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Mulher de olhos fechados e mão na têmpora ao lado de um barômetro, uma nuvem de chuva, um avião e uma montanha
Gatilhos

Enxaqueca e queda de pressão: o que significam os hPa, o avião e a montanha

Por Laurine Nicoletti11 min

Você olha o céu escurecer, o celular mostra uma tempestade a caminho e, mais ou menos na mesma hora, aquela pontada familiar começa atrás do olho. Ou então você embarca num voo, sobe a serra no fim de semana e a cabeça pesa antes mesmo de você desfazer a mala. A conversa sobre enxaqueca e queda de pressão costuma vir junto com um número estranho no aplicativo do tempo: "1008 hPa". Mas o que isso quer dizer?

Aqui vai um esclarecimento importante: neste texto, "pressão" é a pressão do ar (atmosférica), e não a pressão arterial. Vamos ver como ler um valor em hPa, por que a velocidade da variação parece pesar mais que o número, o que os estudos dizem e o que acontece de verdade no avião, na montanha e antes da chuva. Esse é um dos gatilhos da enxaqueca mais comentados, e também um dos mais difíceis de provar.

Em resumo

  • O hPa (hectopascal) é a unidade que mede a pressão do ar, e o valor padrão ao nível do mar é de cerca de 1013 hPa, segundo o material metodológico do Ciram/Epagri.
  • O número isolado diz pouco: o que parece incomodar quem tem enxaqueca é a mudança de pressão em poucas horas ou dias, e não o valor em si.
  • Não existe um limite em hPa que valha para todo mundo: o jeito mais seguro de saber se a pressão influencia as suas crises é comparar o seu diário com a variação de pressão.
  • No avião, o Manual MSD descreve cabines pressurizadas como se estivessem entre 1.830 e 2.440 metros de altitude; na montanha, o fator extra é a queda de oxigênio disponível.

O que significa um valor em hPa?

Um valor em hPa é a medida da pressão que o ar exerce sobre você naquele lugar e naquele momento. A sigla vem de hectopascal, e a pressão padrão ao nível do mar é de cerca de 1013 hPa.

Na prática, quando o aplicativo do tempo mostra 1020 hPa, o ar está mais "pesado" e costuma indicar tempo firme. Quando mostra 1005 hPa e o número continua caindo, é sinal de que uma frente fria ou uma tempestade pode estar chegando.

Um detalhe que confunde muita gente: o valor de base muda com a altitude da cidade. Quanto mais alto você está, menor a pressão atmosférica, então um mesmo número pode ser "normal" em uma cidade de serra e "baixo" no litoral. Por isso comparar o seu número com o de uma amiga que mora em outro lugar não ajuda muito.

Variação lenta ou brusca: o que pesa mais?

Para quem tem enxaqueca, a hipótese mais comum é que a velocidade da mudança pesa mais do que o valor absoluto. Uma pressão baixa e estável, depois de alguns dias, tende a ser menos suspeita do que uma queda rápida em poucas horas.

Essa ideia aparece em reportagens com neurologistas: a queda repentina da pressão barométrica, como a que acontece quando uma tempestade chega, é apontada como um dos principais culpados pelas dores de cabeça ligadas ao clima. A explicação proposta envolve vasos sanguíneos e nervos sensíveis, como o nervo trigêmeo. É uma hipótese plausível, mas ainda não está totalmente comprovada.

Pense assim:

  • Variação lenta: a pressão cai alguns hPa ao longo de dois ou três dias. Seu corpo tem tempo de se ajustar, e muita gente nem percebe.
  • Variação brusca: a pressão despenca em poucas horas, como antes de uma tempestade de verão. É o cenário mais citado por quem sente "a cabeça avisar" a chuva.

Isso não é regra. Algumas pessoas reagem à queda, outras à subida, outras a nenhuma das duas. Para entender melhor o que a ciência já mostrou, vale ler também o artigo Pressão atmosférica e enxaqueca: o que a ciência diz.

O que os estudos dizem sobre limites em hPa?

Não existe um número em hPa que sirva de limite para todo mundo, e a ciência ainda não fechou a relação entre pressão e crises. Veja o que foi encontrado.

Um experimento em câmara climática. Em um estudo com 15 adultos saudáveis, a pressão foi reduzida em etapas de 0, 20 e 40 hPa. Quase todos os participantes relataram sensação de pressão no ouvido, e o desconforto começou durante a fase de queda. Atenção: eram pessoas sem enxaqueca, e o que se media era a sensação de pressão, não crises.

O que isso nos permite dizer, com honestidade:

  • O clima é citado como gatilho por uma boa parte das pessoas: de acordo com uma reportagem do Estado de Minas, estudos indicam que cerca de 45% a 70% dos pacientes relatam o clima como gatilho.
  • Pressão, umidade, temperatura e luminosidade mudam juntas, então é difícil separar o que realmente pesa.

Resumindo: o valor exato varia de pessoa para pessoa, e é por isso que o seu próprio registro vale mais que qualquer número genérico.

Enxaqueca no avião: a pressão da cabine tem culpa?

A cabine do avião não tem a pressão do nível do mar, e isso pode ser um dos motivos da dor de cabeça em voo. O Manual MSD explica que aviões comerciais são pressurizados para o equivalente a uma altitude entre 1.830 e 2.440 metros, e que nessa condição o ar dentro de cavidades do corpo se expande cerca de 25%.

Em altitude de cruzeiro, a pressão parcial de oxigênio é cerca de 25% menor que ao nível do mar. Para a maioria das pessoas isso não causa dano, mas o mesmo manual registra que, depois de 3 a 9 horas, algumas relatam desconforto, como dor de cabeça e mal-estar.

A Sociedade Brasileira de Cefaleia também lista mudanças súbitas de pressão, como as de voos em grandes altitudes, entre os estímulos capazes de desencadear uma crise em pessoas predispostas.

Existe ainda a chamada "dor de cabeça do avião". Segundo o neurologista Abouch Krymchantowski, citado em reportagem sobre o tema, ela costuma vir de forma repentina, de um lado só, na região da testa acima dos olhos, e passa minutos depois do pouso. A explicação sugerida envolve os seios da face e o sistema de nervos e vasos da cabeça. Se você já confundiu essa dor com problema nos seios da face, o artigo Sinusite ou enxaqueca ajuda a diferenciar.

Também vale lembrar que viajar mexe com vários gatilhos ao mesmo tempo: sono curto, horários de refeição trocados, estresse com o embarque. A SBC cita estresse, jejum e alterações do sono entre os fatores que desencadeiam crises. Por isso, nem sempre dá para culpar só a pressão. Se você tem viagens longas pela frente, vale conversar com seu médico sobre como se preparar.

Enxaqueca na montanha: altitude, pressão e oxigênio

Na montanha, além da queda de pressão, o que muda é a quantidade de oxigênio disponível, e isso pode causar dor de cabeça mesmo em quem não tem enxaqueca. Segundo o Manual MSD, a porcentagem de oxigênio no ar permanece a mesma, mas a pressão cai, então o ar fica menos denso e chega menos oxigênio ao corpo. A 5.800 metros, por exemplo, o ar contém apenas metade do oxigênio do nível do mar.

É o que acontece com o famoso soroche, o mal da altitude que muitos brasileiros conhecem em viagens a Cusco, La Paz ou ao Atacama. De acordo com o manual para profissionais, os sintomas costumam aparecer em 6 a 10 horas após a subida e incluem dor de cabeça, associada a fadiga, náusea, falta de apetite ou tontura.

Isso significa que, na altitude, uma dor de cabeça pode ter duas origens diferentes: a enxaqueca (com o gatilho da pressão) ou a doença da altitude (por falta de oxigênio). Os sintomas se sobrepõem, e só um profissional consegue separar os dois. Se vierem tontura ou sensação de desequilíbrio, vale conhecer a enxaqueca vestibular.

Um sinal de atenção, sem alarme: o mesmo manual descreve que o edema cerebral de altitude causa dor de cabeça com perda de equilíbrio e confusão. Se isso acontecer, é caso de descer e procurar atendimento. Antes de uma viagem a grandes altitudes, converse com seu médico, que pode orientar com base no seu histórico.

Tempestade e queda de pressão: por que a crise às vezes vem antes da chuva?

A crise pode vir antes da chuva porque a pressão do ar começa a cair horas antes de a tempestade chegar. É por isso que algumas pessoas dizem que "sentem" a chuva, e é o cenário mais lembrado de variação brusca.

A mudança cria, segundo a matéria do Estado de Minas, uma diferença entre a pressão do ambiente e a do ar nas cavidades internas, como os seios da face, o que poderia irritar nervos e disparar uma crise. Essas explicações ainda são hipóteses: a ciência não fechou o mecanismo.

Em dias de tempestade, também mudam a umidade, a temperatura, o abafamento e a luminosidade. Então, nem sempre dá para apontar um único responsável.

Como saber se você é sensível à pressão?

A forma mais confiável de descobrir é registrar suas crises e comparar com a pressão do dia, durante algumas semanas ou meses. Sem registro, a memória trabalha a favor da hipótese: você lembra das crises que vieram com chuva e esquece as que vieram com sol.

Um caminho simples:

  1. Anote cada crise com data, horário de início, intensidade e duração. O artigo Diário de enxaqueca: o que anotar detalha o que vale registrar.
  2. Registre também os outros gatilhos do dia (sono, estresse, refeições, telas, ciclo menstrual). A SBC sugere observar o que aconteceu nas 48 horas anteriores à crise e se há um padrão de repetição.
  3. Compare com a pressão do dia e do dia anterior, olhando mais a direção e a velocidade da mudança do que o número.
  4. Olhe o conjunto, não uma crise isolada. Veja como fazer isso em Como analisar o diário de enxaqueca e no passo a passo de como identificar os gatilhos da enxaqueca.

Se um padrão aparecer, leve o diário para a consulta com o neurologista (no SUS, o caminho costuma começar pela unidade básica de saúde). O artigo Enxaqueca: qual médico procurar ajuda a preparar essa conversa. Quem decide qualquer ajuste de tratamento é o seu médico, não o aplicativo do tempo.

O que levar daqui

A pressão do ar é um possível gatilho de enxaqueca, mas não é um gatilho universal e não tem um número mágico em hPa. O que mais parece contar é a mudança rápida, não o valor parado, mas a ciência ainda não fechou essa relação.

No avião, a cabine tem pressão equivalente a uma altitude de 1.830 a 2.440 metros. Na montanha, entra também a falta de oxigênio. Antes da chuva, a queda brusca de pressão vem junto com outras mudanças do tempo.

Você não precisa controlar o céu. Basta observar, anotar e, com o tempo, descobrir se a pressão faz parte das suas crises ou se o culpado é outro. Isso já é muita informação para levar ao médico.

Perguntas frequentes

A queda de pressão atmosférica pode causar enxaqueca?

Em algumas pessoas, parece que sim. A Sociedade Brasileira de Cefaleia lista mudanças súbitas de pressão entre os gatilhos possíveis. Mas isso não vale para todo mundo, e a relação de causa ainda não está provada.

Quantos hPa de queda são suficientes para provocar uma crise?

Não há um número comprovado que sirva para todos. Nas fontes consultadas para este artigo, não aparece um limite em hPa universal. O jeito mais seguro de saber é comparar o seu diário de crises com a variação de pressão ao longo do tempo.

A dor de cabeça no avião é enxaqueca?

Pode ser, mas nem sempre. A cabine pressurizada é equivalente a uma altitude de 1.830 a 2.440 metros, e algumas pessoas têm dor de cabeça depois de várias horas de voo, enquanto outras têm a chamada "dor de cabeça do avião", que costuma ser súbita e passar logo depois do pouso. Se a dor for nova, muito forte ou repetida, conte ao seu médico.

Pressão do ar é a mesma coisa que pressão arterial?

Não. A pressão do ar (atmosférica) é medida em hPa e muda com o tempo e a altitude, enquanto a pressão arterial é a força do sangue nas artérias, medida por outro aparelho. Dúvidas sobre pressão arterial devem ser levadas ao seu médico.

Fontes

Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos

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