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Mulher inclinada, com uma mão na boca e a outra na têmpora, ao lado de um estômago
Tratamentos

Enxaqueca e náusea: por que acontece e como aliviar sem remédio

Por Laurine Nicoletti11 min

Você sente a dor começar de um lado da cabeça e, pouco depois, o estômago vira. O cheiro do café que você adora fica insuportável, e só de pensar em engolir um comprimido o enjoo aumenta. Se isso soa familiar, saiba que a combinação de enxaqueca e náusea é muito comum, e que não é frescura nem sinal de que você está fazendo algo errado.

Neste artigo, você vai entender por que o estômago entra na crise, em que momento o enjoo costuma aparecer, por que o remédio às vezes parece falhar e quais gestos simples podem deixar tudo mais suportável. Para ter uma visão geral do que existe de tratamento, vale ler também nossa página sobre os tratamentos da enxaqueca.

Em resumo

  • A náusea e o vômito fazem parte do quadro típico da enxaqueca: a Sociedade Brasileira de Cefaleia lista náuseas e vômitos, junto com sensibilidade à luz e ao som, entre os sintomas que acompanham a dor.
  • Durante a crise, o estômago pode esvaziar mais devagar, e por isso comprimidos tomados pela boca podem ser absorvidos pior, segundo o material educativo da Medway sobre o tratamento da crise.
  • Ambiente escuro e silencioso, evitar cheiros fortes e beber líquidos aos poucos são gestos de conforto, mas não substituem o tratamento indicado pelo médico.
  • Existem antieméticos (remédios contra enjoo e vômito) usados no tratamento da crise, e a escolha cabe ao seu médico, assim como a decisão de procurar atendimento se os vômitos não passam.

Por que a enxaqueca causa náusea e vômito?

A enxaqueca causa náusea porque a crise não envolve só a dor: ela mexe com áreas do cérebro que também influenciam o estômago e a sensação de enjoo. Segundo a Secretaria de Saúde de Santa Catarina, a enxaqueca está ligada a desequilíbrios químicos no cérebro, envolvendo substâncias chamadas neurotransmissores, e esse desconforto pode causar enjoo e, nas crises mais fortes, vômito.

Os detalhes de como isso acontece ainda estão sendo estudados. O que se sabe é que o hipotálamo, uma região do cérebro que regula sono, apetite e humor, é ativado logo no início da crise, como descreve uma revisão publicada em revista científica brasileira. Isso ajuda a entender por que os sintomas da enxaqueca vão muito além da cabeça.

O enjoo costuma vir acompanhado de outros sinais. A mesma página da Secretaria de Saúde de Santa Catarina cita tontura, sensibilidade a cheiros, visão embaçada, episódios de diarreia e suor entre os sintomas possíveis. Nem toda crise tem todos eles, e cada pessoa tem o seu jeito de sentir.

A presença de náusea também ajuda os médicos a diferenciar a enxaqueca de outros tipos de dor. O Protocolo Nacional para Diagnóstico e Manejo das Cefaleias nas Unidades de Urgência, elaborado pela Academia Brasileira de Neurologia e pela Sociedade Brasileira de Cefaleia, aponta que náusea e vômito estão ausentes na cefaleia do tipo tensional. Se você quer entender melhor essa diferença, temos um guia sobre a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça.

Em que momento da crise a náusea aparece?

A náusea pode aparecer em mais de um momento: antes da dor, durante o pico da crise e, às vezes, na fase de recuperação. A enxaqueca é dividida em quatro fases, e a Sociedade Brasileira de Cefaleia descreve a sequência: premonitória (pródromo), aura, dor de cabeça e resolução (pósdromo). Nem todo mundo passa por todas elas, e a aura só aparece em parte das pessoas.

Veja como o enjoo costuma se encaixar:

  • Fase premonitória: horas ou até dias antes da dor, podem surgir sinais discretos. Uma reportagem do Correio Braziliense lista a náusea entre os sinais que antecipam a chegada da enxaqueca, ao lado da fadiga.
  • Fase da dor: é quando o enjoo costuma ser mais forte. A dor dura de 4 a 72 horas, segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, e a náusea pode vir e voltar nesse período.
  • Fase de resolução: conhecida como "ressaca" da enxaqueca, pode deixar um mal-estar parecido com o do início.

Esse detalhe das fases explica uma confusão comum. Bocejos, rigidez no pescoço e vontade de comer doces podem surgir até 48 horas antes da dor, segundo a Tua Saúde. Por isso, às vezes o chocolate que você comeu não foi o gatilho: a vontade de comê-lo já era um sintoma do começo da crise. Falamos mais disso em alimentos que causam enxaqueca, e o passo a passo de cada etapa está em quanto tempo dura uma crise de enxaqueca.

Por que o remédio às vezes funciona pior quando você está enjoada?

Durante uma crise, o estômago pode esvaziar mais devagar, e isso atrasa a absorção dos remédios tomados pela boca. A Medway explica que, quando o estômago se esvazia lentamente, os medicamentos orais têm a absorção prejudicada. É por isso que aquele analgésico que "sempre funcionou" pode parecer não fazer efeito no auge da crise.

Na prática, o comprimido fica mais tempo no estômago antes de chegar à corrente sanguínea. Se o enjoo ainda faz você vomitar, fica difícil saber quanto do remédio foi aproveitado. Esse é um bom assunto para levar ao médico, porque a orientação certa depende do seu caso.

Por isso, o tratamento da crise nem sempre se resume a engolir um comprimido. O mesmo material da Medway cita que o sumatriptano por via subcutânea (uma injeção) tem ação mais rápida que a via oral, o que pode ser uma opção em alguns casos. Para entender como esse grupo de remédios funciona, veja nosso artigo sobre triptanos para enxaqueca.

Quais gestos simples ajudam a aliviar a náusea sem remédio?

Não existe um gesto mágico, mas algumas atitudes simples podem tornar o enjoo mais suportável enquanto a crise passa. Elas são medidas de conforto e não curam a enxaqueca, mas muita gente sente que ajudam. O material do Ministério da Saúde sobre enxaqueca cita o repouso em quarto escuro e silencioso e a importância de evitar luz, som e odores intensos durante a crise.

Alguns gestos que você pode testar:

  • Procure um lugar escuro, silencioso e arejado. Luz forte, barulho e cheiros pioram tanto a dor quanto o enjoo. Se der, abra uma janela para renovar o ar.
  • Afaste cheiros fortes. Comida sendo preparada, perfume e produtos de limpeza costumam incomodar mais durante a crise.
  • Beba líquidos aos poucos. A Prefeitura de São Paulo lembra da importância de se hidratar bem. Goles pequenos e frequentes costumam ser mais fáceis de tolerar do que um copo cheio.
  • Coma só quando o enjoo permitir. Se bater fome, prefira algo leve e simples, em pequena quantidade.
  • Fique semi-sentada ou recostada. Muitas pessoas se sentem melhor com a cabeça um pouco elevada do que deitadas totalmente retas.
  • Use uma compressa fria na testa ou na nuca. É um conforto que muita gente aprecia, mas tem pouca prova científica forte. Comentamos o que ajuda de verdade e o que tem pouca prova em como aliviar enxaqueca sem remédio.
  • Respire devagar e evite telas. Respirar com calma e desligar o celular reduz estímulos e ajuda você a se concentrar em descansar.

Depois que a crise passar, anote o que aconteceu: a hora em que o enjoo começou, o que você tinha feito antes e quanto tempo durou. Esses detalhes viram pistas valiosas, e explicamos como fazer isso em diário de enxaqueca: o que anotar.

O que o médico pode oferecer contra a náusea?

O médico pode associar um antiemético ao tratamento da crise, e essa é uma conduta descrita em protocolos brasileiros. O guia de enxaqueca do Hospital Israelita Albert Einstein indica que, em pacientes com náusea ou vômito, um antiemético deve ser associado, citando como opções a metoclopramida, a domperidona e a ondansetrona.

Esses remédios têm funções diferentes. Segundo a Medway, a metoclopramida acelera o esvaziamento do estômago e bloqueia estímulos que provocam enjoo e vômito, e os antieméticos têm eficácia mesmo quando usados sozinhos, porque também aliviam a dor da crise.

Todo remédio tem indicações, efeitos colaterais e situações em que não deve ser usado. O próprio guia do Einstein, por exemplo, traz cuidados específicos para cada um desses antieméticos. Por isso, não vale se automedicar nem trocar um remédio por outro por conta própria: converse com seu médico sobre qual faz sentido para você.

Se as crises são frequentes e o enjoo vira rotina, o assunto pode ir além da crise isolada. O médico pode discutir tratamentos de prevenção, como os descritos em anti-CGRP e enxaqueca: o tratamento preventivo explicado. No SUS, o caminho costuma começar na Unidade Básica de Saúde (UBS), que pode encaminhar para um neurologista quando necessário.

Quando procurar ajuda?

Procure atendimento se o vômito não para, se você não consegue manter nem líquidos ou se aparecer qualquer sinal de alerta junto com a dor de cabeça. A enxaqueca com náusea é incômoda, mas conhecida. O que merece atenção é o que foge do seu padrão.

Segundo o protocolo da Sociedade Brasileira de Cefaleia e da Academia Brasileira de Neurologia, merecem avaliação em urgência, entre outras situações:

  • dor de cabeça de início súbito, que atinge a intensidade máxima em cerca de um minuto;
  • dor de cabeça nova ou com mudança recente de padrão;
  • dor de cabeça com febre sem outra causa aparente;
  • dor acompanhada de sinais neurológicos, como fraqueza de um lado do corpo ou fala alterada.

Rigidez no pescoço, confusão mental e desmaio também pedem atendimento imediato. Os sinais de desidratação (boca seca, urina escura e pouca, tontura ao levantar) são outro motivo para buscar ajuda, principalmente se o vômito persiste. Para um guia mais detalhado, leia dor de cabeça: quando ir ao pronto-socorro.

Se a crise dura vários dias, o artigo sobre enxaqueca que não passa explica o que pode estar acontecendo e quando investigar.

O que levar daqui

O enjoo faz parte da enxaqueca para muita gente, e você não precisa simplesmente aguentá-lo. Ele tem uma explicação, e saber disso já tira um pouco do peso: o estômago acompanha o cérebro durante a crise, e por isso o remédio pode demorar mais para agir.

Algumas ideias práticas para guardar:

  • observe em que momento o enjoo aparece (antes, durante ou depois da dor);
  • crie um ambiente calmo, escuro e sem cheiros fortes, e beba líquidos aos poucos;
  • anote cada crise para ter dados concretos na consulta;
  • converse com seu médico sobre antieméticos e sobre o que fazer se você vomita o remédio.

Nada disso promete acabar com a enxaqueca, mas ajuda você a atravessar cada crise com mais tranquilidade e a levar informações melhores para quem cuida de você.

Perguntas frequentes

Toda enxaqueca causa náusea?

Não. A Sociedade Brasileira de Cefaleia descreve a náusea e/ou o vômito, a sensibilidade à luz e a sensibilidade ao som como sintomas associados da enxaqueca, e eles não precisam aparecer todos juntos. Algumas crises têm mais enjoo, outras mais incômodo com luz e barulho.

Quanto tempo a náusea da enxaqueca dura?

Ela costuma acompanhar a fase da dor, que dura de 4 a 72 horas segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, mas pode ser mais forte em alguns momentos e quase sumir em outros. Cada pessoa e cada crise é diferente, e o registro das suas crises ajuda a ver o seu padrão.

Posso sentir enjoo antes de a dor começar?

Sim. A náusea pode fazer parte da fase premonitória, que antecede a dor por horas ou dias, como mostra a reportagem do Correio Braziliense sobre os sinais que antecipam a enxaqueca. Perceber esse sinal ajuda a se preparar, mas a conduta ideal deve ser combinada com o seu médico.

Posso usar qualquer remédio para enjoo durante a crise?

O ideal é não decidir sozinha. Os antieméticos usados na enxaqueca, como a metoclopramida e a domperidona, aparecem no guia de enxaqueca do Einstein com cuidados específicos para cada um. Converse com seu médico ou farmacêutico antes de usar.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

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