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Homem de olhos fechados e mão na têmpora ao lado de um aparelho de ressonância magnética e de um cérebro
Diagnóstico

Ressonância magnética e enxaqueca: precisas mesmo de fazer um exame de imagem?

Por Laurine Nicoletti11 min

Tens enxaquecas há meses (ou anos) e já pensaste: "Será que não devia fazer uma ressonância magnética para ter a certeza?". Ou saíste da consulta sem nenhum pedido de exame e ficaste com a sensação de que alguma coisa ficou por fazer. Esta dúvida sobre a ressonância magnética e a enxaqueca é muito comum.

Na maior parte dos casos, a ressonância magnética para a enxaqueca não é necessária: o diagnóstico faz-se a conversar contigo e a examinar-te. Neste artigo explico quando o médico pede mesmo uma imagem, porque é que um exame normal é uma boa notícia e como decorrem a ressonância e a TAC. Este texto faz parte do nosso guia sobre o diagnóstico da enxaqueca.

Em resumo

  • A enxaqueca diagnostica-se sobretudo pela história clínica e pelo exame neurológico, e não por um exame de imagem, como explica a CUF.
  • A Ordem dos Médicos recomenda não pedir TAC nem ressonância para enxaqueca típica, sem outras alterações na história clínica ou no exame neurológico, porque a probabilidade de encontrar uma lesão grave é mínima (Ordem dos Médicos).
  • O médico pede imagem quando há sinais de alarme, como uma dor nova e diferente, uma dor que piora progressivamente ou sintomas neurológicos.
  • Um exame normal não é um esquecimento nem uma "falha": serve para excluir outras causas e confirmar que a dor vem de uma enxaqueca.

A enxaqueca diagnostica-se com uma ressonância magnética?

Não: a enxaqueca é uma doença que não aparece como "lesão" numa imagem, por isso o diagnóstico assenta no que descreves e no que o médico observa. Segundo a CUF, a chave está na história clínica, no exame físico e no exame neurológico.

Isto inclui perguntas como: de que lado dói, como é a dor, quanto tempo dura, se tens náuseas ou sensibilidade à luz e ao ruído, se vês luzes ou manchas antes da dor. Tudo isto são critérios que o médico já conhece e que não precisam de uma máquina para serem confirmados. Se queres rever como se distingue uma enxaqueca de outras dores, temos um artigo sobre a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça.

A própria CUF explica que os exames como a TAC ou a ressonância servem, mais do que para distinguir a cefaleia, para excluir outros problemas que possam estar a provocar a dor. Ou seja, não "provam" a enxaqueca: afastam outras hipóteses quando existe uma razão para duvidar.

Porque é que o meu médico não me pediu uma ressonância?

Provavelmente porque a tua história e o teu exame neurológico apontam para uma enxaqueca típica, e nesse caso a imagem não acrescenta nada. Não é desleixo: é uma recomendação formal da medicina em Portugal.

A iniciativa "Fazer Menos é Mais" (Choosing Wisely) da Ordem dos Médicos aconselha precisamente a não pedir TAC ou ressonância por cefaleias de tensão ou enxaqueca quando não há outras alterações relevantes na história clínica ou no exame neurológico. A razão apresentada é simples: nessas condições, a possibilidade de encontrar uma lesão grave é mínima. Esta recomendação vem do Colégio de Neurorradiologia e é subscrita também pelo Colégio de Medicina Geral e Familiar.

Há ainda uma questão prática. Pedir exames sem necessidade traz ansiedade, custos, tempo de espera e, no caso da TAC, exposição a radiação, sem melhorar o tratamento da tua enxaqueca.

Se, mesmo assim, ficaste com dúvidas, podes dizê-lo na consulta. Perguntar "o que o fez decidir que não precisava de imagem?" é uma pergunta legítima, e a resposta costuma ser tranquilizadora. Se não sabes bem a que médico recorrer, vê que médico consultar e como preparar a consulta.

Em que casos o médico pede uma ressonância ou uma TAC?

O médico pede imagem quando algo na história ou no exame não encaixa numa enxaqueca habitual e é preciso excluir outra causa. Na prática, trata-se de procurar o que se chama "sinais de alarme".

Segundo a recomendação da Ordem dos Médicos, a TAC ou a ressonância justificam-se na presença de sinais que sugiram uma cefaleia secundária (isto é, uma dor de cabeça provocada por outra causa). Entre eles:

  • dor de cabeça nova ou mudança do padrão habitual das tuas dores;
  • dor explosiva, muito intensa e de início súbito;
  • aura atípica, aura sem dor de cabeça ou dor de cabeça sem história prévia de aura;
  • dor de cabeça nova em pessoas com mais de 50 anos;
  • dor que piora de forma progressiva;
  • dor que muda com a posição do corpo (por exemplo, ao deitar ou ao levantar);
  • dor associada a sinais neurológicos ou a febre sem explicação;
  • dor de cabeça em pessoas com imunodeficiência por VIH ou com antecedentes de cancro.

Esta lista não serve para te assustares nem para te auto-diagnosticares: é uma grelha que o médico usa para decidir. Ter uma destas características não quer dizer que haja algo grave, quer dizer apenas que vale a pena confirmar com um exame.

E a aura? Faz sempre sentido fazer imagem?

Não. A aura típica (luzes, manchas, formigueiro que se instala e passa em minutos) é uma parte conhecida da enxaqueca, como explicamos em enxaqueca com aura e em enxaqueca ocular. O que o médico avalia é se a aura é atípica, ou seja, se se comporta de maneira diferente do habitual. É nesse caso que a imagem pode ser considerada. Podes também ler sobre a enxaqueca silenciosa, em que a aura surge sem dor.

E quando é urgente?

Se a dor surge de repente, é a pior da tua vida, vem com febre, confusão, visão dupla ou desfocada, fraqueza, ou depois de uma pancada, não esperes por uma consulta. A CUF indica que, nestas situações, se deve contactar um serviço de urgência. Nesses casos, a TAC é muitas vezes feita na própria urgência. Para te orientares, lê quando ir às urgências e quando podes esperar.

Porque é que um exame normal é uma boa notícia?

Um resultado normal significa que não foi encontrada nenhuma outra causa para a tua dor, e isso reforça o diagnóstico de enxaqueca. Não quer dizer que a dor "não existe" ou que está "só na tua cabeça" (no sentido de imaginária).

É um ponto que confunde muita gente. A enxaqueca é uma doença do funcionamento do cérebro, não de estrutura: por isso, mesmo com crises fortes, as imagens costumam ser normais. Se queres perceber melhor o que se passa, temos um artigo sobre as causas da enxaqueca.

Outra preocupação frequente é saber se a enxaqueca é perigosa. Sobre isso, resumimos o que dizem os estudos em enxaqueca é perigosa?, com a honestidade de dizer o que está provado e o que não está.

E se o exame mostrar algum achado? Pode acontecer que a imagem revele algo sem relação com as tuas dores. Nesse caso, é o médico que explica o que significa e se é preciso fazer alguma coisa, e não vale a pena tirar conclusões sozinha à frente do resultado.

Ressonância ou TAC: qual é a diferença?

A diferença principal é a técnica: a TAC usa raios X, a ressonância usa um campo magnético e ondas de rádio. Segundo a CUF, a ressonância magnética não utiliza radiação ionizante, ao contrário da TAC.

Na prática, isto traduz-se assim:

  • TAC (tomografia computorizada): é rápida e muito útil em situações urgentes, porque mostra rapidamente, por exemplo, se há uma hemorragia.
  • Ressonância magnética (RM): demora mais e dá imagens mais detalhadas dos tecidos do cérebro. Por isso, é muitas vezes preferida quando não há urgência e é preciso avaliar com mais pormenor.

Quanto ao contraste, a CUF explica que na ressonância se usa gadolínio, com um risco alérgico significativamente inferior ao do contraste iodado usado na TAC. O contraste só é usado quando o médico considera necessário. A escolha do exame cabe sempre a quem o pede, em função do que quer esclarecer.

Como é uma ressonância magnética da cabeça?

É um exame indolor, mas com algum barulho e a necessidade de ficares quieta. Segundo a Lusíadas, a ressonância pode durar entre 15 e 45 minutos, e deves estar deitada e imóvel durante todo esse tempo.

O que podes esperar:

  1. Antes: retiras todos os objetos metálicos (brincos, piercings, fios, relógio, por exemplo), porque o aparelho tem um íman muito forte. Deves avisar sobre implantes, pacemaker ou próteses.
  2. Durante: deitas-te numa maca que entra num túnel. Ouves um ruído forte e sentes uma ligeira vibração, e recebes auscultadores para reduzir o incómodo.
  3. Contraste (se necessário): é injetado numa veia e eliminado mais tarde pela urina.

Se tens claustrofobia, diz-o logo ao marcar o exame. Segundo a CUF, o médico pode prescrever um tranquilizante e existem também ressonâncias abertas, em forma de "U", com a lateral livre. A decisão sobre qualquer medicação para o exame é do teu médico.

Como é uma TAC da cabeça?

É um exame mais curto e também indolor, feito num aparelho em forma de anel, onde o túnel é mais aberto do que o da ressonância. De acordo com a CUF, a aquisição das imagens demora entre cinco e 15 minutos, e tens de ficar imóvel e seguir as instruções que o próprio equipamento vai dando.

Para exames do crânio, a CUF indica que não deves comer pelo menos 4 horas antes, mas que, se tomas medicação, podes fazê-lo normalmente com água. Cada centro pode ter instruções ligeiramente diferentes, por isso confirma sempre o que te indicarem na marcação.

A TAC usa raios X, mas a CUF classifica-a como um exame seguro. Se estiveres grávida ou houver possibilidade de estares, diz-o antes: é uma informação importante para a escolha do exame.

Como preparar a conversa com o médico?

Chegar à consulta com informação concreta sobre as tuas crises ajuda o médico a decidir se precisa mesmo de imagem. É o que mais pesa na decisão, mais do que qualquer máquina.

Antes da consulta, reúne:

  • Quando começaram as dores e se o padrão mudou recentemente;
  • Como são as crises: lado, tipo de dor, duração, intensidade, náuseas, sensibilidade à luz e ao ruído;
  • Se tens aura e como é (o que vês ou sentes, quanto tempo dura);
  • Sintomas que te preocupam, como dormência, fraqueza, dificuldade em falar ou febre;
  • Antecedentes na família e outras doenças que tenhas;
  • As tuas perguntas, por exemplo: "Preciso de algum exame? Porquê ou porquê não?".

Um registo das crises ao longo de algumas semanas torna tudo isto mais fácil. Se não sabes bem o que anotar, o nosso artigo diário de enxaqueca: o que anotar dá-te um ponto de partida.

Em resumo: a imagem é a exceção, não a regra

Para a grande maioria das pessoas com enxaqueca típica, não é preciso ressonância nem TAC, e isso não quer dizer que a tua dor foi ignorada. Quer dizer que a tua história e o teu exame neurológico já dizem o essencial.

A imagem entra em cena quando há sinais de alarme ou algo que foge ao padrão, e nesse caso um exame normal é um alívio e não uma frustração. Se algo mudar nas tuas crises, ou se tiveres dúvidas, fala com o teu médico de família ou com o neurologista: é ele quem decide, contigo, o que faz sentido no teu caso.

Perguntas frequentes

A ressonância magnética mostra a enxaqueca?

Não. A enxaqueca não deixa uma "marca" que permita ao exame confirmá-la, por isso o diagnóstico faz-se pela história clínica e pelo exame neurológico, como indica a CUF. A ressonância serve para excluir outras causas quando existe uma razão para isso.

Posso pedir uma ressonância ao meu médico se tiver enxaquecas?

Podes sempre falar do assunto na consulta e perguntar se o exame faria sentido para ti. A Ordem dos Médicos recomenda não pedir TAC nem ressonância em enxaqueca típica sem sinais de alarme, por isso o médico poderá explicar-te porque não é necessário. Se houver sinais de alarme ou mudanças nas tuas crises, a decisão pode ser outra.

Um exame normal significa que não tenho enxaqueca?

Não, é o contrário: um exame normal é o esperado numa enxaqueca, porque se trata de uma doença que afeta o funcionamento do cérebro e não a sua estrutura. A imagem normal exclui outras causas e é compatível com o diagnóstico.

A ressonância magnética faz mal?

A ressonância não utiliza radiação ionizante, segundo a CUF, e é um exame indolor. O que mais incomoda é o ruído e ter de ficar quieta, e a claustrofobia pode ser um problema para algumas pessoas. Se for o teu caso, avisa o centro antes do exame.

Quanto tempo demoram a ressonância e a TAC?

A Lusíadas indica que a ressonância pode durar entre 15 e 45 minutos. Na TAC, a CUF refere que a aquisição das imagens demora entre cinco e 15 minutos. Os tempos variam consoante o centro e o tipo de exame.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos

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