
Enxaqueca e ciclo menstrual: por que os hormônios desencadeiam as crises
Todo mês é a mesma história: alguns dias antes de menstruar, a cabeça começa a latejar, a luz incomoda e você já sabe o que vem pela frente. Ou então a crise aparece justamente no primeiro dia do sangramento, na semana da prova ou da entrega do trabalho. Se isso soa familiar, pode ser enxaqueca menstrual, uma crise de enxaqueca ligada às mudanças hormonais do ciclo.
Neste artigo, você vai entender por que o ciclo mexe tanto com a enxaqueca, por que essas crises costumam ser mais difíceis, como descobrir se as suas seguem um padrão e quais assuntos vale levar ao médico. Ele faz parte do nosso guia Gatilhos da enxaqueca, que reúne os principais gatilhos e formas de se antecipar a eles.
Em resumo
- A enxaqueca menstrual é uma crise de enxaqueca que aparece perto da menstruação, e a queda do estrogênio nessa fase é apontada como um dos principais gatilhos, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia.
- Mais da metade das mulheres com enxaqueca tem crises próximas ao período menstrual, e essas crises costumam ser mais intensas, mais longas e responder menos ao tratamento.
- Anotar as crises e as datas do ciclo em um diário é a forma mais simples de ver se existe um padrão, e esse registro ajuda muito na consulta.
- Pílula, gravidez, pós-parto e menopausa também mexem com os hormônios, e quem tem enxaqueca com aura precisa conversar com o médico antes de usar anticoncepcionais com estrogênio.
Por que as mulheres têm mais enxaqueca do que os homens?
As mulheres têm mais enxaqueca porque os hormônios femininos, que variam ao longo do ciclo, parecem influenciar a forma como o cérebro reage aos gatilhos. A proporção costuma ser de uma a duas ou três mulheres para cada homem, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia.
Essa diferença quase não existe na infância e aparece com força a partir da adolescência, quando a menina começa a menstruar. A própria SBCefaleia explica que o que está por trás dessa predominância feminina é a variação hormonal que sustenta o ciclo menstrual.
Ainda há perguntas em aberto. A SBCefaleia lembra que as razões desse predomínio nas mulheres ainda não são totalmente compreendidas, embora se suspeite de uma relação com os hormônios femininos. Ou seja: a ciência tem boas pistas, mas não uma resposta completa.
O que é enxaqueca menstrual, exatamente?
Enxaqueca menstrual é a enxaqueca que aparece nos dias próximos à menstruação, geralmente do fim da fase pré-menstrual até os primeiros dias de sangramento. É a mesma enxaqueca de sempre, com dor pulsátil, enjoo e sensibilidade à luz e ao som, só que com um horário marcado no calendário.
Para lembrar como a enxaqueca costuma se apresentar, o Hospital Israelita Albert Einstein descreve crises que duram de 4 a 72 horas, com dor geralmente pulsátil, de intensidade moderada a forte, acompanhada de náusea, vômito, sensibilidade à luz ou ao som.
Existem dois jeitos de classificar a relação com a menstruação, de acordo com a SBCefaleia:
- Enxaqueca menstrual pura: as crises aparecem exclusivamente nos dias que antecedem ou durante a menstruação.
- Enxaqueca relacionada à menstruação: as crises acontecem em outros momentos do mês também, mas ficam mais frequentes perto da menstruação. É o caso mais comum.
Na literatura médica brasileira, a forma pura é definida por crises que surgem entre dois dias antes do início da menstruação e o fim do fluxo, em pelo menos dois de três ciclos seguidos, e em nenhuma outra época do mês, como descreve este artigo da Unifesp. Só um médico pode dizer em qual categoria você se encaixa.
Por que a queda de estrogênio desencadeia a crise?
A explicação mais aceita é que a queda do estrogênio logo antes da menstruação funciona como um gatilho para o cérebro de quem já tem predisposição à enxaqueca. Segundo a SBCefaleia, a variação hormonal, especialmente essa queda na fase pré-menstrual, é um importante desencadeador das crises.
Pense no estrogênio como um nível que sobe e desce ao longo do mês. O que parece incomodar não é o estrogênio estar alto ou baixo em si, mas a mudança rápida de um nível para outro. Por isso, o período logo antes da menstruação, quando o hormônio cai, é tão delicado.
Uma pista a favor dessa ideia vem da gravidez. Quando os hormônios, incluindo o estrogênio, ficam altos e estáveis, a enxaqueca melhora em cerca de 80% das mulheres. A SBCefaleia também comenta que os níveis altos e sustentados de estrogênio parecem favorecer essa melhora, sobretudo a partir do segundo trimestre, segundo esta página.
O que ainda não está totalmente claro é por que algumas mulheres são tão sensíveis a essa oscilação e outras quase não sentem. Genética, outros gatilhos e o histórico de cada uma provavelmente contam, e a enxaqueca tem um componente hereditário importante.
Por que essas crises costumam ser mais difíceis de lidar?
As crises ligadas à menstruação tendem a ser mais difíceis porque, em muitas mulheres, a dor é mais forte, dura mais e responde pior aos remédios de crise. Isso não é impressão sua: segundo a SBCefaleia, nos casos em que a enxaqueca se concentra perto da menstruação, a dor costuma ser mais intensa, mais duradoura e responder menos aos tratamentos para a crise.
Além do que acontece no corpo, existe o peso emocional. É difícil lidar com a sensação de que, todo mês, você vai perder um ou dois dias de trabalho, de aula ou de vida social. E como a menstruação traz outros incômodos (cólica, cansaço, inchaço, irritação), muitas vezes a dor de cabeça se mistura com tudo isso e fica difícil perceber o que é o quê.
Por isso, o primeiro passo costuma ser enxergar o padrão, para que você e o seu médico consigam conversar sobre estratégias com base em dados, e não em lembranças vagas do último mês.
Como saber se as suas crises seguem o ciclo?
A melhor forma de saber é anotar, por pelo menos alguns ciclos, quando as crises acontecem e quando a menstruação começa. A SBCefaleia destaca que o diário de cefaleia é muito útil para estabelecer a relação entre menstruação e enxaqueca, e que ele mostra um retrato fiel do tipo de crise, do que a desencadeia ou piora e de como o tratamento está funcionando.
O que vale registrar:
- Dias de dor de cabeça e a intensidade de cada crise.
- Duração e sintomas que vieram junto (enjoo, aura, sensibilidade à luz).
- Primeiro dia da menstruação e a regularidade do ciclo.
- Outros gatilhos do mesmo período, como noite mal dormida, estresse, jejum ou muito tempo de tela.
- O que você tomou e se funcionou, para mostrar ao médico.
Esse último ponto importa porque a menstruação raramente age sozinha. Uma semana de sono ruim, estresse e pouca comida pode somar com a queda hormonal e fazer a crise vir mais forte. Se você usa muito o celular e o computador, vale também ler sobre luz azul e enxaqueca para saber o que a ciência diz (e o que não diz) sobre as telas.
Existem outros momentos hormonais com mais risco de enxaqueca?
Sim: além da menstruação, o pós-parto e a transição para a menopausa também mexem com a enxaqueca, porque envolvem mudanças nos níveis de estrogênio. Veja como isso costuma acontecer, segundo a SBCefaleia:
- Gravidez: a maioria das mulheres melhora, principalmente a partir do segundo trimestre. Em casos isolados a enxaqueca pode piorar no primeiro trimestre.
- Pós-parto: a enxaqueca pode voltar ou surgir no puerpério, principalmente por causa da queda rápida de estrogênio depois do parto, como explica a entidade.
- Menopausa: diferentemente da gravidez, os resultados são menos favoráveis. Só cerca de 30% das mulheres têm melhora significativa, principalmente aquelas cuja enxaqueca era mais concentrada no período menstrual.
A mesma página lembra que a frequência de dores de cabeça nas mulheres aumenta durante o período fértil e diminui depois da menopausa. Isso reforça a ligação entre hormônios e enxaqueca, mas não quer dizer que a menopausa vá resolver o problema, como os números acima mostram.
A pílula anticoncepcional pode mudar a enxaqueca?
Pode, e o efeito varia de pessoa para pessoa: em algumas mulheres a pílula melhora as crises, em outras piora, e quem tem aura precisa de cuidado especial. A SBCefaleia cita a piora da enxaqueca com o uso de anticoncepcionais como uma das evidências da relação entre flutuações hormonais e crises.
O ponto mais sensível é a enxaqueca com aura (aquelas alterações visuais ou sensoriais que surgem antes ou durante a dor). Segundo a Febrasgo, nas mulheres com enxaqueca que relatam aura há contraindicação aos métodos hormonais combinados, que contêm estrogênio e progestágeno, e o método com progestágeno isolado pode ser usado com segurança.
A SBCefaleia também aponta que pessoas com enxaqueca, principalmente com aura, têm risco maior de AVC e de doenças cardiovasculares, e que esse risco aumenta se houver tabagismo e uso de alguns anticoncepcionais hormonais. Isso não é motivo para pânico: o risco absoluto em uma mulher jovem continua baixo. É motivo para contar ao seu ginecologista que você tem enxaqueca e se tem aura.
Importante: não comece, troque nem pare um anticoncepcional por conta própria por causa da enxaqueca. Essa decisão é individual e deve ser tomada com seu ginecologista ou neurologista.
O que dá para fazer quando a enxaqueca menstrual aparece?
O melhor caminho é conversar com um médico, de preferência um neurologista com experiência em cefaleias, porque existem estratégias diferentes para a crise menstrual e a escolha depende do seu caso. Pelo SUS, o ponto de partida costuma ser a unidade básica de saúde, que pode encaminhar para o especialista.
De forma informativa, a SBCefaleia explica que, quando a pessoa tem crises frequentes ao longo do mês e também na menstruação, o médico pode considerar um tratamento preventivo. Quando as crises são previsíveis, existe ainda a possibilidade de um tratamento pré-programado, em que o medicamento é usado por alguns dias seguidos antes de a dor costumar aparecer. Quais remédios, em que dose e por quanto tempo é decisão exclusiva do médico.
Enquanto isso, algumas atitudes cotidianas ajudam a não dar munição extra para a crise:
- Proteger o sono nos dias de risco, com horários regulares para dormir e acordar.
- Não pular refeições nem passar muito tempo em jejum.
- Beber água ao longo do dia.
- Cuidar do estresse com pausas, respiração, uma caminhada leve ou o que funcione para você.
- Levar o diário ao médico, para que a conversa parta de dados reais.
Nada disso substitui o acompanhamento médico, e nenhuma dessas medidas promete eliminar as crises. Mas, somadas, elas costumam deixar o cérebro menos vulnerável justamente na semana mais delicada do ciclo. Se as crises forem muito frequentes, você também pode ler sobre as opções de tratamento no nosso guia Gerenciar a enxaqueca.
Conclusão: seu ciclo não é culpa sua, mas dá para conhecê-lo
A enxaqueca menstrual não é frescura, nem falta de jeito para lidar com a dor. É uma resposta de um cérebro sensível às oscilações hormonais, e isso é conhecido e estudado. Você não escolheu ter esse padrão, mas pode aprender a reconhecê-lo.
O primeiro passo prático é simples: anote suas crises e as datas da menstruação por alguns meses. Com esse retrato em mãos, a consulta fica mais objetiva, e você ganha uma noção real de quando precisa se proteger mais. Se perceber que a dor mudou de padrão, ficou muito mais forte ou veio com sintomas novos, procure atendimento médico.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura a enxaqueca menstrual?
Uma crise de enxaqueca dura, em geral, de 4 a 72 horas, segundo o Hospital Israelita Albert Einstein. Na enxaqueca menstrual, a SBCefaleia informa que a dor costuma ser mais duradoura do que nas crises de outras épocas do mês. Anotar a duração no seu diário ajuda o médico a entender o seu caso.
Toda dor de cabeça na menstruação é enxaqueca?
Não. A SBCefaleia afirma que a enxaqueca é a causa mais frequente de dor de cabeça perto da menstruação, mas não a única. Só uma avaliação médica pode dizer qual é o tipo de dor que você tem.
A enxaqueca menstrual some na menopausa?
Nem sempre. Segundo a SBCefaleia, apenas cerca de 30% das mulheres têm melhora significativa com a menopausa, principalmente as que tinham enxaqueca mais concentrada no período menstrual. As demais continuam com crises, e vale conversar com o médico sobre como acompanhá-las.
Quem tem aura pode tomar anticoncepcional?
Depende do tipo de anticoncepcional. A Febrasgo aponta contraindicação dos métodos hormonais combinados (com estrogênio) em mulheres com enxaqueca com aura e indica que o método só com progestágeno pode ser usado com segurança. Converse com seu ginecologista ou neurologista antes de qualquer mudança.
Como saber se minha enxaqueca é menstrual?
Anote suas crises e as datas da menstruação por alguns ciclos. Se a dor aparecer repetidamente entre cerca de dois dias antes e os primeiros dias do sangramento, existe uma boa chance de relação com o ciclo, como descreve artigo da Unifesp. O diagnóstico, porém, é feito pelo médico.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Cefaléia
- A dor de cabeça é uma das queixas mais comuns ...
- Sociedade Brasileira de Cefaléia
- risco cardio e cerebrovascular na enxaqueca
- Orientação de anticoncepção para pacientes com cefaléias
- 93 ARTIGO Cefaléia Associada aos Ciclos Hormonais da Mulher
- Dor de cabeça ou enxaqueca? Aprenda como diferenciar!
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos
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