
Anticoncepcional e enxaqueca: o que dizem os estudos e quando falar com o médico
Você começou a tomar a pílula e as crises mudaram. Ou você tem enxaqueca desde a adolescência e o ginecologista acabou de receitar um anticoncepcional, e você ficou com a dúvida: "será que isso combina com a minha cabeça?". É uma pergunta muito comum, e a resposta honesta é: depende do tipo de enxaqueca que você tem.
Neste artigo, vamos olhar o que está estabelecido sobre anticoncepcional e enxaqueca, principalmente a relação com a aura, e o que ainda é incerto. No fim, você vai encontrar as perguntas para levar ao médico. Este texto faz parte do nosso guia sobre como prevenir a enxaqueca e não substitui uma consulta: ele não indica o que você deve tomar, parar ou trocar.
Em resumo
- Segundo a Febrasgo, quem tem enxaqueca com aura não deve usar anticoncepcionais hormonais combinados (com estrogênio), porque o risco de AVC aumenta.
- Segundo a mesma orientação da Febrasgo, quem tem enxaqueca sem aura pode, em geral, começar um método combinado, com reavaliação se as crises piorarem e restrição após os 35 anos.
- Métodos só com progestagênio (sem estrogênio) são a alternativa citada pela Febrasgo e pela Sociedade Brasileira de Cefaleia quando o método combinado não é indicado.
- Qualquer mudança de método deve ser decidida com o ginecologista ou o neurologista, nunca por conta própria.
O anticoncepcional pode causar ou piorar a enxaqueca?
Em algumas mulheres, sim: o anticoncepcional pode piorar as crises. Em outras, não muda nada, e em outras ainda as crises até melhoram. Não existe uma resposta única, porque os hormônios agem de formas diferentes em cada organismo.
A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) lembra que, para quem tem dor de cabeça leve ou moderada, não há contraindicação a nenhum método, inclusive os combinados. A atenção maior é para quem percebe que as dores ficaram mais frequentes ou mais intensas depois de começar o método.
Um material de revisão sobre o tema recomenda reavaliar ou interromper o método hormonal quando a dor de cabeça aumenta em frequência ou gravidade, quando surge uma enxaqueca nova com aura ou quando a dor persiste além de três meses de uso. Esse prazo é uma referência para conversar com o médico, não uma regra para você aplicar sozinha.
Por que os hormônios influenciam as crises?
O sistema nervoso responde aos hormônios sexuais femininos, e é por isso que o estrogênio e a progesterona entram na conversa sobre enxaqueca. A Febrasgo explica que esses hormônios aumentam a excitabilidade dos neurônios e favorecem a vasodilatação, modulando as vias da dor.
Na prática, o que costuma pesar é a variação dos níveis hormonais, mais do que o nível em si. É por isso que muitas mulheres sentem crises ligadas à menstruação. Se esse é o seu caso, vale ler sobre enxaqueca menstrual e sobre como o ciclo e os hormônios desencadeiam as crises.
A pílula combinada mexe nessas oscilações: ela mantém os hormônios mais estáveis em parte do ciclo, e isso pode ajudar algumas mulheres e atrapalhar outras. Ainda não dá para prever, de antemão, para qual lado vai o seu caso.
Anticoncepcional e enxaqueca com aura: por que tanta cautela?
A cautela existe porque a enxaqueca com aura e o estrogênio, cada um por si, estão ligados a um risco maior de AVC (acidente vascular cerebral), e a combinação é o que preocupa. A aura é o conjunto de sintomas neurológicos passageiros que pode vir antes ou junto da dor, como luzes brilhantes, pontos cegos, formigamento ou dificuldade para falar. Se você quer reconhecer esses sinais, temos um guia sobre enxaqueca com aura.
O Hospital Israelita Albert Einstein informa que ter enxaqueca com aura aumenta em cerca de três vezes o risco de AVC e que cerca de 20% das pessoas com enxaqueca têm aura. Na página sobre anticoncepcionais, o mesmo hospital lista problemas de circulação, risco de AVC e tromboembolismo entre as contraindicações ao uso.
Por isso, a orientação brasileira é clara. A Febrasgo afirma que, em mulheres com enxaqueca que têm aura, há contraindicação aos métodos hormonais combinados, independentemente da via (pílula, adesivo ou anel), e cita um risco de AVC de 2 a 4 vezes maior nesse grupo. A Sociedade Brasileira de Cefaleia segue a mesma linha: nessas pessoas, os combinados devem ser suspensos e apenas os métodos só com progestagênio são recomendados.
Duas observações para não se assustar. Primeiro, essas porcentagens falam de aumento relativo de risco: quem pode explicar o que isso significa para a sua idade e o seu histórico é o seu médico. Segundo, a contraindicação vale como regra de segurança justamente para evitar qualquer risco, e não porque a maioria das mulheres com aura teria um AVC.
Se você usa pílula combinada e acabou de perceber que tem aura, não precisa entrar em pânico, mas também não deve ignorar. Converse com o seu médico em breve para decidir os próximos passos, sem parar nem trocar por conta própria.
E se você tem enxaqueca sem aura?
Para quem tem enxaqueca sem aura, os métodos combinados costumam poder ser usados no início, com acompanhamento. A Febrasgo diz que, nesses casos, os hormonais combinados podem ser usados inicialmente, mas passam a ser contraindicados após os 35 anos ou se houver piora dos sintomas durante o uso.
Quando a usuária relata aumento da frequência ou da intensidade das dores, a mesma orientação indica que a troca por um método só com progestagênio seria mais adequada. Ou seja, o acompanhamento depende muito do que você observa no dia a dia.
Se você não tem certeza de qual é o seu tipo, ajuda ler sobre enxaqueca sem aura: sintomas, duração e diferenças. Mas só um profissional de saúde pode confirmar o tipo de enxaqueca que você tem.
Que alternativas existem quando a pílula combinada não serve?
A principal alternativa são os métodos que não têm estrogênio, como os que contêm só progestagênio, além de métodos sem hormônio. A Febrasgo e a Sociedade Brasileira de Cefaleia apontam esses métodos quando o combinado não é indicado, como mostra a própria orientação da Febrasgo para pacientes com cefaleias.
O Einstein reúne, em um só lugar, os métodos contraceptivos que existem, de pílulas a dispositivos intrauterinos, e é uma boa leitura para chegar à consulta já sabendo os nomes. Para saber o que está disponível pelo sistema público, a Telessaúde da Bahia tem uma página sobre métodos contraceptivos disponíveis no SUS. Na prática, a equipe da UBS ou o ginecologista que atende você é quem confirma o que está acessível na sua cidade.
Cada método tem vantagens e efeitos próprios, e a escolha depende de vários fatores além da enxaqueca: seu histórico de saúde, seus objetivos, sua rotina. Por isso, não existe "o melhor anticoncepcional para quem tem enxaqueca" valendo para todo mundo.
O que ainda é incerto
Há perguntas importantes sem resposta definitiva, e vale saber onde a ciência ainda não fecha a conta. Ser transparente sobre isso também faz parte de cuidar bem da sua saúde.
- Quanto a pílula causa de fato a enxaqueca. Estudos mostram associação entre uso de contraceptivos hormonais e dor de cabeça, mas associação não prova que a pílula seja a causa. Outros fatores, como estresse, sono e o próprio ciclo, entram na história. Para investigar o que pesa no seu caso, veja como identificar os gatilhos da enxaqueca.
- O risco individual. A Febrasgo cita um aumento de risco de AVC de 2 a 4 vezes para mulheres com aura, mas isso é uma média de grupos. O risco para uma mulher específica depende de idade, tabagismo, pressão alta e outros fatores, e só o médico consegue avaliar.
- Quais métodos sem estrogênio funcionam melhor para a enxaqueca. Ainda há pouco consenso sobre qual é o ideal, e o efeito sobre as crises varia de pessoa para pessoa.
- O que acontece com cada mulher ao trocar de método. Algumas melhoram, outras não notam diferença. Não há como garantir um resultado.
Também vale lembrar que as informações sobre contraindicação vêm de recomendações de sociedades médicas, que podem ser atualizadas com o tempo. Seu médico é quem acompanha essas mudanças.
Quando falar com o médico e que perguntas fazer?
Vale conversar com o ginecologista ou o neurologista antes de começar um anticoncepcional, ao notar mudança no padrão das crises ou ao perceber uma aura nova. Se você já tem diagnóstico de enxaqueca, avise o médico que receita o anticoncepcional, mesmo que a enxaqueca pareça "leve".
Alguns sinais pedem conversa sem demora:
- as crises ficaram mais frequentes ou intensas depois de começar o método;
- você nunca teve aura e ela apareceu;
- as dores persistem por vários meses de uso;
- você tem outros fatores de risco, como fumar ou ter pressão alta.
Sintomas que aparecem de forma súbita e diferente do seu padrão, como fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar ou perda de visão, merecem atendimento rápido. O Einstein conta o caso de um paciente que confundiu um AVC com uma aura, e é por isso que o que foge do seu normal deve ser avaliado.
Perguntas para levar à consulta
Você pode anotar estas perguntas no celular antes de ir:
- Pelo que descrevo, minhas crises são com aura ou sem aura?
- Um método com estrogênio é adequado para mim? Por quê?
- Existem opções sem estrogênio que fariam sentido no meu caso?
- Como vamos acompanhar se minhas crises mudam depois de começar ou trocar o método?
- Que sinais devo observar e quando devo voltar ou procurar atendimento?
- Meus outros fatores de saúde (idade, pressão, cigarro, histórico familiar) mudam a escolha?
Como chegar à consulta com dados úteis
Médicos decidem melhor quando têm informação concreta. Em vez de tentar lembrar "mais ou menos como foi", anote por alguns meses: data de cada crise, duração, intensidade, se teve aura, o dia do ciclo e o que estava acontecendo (sono ruim, estresse, tela, pausa na pílula).
No Mellow, você registra isso em dois taps e depois vê o histórico no calendário, com estatísticas de frequência, duração e intensidade. Também é possível gerar um relatório para mostrar ao médico, o que facilita a conversa sobre o anticoncepcional.
Na prática: o que levar daqui
- A enxaqueca com aura é o ponto de maior atenção: a recomendação brasileira é evitar métodos combinados.
- Na enxaqueca sem aura, os métodos combinados podem ser considerados, com acompanhamento e atenção à piora e à idade.
- Observar as crises depois de começar ou trocar de método é tão útil quanto a escolha inicial.
- Existem alternativas sem estrogênio, e quem ajuda a escolher é o seu médico.
- Seu histórico de crises, bem anotado, é a melhor ferramenta para essa conversa.
Se você quiser entender melhor os fatores que mexem com as suas crises além dos hormônios, o nosso guia sobre como prevenir a enxaqueca reúne os principais caminhos. E se você sente que o ciclo é o grande vilão, vale visitar o artigo sobre enxaqueca menstrual e o que fazer.
Escolher um anticoncepcional quando se tem enxaqueca não precisa ser um motivo de angústia. Com informação, anotações e uma boa conversa com o médico, dá para encontrar uma opção segura para você.
Perguntas frequentes
Quem tem enxaqueca pode tomar anticoncepcional?
Em muitos casos, sim, dependendo do tipo de enxaqueca e do método. A Febrasgo indica que quem tem dor de cabeça leve ou moderada não tem contraindicação a nenhum método, mas quem tem enxaqueca com aura deve evitar os combinados. A decisão é sempre do médico, que avalia o seu histórico completo.
O anticoncepcional pode causar enxaqueca pela primeira vez?
Pode acontecer de a dor de cabeça mudar depois que se começa um método hormonal, e a orientação é reavaliar quando as crises aumentam ou quando surge uma aura nova. Mas nem toda dor de cabeça que aparece nessa época é causada pelo anticoncepcional. Conte ao seu médico o que mudou e quando.
Posso parar a pílula sozinha se minhas crises piorarem?
O ideal é conversar com o médico antes, porque parar sem outro método pode deixar você sem proteção contra a gravidez. Se as crises piorarem, anote o que está acontecendo e marque uma consulta para avaliar as opções com segurança.
O DIU hormonal é indicado para quem tem enxaqueca com aura?
Os métodos só com progestagênio, sem estrogênio, são os citados pela Sociedade Brasileira de Cefaleia e pela Febrasgo como alternativa para quem tem aura. Qual deles faz sentido para você é uma conversa para ter com o ginecologista.
Fontes
- Orientação de anticoncepção para pacientes com cefaléias
- Enxaqueca: quando uma crise pode indicar um AVC?
- Anticoncepcional: como funciona, os riscos e benefícios
- Sociedade Brasileira de Cefaléia
- Uso de anticoncepcional por mulheres com enxaqueca crônica
- Quais são os métodos contraceptivos que existem? Veja nessa lista
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos
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