
Enxaqueca e queda de pressão: o que significam os hPa, o avião e a montanha
O céu fica pesado, o ar parece parado e, umas horas antes de chover, a cabeça já começou a latejar. Ou então aterraste de uma viagem e a crise veio logo atrás. Ou subiste uma serra e o corpo protestou. Se alguma vez pensaste "será da pressão?", este artigo sobre enxaqueca e queda de pressão é para ti.
A enxaqueca e a queda de pressão estão ligadas na experiência de muita gente, mas a ligação é mais subtil do que parece. Vamos ver o que é um valor em hPa, porque a velocidade da mudança parece contar, o que dizem os estudos e o que se passa no avião, na altitude e antes de uma trovoada. Isto faz parte do tema mais vasto dos desencadeantes da enxaqueca.
Em resumo
- Um valor em hPa (hectopascal) é a unidade com que se mede a pressão do ar; sozinho diz pouco, o que se tenta perceber é quanto e a que velocidade esse valor muda.
- A sensibilidade à pressão é individual: nem todas as pessoas com enxaqueca reagem a ela, e o tempo (frio, humidade, calor) tem outros fatores em jogo.
- Num avião a pressão da cabine continua a não ser igual à do nível do mar, e na montanha a dor de cabeça pode ser sinal de mal agudo da montanha, que não é a mesma coisa que uma crise de enxaqueca.
- Para saberes se és sensível à pressão, o mais fiável é anotar as crises durante algumas semanas e comparar com o tempo.
O que significa um valor em hPa?
Um valor em hPa mede o peso do ar por cima de ti: quanto maior o número, mais pressão. O hPa (hectopascal) é a unidade usada pelos serviços meteorológicos, e o IPMA publica a pressão atmosférica em hPa, reduzida ao nível médio do mar.
Ao nível do mar, a pressão considerada normal ronda os 1013 hPa, segundo material escolar português de meteorologia. Não é um valor que "faça bem" ou "faça mal": é apenas uma referência. O que aparece na tua aplicação do tempo costuma ser a pressão "reduzida ao nível do mar", o que permite comparar sítios diferentes.
Na prática, o que muda são as zonas de pressão. Um centro de altas pressões chama-se anticiclone e costuma trazer tempo mais estável; um centro de baixas pressões é uma depressão e costuma trazer instabilidade, como explica o mesmo material de meteorologia. Quando ouves falar de "queda de pressão", é normalmente a chegada de uma depressão.
Variação lenta ou brusca: o que importa mais?
Provavelmente importa mais a mudança do que o número, e as mudanças rápidas são as mais associadas a crises. Um valor de 1005 hPa não é, por si só, "mau": o que pode incomodar um cérebro sensível é passar de 1020 para 1005 em pouco tempo.
Uma notícia sobre a influência das condições meteorológicas na enxaqueca refere que as variações rápidas da pressão, comuns nas tempestades de verão, têm sido associadas a crises em pessoas suscetíveis. Repara na palavra "suscetíveis": nem toda a gente reage.
Uma imagem útil é a de uma estrada. Subir um monte devagar não cansa como subir a correr, mesmo que o desnível seja o mesmo. Com a pressão, a ideia é parecida, embora seja uma comparação e não uma prova.
Uma variação lenta ao longo de dois ou três dias é, em geral, menos "notada" do que uma queda concentrada em poucas horas. Mas o que é "lento" e o que é "brusco" varia de pessoa para pessoa, e é por isso que o teu próprio registo vale mais do que qualquer regra.
O que dizem os estudos sobre os limites em hPa?
Não existe um valor em hPa que valha para toda a gente: a sensibilidade é individual, e só uma parte das pessoas parece reagir à pressão. Nas fontes em português que consultámos não encontrámos um limite oficial, e preferimos não inventar um.
Duas ideias a reter:
- A pressão não é o único fator: o tempo é um conjunto de variáveis e é difícil separar o efeito de cada uma.
- Cada pessoa é um caso: o que incomoda uma pode não incomodar outra.
O Manual MSD em português de Portugal inclui as mudanças do clima, em particular a pressão barométrica, entre as coisas que podem desencadear uma crise, ao lado da falta de sono, da fome, do stress ou do excesso de estímulos. Podem desencadear, não desencadeiam sempre. Para a visão geral do tema, tens o artigo Pressão atmosférica e enxaqueca: o que dizem as fontes e como saber se te afeta.
Enxaqueca no avião: a pressão da cabine tem culpa?
Pode ter alguma influência, mas num voo há muitos outros candidatos: a pressão da cabine, o ar seco, o cansaço, o stress e as refeições trocadas. Segundo a CUF, mesmo que o ar da cabine seja pressurizado, a pressão continua a não ser equivalente à do nível do mar, e os níveis de oxigénio no corpo acompanham os do avião.
A mesma página lembra que viajar de avião pode associar-se a stress, cansaço e outros incómodos, e que o desequilíbrio de pressão nos ouvidos é comum, aliviado ao mastigar, bocejar ou engolir. Ou seja, a pressão pode ser um dos ingredientes, mas raramente é o único.
Se tens crises em viagem, vale a pena separar o que é pressão do resto. Uma boa forma é anotar no diário de enxaqueca a que horas dormiste, o que comeste, quanto bebeste e em que fase do voo a dor começou: na subida, em cruzeiro ou na descida. Com algumas viagens, o padrão começa a aparecer.
Se a dor surge sobretudo na descida, em torno dos olhos ou da testa, e vem com nariz entupido, pode haver uma componente dos seios nasais. Tens mais sobre essa confusão em Sinusite ou enxaqueca. E sobre o que levar para a mala, quem trata disto é o teu médico: não há receitas que sirvam para toda a gente.
Enxaqueca na montanha: altitude, pressão e oxigénio
Na montanha a pressão do ar desce e há menos oxigénio disponível, e a dor de cabeça nem sempre é enxaqueca. Como explica o GPnotebook, à medida que a altitude aumenta a pressão barométrica diminui e, com ela, a pressão do oxigénio.
Há um problema específico da altitude, o mal agudo da montanha. Os sintomas incluem dor de cabeça, náuseas, cansaço, tonturas e dificuldade em dormir, e a cefaleia é o sintoma central. Por isso, se és migranosa e tens dor de cabeça a 2500 metros ou mais, nem tu nem eu sabemos logo se é uma crise ou o efeito da altitude.
Uma pista: a Ordem dos Farmacêuticos tem uma publicação dedicada às viagens em altitude, útil para preparar uma subida. E o mesmo GPnotebook resume que, perante sintomas de mal da montanha, se deve parar de subir e descer se não melhorarem em 24 horas ou se piorarem. Se aparecer falta de ar marcada, confusão ou dificuldade em andar, é uma urgência e não esperes.
Se a altitude te dá tonturas, lembra que a enxaqueca também pode causá-las. Há um artigo sobre isso: Enxaqueca vestibular.
Trovoada e depressão: porque a crise às vezes vem antes da chuva
A crise pode chegar antes da chuva porque a pressão começa a cair horas antes de o tempo mudar. Quando uma depressão se aproxima, a pressão desce primeiro e as nuvens e a chuva chegam depois.
A notícia do tempo.pt, que já citámos, associa as variações rápidas de pressão das tempestades de verão a crises em pessoas suscetíveis. Há também outro motivo plausível para o desfasamento: nos dias abafados que antecedem uma trovoada muda tudo ao mesmo tempo (calor, humidade, luz, sono pior). Por isso não conseguimos dizer qual dos fatores pesa mais. Os estudos sugerem associação, não prova de causa e efeito.
Isto também te dá uma pequena vantagem: se reparas que há dias de risco, podes organizar o dia com mais cuidado. Dormir as horas habituais, comer a horas e beber água não "curam" nada, mas retiram ao cérebro outros motivos para reagir.
Como saber se és sensível à pressão?
A forma mais fiável é cruzar durante algum tempo o teu registo de crises com a pressão do dia, em vez de confiar na memória. A memória é traiçoeira: lembramo-nos das crises que coincidiram com a trovoada e esquecemos as que não coincidiram.
Um método simples:
- Anota cada crise: data, hora de início, intensidade e duração.
- Anota também o resto: sono, stress, refeições, ecrãs e, se for o caso, a fase do ciclo menstrual.
- Guarda a pressão do dia e se subiu ou desceu nas horas anteriores.
- Espera algumas semanas antes de tirares conclusões.
Depois, olha para os dados com calma. O artigo Como analisar o diário de enxaqueca mostra como ler o calendário, a duração, a intensidade e as tendências. Se quiseres o método completo, está em Como identificar os desencadeantes da enxaqueca: guia passo a passo.
E não te esqueças de que a maioria das crises tem mais do que um desencadeante, que somam efeitos. A pressão pode ser a gota que faz transbordar o copo em dias em que já dormiste mal ou estás sob stress.
O que reter para a próxima vez
Em síntese, o hPa é só a unidade; o que parece contar é a mudança, e só para uma parte das pessoas. Nem a queda de pressão explica todas as crises, nem a pressão é inocente em todas.
- Não te culpes se a crise vem "do nada": o tempo é um desencadeante que não controlas.
- Podes controlar o resto: sono regular, refeições a horas, hidratação.
- Num voo ou numa subida, planeia com antecedência e não assumas logo que é enxaqueca.
- Para qualquer decisão sobre tratamentos ou prevenção, fala com o teu médico. Tens ajuda para escolher o profissional em Enxaqueca: que médico consultar.
Perguntas frequentes
A queda de pressão atmosférica pode mesmo causar enxaqueca?
Pode contribuir em algumas pessoas, mas não em todas. O Manual MSD inclui as mudanças do clima, em particular a pressão barométrica, entre os possíveis desencadeantes, mas a sensibilidade varia de pessoa para pessoa.
Qual é o valor em hPa que desencadeia uma crise?
Não há um valor único que valha para toda a gente. Nas fontes em português consultadas não encontrámos um limite oficial, e a sensibilidade parece variar muito de pessoa para pessoa.
Porque tenho dor de cabeça no avião?
Pode haver vários motivos juntos: a pressão da cabine, que não é igual à do nível do mar, o cansaço, o stress e a desidratação. Se acontece sempre, anota os voos no teu diário e fala com o teu médico.
A dor de cabeça na montanha é enxaqueca?
Nem sempre. A dor de cabeça é o sintoma central do mal agudo da montanha, que surge com a altitude e vem muitas vezes com náuseas, tonturas e cansaço. Se os sintomas piorarem, o mais seguro é descer e procurar ajuda médica.
Como sei se a pressão me afeta?
Anota as tuas crises durante algumas semanas e compara-as com o valor da pressão e a sua evolução. Se o padrão se repetir, mostra o registo ao teu médico na consulta.
Fontes
- IPMA - Observação de superfície horária com gráficos
- moodle.agbatalha.pt
- Influência das condições meteorológicas no desencadeamento de enxaquecas
- www.msdmanuals.com
- Viajar de avião: que efeitos tem no nosso corpo?
- fisiologia da altitude
- Este site destina-se a profissionais de saúde
- - doença aguda da montanha
- cim e publicacoes viagens em altitude final
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que vive com enxaqueca desde os 21 anos. Saber mais · Como escrevemos os nossos artigos
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