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Mulher sentada perto de uma janela, com a mão na testa, em um ambiente calmo e com luz suave
Diagnóstico

Enxaqueca é perigosa? O que dizem os estudos sobre os riscos

Por Laurine Nicoletti13 min

Você está no ônibus, com uma crise começando, e uma pergunta aparece: "será que isso é grave?". Ou então leu em algum lugar que enxaqueca aumenta o risco de AVC e ficou se perguntando se a enxaqueca é perigosa. É uma dúvida muito comum, e merece uma resposta calma e honesta.

Então, a enxaqueca é perigosa? Na imensa maioria das vezes, não: ela é uma doença incômoda e incapacitante, mas não costuma ameaçar a vida. Existem, porém, alguns riscos estudados, principalmente na enxaqueca com aura, e alguns sinais que pedem atendimento rápido. Vamos ver tudo isso, sem alarmismo e sem esconder nada. Este texto faz parte do nosso guia sobre o diagnóstico da enxaqueca.

Em resumo

  • A enxaqueca em si costuma ser uma doença dolorosa, mas não perigosa; o que os estudos mostram é uma associação com maior risco de AVC, sobretudo na enxaqueca com aura.
  • Segundo uma meta-análise do BMJ resumida pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, a aura eleva o risco de AVC (entre 1,30 e 1,87 vez), enquanto na enxaqueca sem aura essa associação não foi estatisticamente significativa.
  • Fatores como cigarro, pílula anticoncepcional combinada e pressão alta pesam muito e são, em boa parte, modificáveis, com orientação médica.
  • Dor de cabeça súbita e muito forte, fraqueza de um lado do corpo, fala enrolada, febre com rigidez na nuca ou perda de visão repentina pedem atendimento imediato (SAMU 192 ou pronto-socorro).

Enxaqueca é perigosa? A resposta curta

Para a maioria das pessoas, a enxaqueca não é perigosa, mas também não é "só uma dor de cabeça". Ela pode atrapalhar trabalho, estudo e vida social, e isso já é motivo suficiente para tratar com seriedade. Se você quer entender o que acontece no cérebro durante uma crise, vale ler sobre as causas da enxaqueca.

O que os estudos fazem é comparar grandes grupos de pessoas com e sem enxaqueca. Em alguns grupos, eventos como AVC (derrame) aparecem um pouco mais. Isso é uma associação, e não significa que sua próxima crise vá causar um AVC.

Também vale separar duas ideias: o risco relativo (quantas vezes mais, em comparação com quem não tem enxaqueca) e o risco absoluto (a chance real de acontecer com você). Um risco relativo maior sobre uma chance de base pequena continua sendo, em geral, uma chance pequena. Quem avalia isso no seu caso é o médico, considerando sua idade, seus hábitos e seu histórico.

Enxaqueca com aura: o que se sabe sobre o risco de AVC

A enxaqueca com aura é a forma que mais aparece associada a maior risco de AVC isquêmico, aquele causado por um entupimento de vaso no cérebro. Aura são aqueles sintomas que surgem antes ou durante a dor: luzes piscando, manchas na visão, formigamento. Se quiser relembrar como ela funciona, temos um texto sobre como entender os sinais da enxaqueca com aura.

Uma meta-análise publicada no BMJ, que reuniu 16 estudos com cerca de 395 mil pessoas com enxaqueca e 757 mil sem, foi resumida pela Sociedade Brasileira de Cefaleia. Segundo esse resumo, ter enxaqueca se associou a risco de AVC entre 1,25 e 1,61 vez maior e, quando havia aura, a faixa subiu para 1,30 a 1,87 vez. Para infarto, a faixa foi de 1,03 a 1,43.

Outras publicações citam números maiores. O Einstein, por exemplo, menciona que a enxaqueca com aura aumenta cerca de três vezes o risco de AVC em revisões de estudos. As estimativas variam conforme o estudo, a idade e o sexo das pessoas avaliadas, e essa diferença é uma das incertezas da área.

O que isso quer dizer na prática? Que a aura é um dado importante para o seu médico levar em conta, junto com outros fatores. Não quer dizer que quem tem aura vá ter AVC. A Sociedade Brasileira de Cefaleia lembra que a aura costuma se instalar aos poucos (em pelo menos 5 minutos) e durar até 60 minutos, e isso ajuda a diferenciá-la de um quadro neurológico agudo.

E a enxaqueca sem aura?

Na enxaqueca sem aura, os estudos não encontraram aumento claro do risco de AVC. Na mesma meta-análise do BMJ resumida pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, quando a enxaqueca sem aura foi analisada separadamente, a associação com AVC não teve significância estatística.

É uma boa notícia, porque a enxaqueca sem aura é a forma mais comum. Se você quer conhecer melhor esse tipo, veja enxaqueca sem aura: sintomas, duração e diferenças da enxaqueca com aura.

Um ponto de honestidade: "sem significância estatística" não é o mesmo que "risco zero". Significa que os dados disponíveis não mostraram diferença clara. Os estudos também avaliaram diferenças entre homens e mulheres, e esse é um terreno em que ainda há perguntas abertas.

Pílula, cigarro e pressão: os fatores que pesam mais

Cigarro, pílula anticoncepcional combinada e pressão alta costumam pesar mais para o risco de AVC do que a enxaqueca sozinha. A boa notícia é que boa parte desses fatores pode ser conversada e ajustada com um profissional de saúde.

Segundo uma reportagem do Correio Braziliense sobre enxaqueca em mulheres, o risco aumenta quando a enxaqueca com aura se soma a outros fatores, como tabagismo e uso de anticoncepcional com hormônios combinados. Em outras palavras, é a soma que preocupa.

Sobre o anticoncepcional, a recomendação geral é conversar com o médico, em especial se você tem aura, porque as pílulas combinadas (com estrogênio) costumam ser evitadas nesse caso, e existem alternativas sem estrogênio. Nunca pare nem troque o método por conta própria. Explicamos melhor em anticoncepcional e enxaqueca: o que dizem os estudos.

Alguns pontos que costumam entrar na conversa com o médico:

  • se você fuma ou fumou, e se quer apoio para parar (o SUS oferece tratamento para tabagismo);
  • como está a sua pressão arterial;
  • qual método contraceptivo você usa e há quanto tempo;
  • se existem casos de AVC ou trombose na família.

A enxaqueca danifica o cérebro?

Alguns exames de imagem mostram diferenças no cérebro de quem tem enxaqueca, mas ainda não está claro o que elas significam na vida real. É uma das perguntas que mais assustam, então vale ir com calma.

Uma meta-análise de 2013, publicada na revista Neurology e noticiada pelo portal UAI, indicou que pessoas com enxaqueca têm mais pequenas lesões na substância branca (as "fiações" do cérebro) e mais alterações estruturais do que pessoas sem a doença. Essas alterações foram mais frequentes em quem tem aura.

O que esses achados querem dizer? A própria reportagem destaca que as consequências ainda não são totalmente claras. Em outras palavras:

  • O que é razoavelmente estabelecido: em ressonância magnética, esses pontinhos aparecem com mais frequência em quem tem enxaqueca.
  • O que continua incerto: se eles pioram a memória, o raciocínio ou a saúde do cérebro a longo prazo, e se o tratamento da enxaqueca muda isso.
  • O que não é correto concluir: que cada crise "estraga" um pedacinho do seu cérebro.

Se você fez uma ressonância e o laudo mencionou "focos de gliose" ou "lesões inespecíficas da substância branca", não entre em pânico. Leve o laudo ao seu médico, que vai interpretá-lo junto com os seus sintomas e a sua idade.

Aura ou AVC: como não confundir

A aura costuma crescer aos poucos e passar sozinha em até uma hora, enquanto o AVC costuma começar de repente e não melhora. Mas, na dúvida, o caminho é sempre procurar atendimento.

A Sociedade Brasileira de Cefaleia descreve a aura como um conjunto de sintomas neurológicos que se desenvolve gradualmente e dura de 5 a 60 minutos. A aura visual é a mais comum (cerca de 90% dos casos) e inclui pontos brilhantes, manchas e imagens em ziguezague que vão se espalhando. O segundo tipo mais frequente é o formigamento, que costuma "caminhar" pelo braço, pelo rosto e até pela língua.

Já o Einstein relata o caso de um paciente cujo único sintoma foi a perda do campo visual, que acabou confundida com aura. A matéria do Einstein lembra que dor de cabeça associada à perda aguda de campo visual é um sinal de alerta.

Algumas pistas que pedem atenção redobrada:

  • sintomas que aparecem de uma vez, em vez de se espalhar devagar;
  • sintomas que duram bem mais de uma hora;
  • fraqueza ou perda de força de um lado do corpo, que não é típica da aura comum;
  • uma aura nova, diferente das que você já conhece, principalmente se você nunca teve enxaqueca.

Se a sua aura aparece às vezes sem dor, leia também sobre a enxaqueca silenciosa. E para o caso específico de luzes e manchas, temos um texto sobre flashes de luz nos olhos.

Sinais que pedem atendimento rápido

Alguns sinais não combinam com uma crise de enxaqueca comum e justificam procurar um pronto-socorro ou ligar para o SAMU 192. Eles servem para você agir sem demora, e não para viver em alerta.

Os sinais de alerta de AVC listados pelo Ministério da Saúde incluem confusão mental, alteração na fala ou na compreensão, alterações na visão, dor de cabeça súbita e intensa sem causa aparente, alteração de equilíbrio ou da coordenação e fraqueza ou formigamento em um lado do corpo. Nesses casos, a orientação é ligar para o SAMU 192 ou ir imediatamente ao hospital mais próximo.

Para as dores de cabeça em geral, a Sociedade Brasileira de Cefaleia lista alguns sinais de alerta que sugerem uma causa que precisa ser investigada:

  • primeira dor de início súbito e abrupto, descrita como "a pior dor da vida";
  • mudança no padrão das dores em quem já tem dores de cabeça recorrentes;
  • dor que começa em idades incomuns, antes dos 5 ou depois dos 50 anos;
  • sintomas gerais, como febre e perda de peso, ou condições como HIV, câncer e gravidez;
  • dor que começa com desmaio, esforço físico, atividade sexual ou manobra de Valsalva (como tossir ou fazer força);
  • dor que acorda você durante o sono.

O protocolo nacional para cefaleias nas unidades de urgência, elaborado pela Academia Brasileira de Neurologia e pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, também cita febre com confusão mental ou rigidez na nuca como sinal que exige avaliação imediata. Para um guia mais detalhado, leia dor de cabeça: quando ir ao pronto-socorro e quando dá para esperar.

Quando dá para marcar consulta sem pressa

Se a sua dor segue o seu padrão de sempre, mas está atrapalhando a vida, vale marcar consulta com calma, sem correria. Aqui não é emergência, mas é um bom motivo para conversar com um profissional.

Situações em que faz sentido agendar uma consulta (pela UBS, pelo plano de saúde ou de forma particular):

  • as crises estão ficando mais frequentes ou mais fortes;
  • você usa analgésico com frequência e sente que "não está dando conta";
  • você tem aura e usa (ou pensa em usar) anticoncepcional combinado;
  • você sente dor de cabeça quase todos os dias (veja dor de cabeça todos os dias);
  • as crises faltam ao trabalho, à faculdade ou a compromissos importantes.

Se estiver em dúvida sobre qual especialista procurar, o texto sobre qual médico procurar para enxaqueca ajuda a organizar os próximos passos. Para ter uma ideia mais ampla do peso da doença, vale ver enxaqueca em números.

Na prática: ficar tranquila sem ignorar os sinais

Dá para equilibrar os dois lados: não viver com medo, mas também conhecer o que merece atenção. Algumas atitudes simples ajudam bastante.

  1. Descubra que tipo de enxaqueca você tem. Saber se há aura ou não muda a conversa com o médico. Se tiver dúvida, comece pela diferença entre enxaqueca e dor de cabeça.
  2. Cuide do que você pode modificar. Parar de fumar, acompanhar a pressão e conversar sobre o método contraceptivo contam mais do que qualquer medo isolado.
  3. Registre suas crises. Um diário de enxaqueca mostra se o padrão mudou, e mudança de padrão é um dos sinais que vale levar ao médico.
  4. Combine um plano com o seu médico. Saber o que é "normal" para você e o que seria "diferente" tira muita ansiedade da cabeça.
  5. Na dúvida diante de sintomas súbitos, procure atendimento. É melhor ouvir "foi só uma aura" do que esperar demais.

Este texto não substitui uma consulta: ele não faz diagnóstico nem indica tratamento. Se algo na sua história te preocupa, fale com um médico.

Perguntas frequentes

Enxaqueca pode matar?

A enxaqueca em si não é considerada uma doença fatal. O que os estudos mostram é uma associação com maior risco de AVC e infarto em alguns grupos, principalmente na enxaqueca com aura, segundo a meta-análise do BMJ resumida pela Sociedade Brasileira de Cefaleia. Isso é um risco estatístico, que o médico avalia com você junto com outros fatores.

Quem tem enxaqueca vai ter AVC?

Não. Os números dos estudos comparam grupos grandes e indicam risco um pouco maior, mas não dizem que a maioria das pessoas com enxaqueca terá AVC. Fatores como cigarro, pressão alta e uso de pílula combinada pesam bastante, e muitos deles podem ser acompanhados com ajuda profissional.

Como saber se é aura ou AVC?

A aura costuma se instalar aos poucos, em pelo menos 5 minutos, e dura até 60 minutos, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia. Sintomas súbitos, como boca torta, braço sem força, fala enrolada ou perda repentina de visão, são sinais de alerta de AVC e pedem que você ligue para o SAMU 192 imediatamente.

A enxaqueca causa lesões no cérebro?

Exames de imagem mostram mais pequenas lesões na substância branca em pessoas com enxaqueca, como aponta uma meta-análise de 2013 noticiada pelo UAI. Ainda não está claro o que isso significa para a memória ou o raciocínio no dia a dia, então o melhor é conversar com o médico sobre qualquer laudo que te preocupe.

Quando devo ir ao pronto-socorro por causa de uma dor de cabeça?

Quando a dor é súbita e a pior da sua vida, vem com febre e rigidez na nuca, com fraqueza de um lado do corpo, fala alterada, confusão ou perda de visão. Esses sinais constam nas listas da Sociedade Brasileira de Cefaleia e do Ministério da Saúde.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

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