não um motivo para viver com medo. Ela explica por que vale conhecer bem o seu padrão de aura e saber diferenciá-lo de algo novo.
E se for a primeira vez? Por que podem pedir exames
Na primeira vez que você tem uma aura, é natural o médico querer ter certeza de que é enxaqueca. Em geral, o neurologista é o especialista indicado, e o caminho pode começar na UBS, com uma consulta com clínico geral e encaminhamento.
Alguns médicos pedem ressonância magnética de crânio no primeiro episódio ou quando há dúvida no diagnóstico. Um neurologista explica que a imagem costuma ser considerada em casos atípicos, no primeiro episódio ou quando há dúvida diagnóstica. Não significa que há algo grave: muitas vezes o exame serve para tranquilizar.
Para a consulta render, leve um relato do que você viu, quanto tempo durou, se veio dor depois e o que estava acontecendo naquele dia.
O que costuma desencadear uma aura?
Os gatilhos da aura são, em grande parte, os mesmos da enxaqueca. A SBCefaleia lista, entre os principais desencadeantes, preocupações e estresse, ficar sem comer, dormir mal, o ciclo hormonal e o excesso de cafeína.
Algo importante: gatilhos não causam a enxaqueca, e em geral é a combinação de dois ou mais fatores que ultrapassa o limite. Uma noite mal dormida, mais jejum, mais um dia estressante é bem diferente de cada um deles sozinho.
Por isso, descobrir o seu padrão leva tempo e é bem pessoal. O que desencadeia a aura de uma amiga pode não ter relação nenhuma com a sua.
Aura e pílula anticoncepcional: um aviso importante
Se você tem enxaqueca com aura e usa (ou pensa em usar) anticoncepcional, converse com seu médico. A Febrasgo informa que, para mulheres com enxaqueca com aura, há contraindicação dos métodos hormonais combinados, qualquer que seja a via de administração. Isso porque o uso de contraceptivos combinados se associa a maior risco de AVC nessas mulheres.
Existem outras opções de contracepção sem estrogênio, e o profissional certo para indicar a melhor para você é o seu ginecologista, junto com o neurologista. Não pare nem troque nenhum remédio por conta própria: marque uma consulta e leve a informação sobre as suas auras.
Como atravessar um episódio com mais calma
A aura assusta, principalmente nas primeiras vezes. Algumas atitudes simples ajudam, sem prometer que a crise vai embora mais rápido:
- Pare o que está fazendo. Se estiver dirigindo, andando de bicicleta ou atravessando a rua, pare em um lugar seguro até a visão voltar.
- Sente-se ou deite-se em um ambiente tranquilo, com pouca luz, se isso ajudar.
- Respire devagar e lembre-se de que a aura costuma passar sozinha em menos de uma hora.
- Observe o relógio. Saber quando começou e quando terminou ajuda a notar se algo está diferente.
- Se tiver um plano de tratamento combinado com seu médico, siga o que ele orientou. Remédios para a crise só devem ser usados com orientação profissional.
Sobre tratar a crise cedo, a SBCefaleia comenta que o tratamento pode ser instituído já nas fases anteriores à dor. Como o que tomar, quando e quanto depende de cada pessoa, essa conversa precisa acontecer com o seu médico. Se as crises forem frequentes, existem também tratamentos preventivos, como o Botox para enxaqueca crônica, que são decididos caso a caso.
Anotar seus episódios ajuda a entender o que acontece
Com a aura, a memória falha: depois de uma crise, é difícil lembrar com exatidão como foi, quanto durou e o que aconteceu nas horas anteriores. Um registro simples ajuda você e o médico. A própria SBCefaleia e os manuais médicos recomendam manter um diário das dores de cabeça, com data, horário, possíveis gatilhos e resposta ao tratamento.
O que vale anotar:
- como foi a aura (luzes, mancha, formigamento) e de que lado;
- a duração, do começo ao fim;
- se veio dor de cabeça e com que intensidade;
- como estavam seu sono, seu estresse, as refeições, as telas e o ciclo menstrual;
- qualquer mudança em relação às auras anteriores.
Com algumas semanas de registro, você começa a enxergar tendências, e a consulta deixa de ser "eu acho que...".
Resumindo
- Enxaqueca ocular costuma ser o nome popular da aura visual: um sintoma que nasce no cérebro, não nos olhos.
- A aura costuma durar de 5 a 60 minutos, anda aos poucos e some sozinha.
- Pode aparecer com ou sem dor de cabeça, e na primeira vez deve ser avaliada por um profissional.
- Sintomas súbitos, fraqueza, dificuldade para falar ou perda de visão em um olho pedem atendimento de emergência.
- Quem tem aura precisa conversar com o médico sobre anticoncepcionais com estrogênio.
- Anotar as crises é uma das melhores formas de entender o seu padrão.
Perguntas frequentes
Enxaqueca ocular é um problema nos olhos?
Não. A enxaqueca ocular costuma ser a aura visual, que nasce no cérebro, na região que processa as imagens. Os olhos continuam funcionando, e o que muda é a forma como o cérebro interpreta o que eles enviam.
Quanto tempo dura a aura visual da enxaqueca?
Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, a aura costuma durar entre 5 e 60 minutos, e o mais comum é algo em torno de 20 a 30 minutos. Ela some sozinha e não deixa sequelas quando se trata de enxaqueca.
Dá para ter aura sem dor de cabeça?
Dá, sim. É a chamada aura sem dor de cabeça, em que a pessoa tem os sintomas típicos, mas nenhuma dor aparece em até 60 minutos. Principalmente no primeiro episódio, ela merece avaliação neurológica.
Quando devo procurar atendimento de emergência?
Procure ajuda se os sintomas surgirem de forma súbita, se houver fraqueza em um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou perda de visão em um olho só. No Brasil, é possível ligar para o SAMU (192). Na dúvida, é melhor ser avaliada por um profissional.
Quem tem enxaqueca com aura pode usar anticoncepcional?
Depende da avaliação médica. A Febrasgo informa que há contraindicação dos métodos hormonais combinados para mulheres com enxaqueca com aura. Converse com seu ginecologista e seu neurologista, e não pare nem troque nenhum remédio por conta própria.
Fontes
- Enxaqueca com Aura
- Os 10 principais desencadeantes de enxaqueca
- Enxaqueca: quando uma crise pode indicar um AVC?
- Orientação de anticoncepção para pacientes com cefaléias
- AVC ou enxaqueca com aura? Entenda as diferenças e saiba quando buscar ajuda imediata
- Depressão Alastrante: Importância para a Fisiopatologia da Enxaqueca
- O que é a enxaqueca ocular?
- Enxaqueca ocular e aura visual: O que é e como reconhecer - Citta
- Enxaqueca com aura sem dor de cabeça: o que significa?
- Enxaqueca com aura: sintomas, duração e sinais de alerta
- Gatilhos da Enxaqueca: O que Desencadeia as Crises?
- Enxaqueca - Neurologia - Manuais MSD edição para profissionais
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos
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