
Enxaqueca infantil: guia completo para pais e mães
Seu filho chega da escola com a cabeça doendo, pede para apagar a luz e deita no sofá. Ele diz que está enjoado, talvez vomite e dorme por um tempo. Algumas horas depois, parece outra criança. Se isso acontece de vez em quando, a enxaqueca infantil pode ser uma explicação, e ela é mais comum do que muita gente imagina.
Neste guia, você vai entender como a enxaqueca aparece em crianças e adolescentes, como reconhecer uma crise, quais sinais pedem atenção rápida e que tipo de profissional procurar. Também vamos falar de escola, de tratamento e de como acompanhar as crises em casa. Este texto é informativo e não substitui a consulta com o pediatra ou o neurologista. Se quiser uma visão geral de como lidar com as crises, vale também passar pelo nosso espaço Conviver com a enxaqueca.
Em resumo
- Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, cerca de 9,1% das crianças e pré-adolescentes com menos de 12 anos têm enxaqueca, com mais frequência entre as meninas (10,5%) do que entre os meninos (7,6%).
- Na infância, a crise costuma ser mais curta e a dor aparece com frequência nos dois lados da cabeça, acompanhada de enjoo, vômito, incômodo com luz e com barulho.
- Dor súbita e muito forte, febre, rigidez na nuca, confusão, convulsão, dor após batida na cabeça ou dor que acorda a criança à noite pedem avaliação médica rápida.
- Um diário de crises, o sono regular, refeições em horários fixos e o apoio emocional ajudam no cuidado, mas a escolha de qualquer remédio é sempre decisão do médico.
A enxaqueca é comum em crianças?
Sim. Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, uma análise de estudos epidemiológicos estimou que cerca de 9,1% das crianças e pré-adolescentes (menores de 12 anos) têm enxaqueca. O número é de 10,5% entre as meninas e 7,6% entre os meninos. A mesma fonte indica que a dor de cabeça em geral é ainda mais frequente nessa faixa etária, com média global de 54,4%.
Na adolescência, a dor de cabeça costuma ficar ainda mais presente. Uma revisão publicada na Residência Pediátrica cita que a frequência aumenta com a idade e que entre 66% e 71% dos adolescentes de 12 a 15 anos têm pelo menos um episódio de dor de cabeça a cada três meses. Nem toda dor de cabeça é enxaqueca, claro. Mas enxaqueca e cefaleia tensional são as causas mais frequentes das queixas nessa idade.
Enxaqueca infantil: como reconhecer uma crise no seu filho
A crise de uma criança nem sempre se parece com a de um adulto. Segundo um resumo sobre enxaqueca na pediatria, a dor costuma ser moderada a intensa, muitas vezes pulsátil, e vem com náuseas, vômitos, incômodo com luz (fotofobia) e com barulho (fonofobia). Nas crianças, as crises tendem a ser mais curtas, e os critérios usados pelos médicos consideram episódios de 1 a 72 horas.
Algumas diferenças importantes em relação aos adultos:
- Localização da dor: em crianças, ela costuma ser dos dois lados, na testa ou nas têmporas. Em adolescentes e adultos, é mais comum de um lado só, segundo um artigo da SciELO.
- Duração: o episódio pode ser mais curto, e às vezes um cochilo em ambiente escuro e silencioso já resolve. A revisão da Revista de Neurociências da Unifesp comenta como a enxaqueca na infância é pouco reconhecida e, por isso, mal conduzida.
- Sintomas digestivos: náusea e vômito podem ser mais evidentes do que a própria dor.
Outro ponto: crianças pequenas muitas vezes não sabem dizer "estou com dor de cabeça". Elas ficam quietas, pálidas, irritadas, perdem a vontade de brincar ou se isolam. A própria literatura reconhece que a limitação para descrever os sintomas dificulta o diagnóstico até para quem tem experiência.
E a dor de barriga e o enjoo em viagens?
A Sociedade Brasileira de Cefaleia descreve as chamadas síndromes periódicas da infância, que são quadros considerados precursores da enxaqueca. Entre elas estão a enxaqueca abdominal (dor de barriga recorrente perto do umbigo, às vezes com náusea e palidez, que dura de minutos a algumas horas), os vômitos cíclicos e o enjoo em movimento (cinetose). A enxaqueca abdominal pode começar já no primeiro ano de vida, mas é mais frequente por volta dos 4 e 5 anos.
Isso não significa que toda criança que enjoa no carro vai ter enxaqueca. Mas, se esses episódios se repetem e há histórico de enxaqueca na família, vale comentar com o pediatra.
Enxaqueca ou dor de cabeça de tensão?
Os médicos precisam diferenciar a enxaqueca de outras dores de cabeça primárias, como a cefaleia tensional, e das dores secundárias, que são causadas por outra condição. Segundo o Portal Afya, esse é sempre o primeiro passo da avaliação. Você não precisa fazer essa distinção sozinho: o seu papel é observar e descrever bem o que acontece.
É hereditária? E o que pode desencadear uma crise?
A enxaqueca costuma ter componente familiar. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cefaleia, uma em cada dez crianças tem enxaqueca, principalmente aquelas cuja mãe ou pai também tem. Se você quiser entender melhor o que os estudos dizem, temos um texto sobre a enxaqueca ser hereditária e o que isso significa para seus filhos.
Ter alguém na família com enxaqueca não é culpa de ninguém. Também não garante que seu filho terá crises. É só uma pista útil para o médico.
Sobre os gatilhos, a SBCefaleia lista os principais desencadeantes de enxaqueca. Vários deles fazem parte da rotina de qualquer criança:
- Estresse e ansiedade, incluindo preocupações e autocobrança;
- Jejum: a recomendação da sociedade é comer algo a cada 3 ou 4 horas;
- Sono irregular: dormir pouco, dormir demais, ir para a cama e acordar muito tarde;
- Barulho alto, cheiros fortes, calor e, em algumas pessoas, certos alimentos.
Gatilho não é a mesma coisa que causa, e cada criança reage de um jeito. Por isso, observar o padrão do seu filho vale mais do que seguir listas genéricas. E sim, muita gente se pergunta sobre celular e tablet: para isso, escrevemos sobre luz azul, telas e enxaqueca.
Quando procurar o médico sem esperar?
A maioria das dores de cabeça na infância não é grave. Mesmo assim, alguns sinais pedem avaliação rápida. A SBCefaleia lista como sinais de alerta, entre outros:
- a primeira dor de cabeça, de início súbito e muito forte, ou a "pior dor da vida";
- mudança no padrão de uma dor que já existia (mais frequente, mais forte ou diferente);
- dor de cabeça que começa em idades pequenas (menos de 5 anos);
- dor com febre, confusão mental, rigidez na nuca, convulsões, fraqueza, desequilíbrio ou qualquer sinal neurológico;
- dor que acorda a pessoa durante a noite.
Para crianças, o Portal Afya acrescenta alguns pontos que os pediatras observam: dor após batida na cabeça, vômitos, piora pela manhã, dor que muda com a posição do corpo e alterações no exame neurológico. Se algo assim aparecer, procure um pronto-socorro ou o pediatra do seu filho sem esperar.
Uma informação que costuma tranquilizar: segundo a mesma fonte, não há indicação de exame de imagem (como tomografia ou ressonância) para quem tem dor de cabeça compatível com enxaqueca e sem sinais de alerta. O médico é quem decide se algum exame é necessário.
Que médico procurar?
O caminho mais comum começa no pediatra, que pode ser o da unidade básica de saúde (UBS) pelo SUS ou o da rede particular. Ele examina a criança, ouve a história e avalia se há algum sinal de alerta. Se necessário, encaminha para um neuropediatra ou neurologista com experiência em cefaleias.
Segundo o Portal Afya, o primeiro passo do médico é separar as dores primárias, como a enxaqueca, das secundárias. Na consulta, o que mais ajuda é a sua descrição das crises. Anote com antecedência:
- quando as dores começaram e com que frequência acontecem;
- quanto tempo cada crise dura e como é a dor, pelo que seu filho conseguir dizer;
- o que vem junto (enjoo, vômito, luz e barulho incomodando, palidez);
- o que costuma vir antes (noite mal dormida, refeição pulada, dia estressante);
- quem na família tem enxaqueca.
Como acompanhar a enxaqueca do seu filho
Um diário de dor de cabeça é uma das ferramentas mais úteis. O resumo de enxaqueca na pediatria recomenda que se registrem as principais características de cada crise, para o médico avaliar com mais rigor. Com alguns meses de anotações, você e o médico começam a enxergar padrões.
Algo simples já basta: data, horário, duração, intensidade (por exemplo, de 0 a 10 ou com carinhas), sintomas, o que seu filho comeu e dormiu, e o que ajudou.
O que ajuda durante uma crise?
Segundo a SBCefaleia, a base do cuidado na infância e adolescência são medidas sem remédio. Isso inclui manter uma rotina de sono regular, fazer exercício aeróbico e evitar alimentos que o próprio paciente identifique como desencadeantes. Esse cuidado vale tanto entre as crises quanto como ajuda geral.
Na hora da dor, muitas famílias relatam que o que ajuda é simples: um quarto escuro e silencioso, descanso e um ambiente acolhedor. Um texto do Instituto NeuroSaber destaca justamente o apoio emocional dos pais durante a crise e lembra que um período de sono curto muitas vezes basta para a crise passar.
E os remédios?
A mesma SBCefaleia afirma que medicamentos de crise e preventivos podem ser usados na infância e na adolescência, mas que o tratamento sem remédio deve ser incentivado. Qual remédio, em que situação e em qual quantidade é uma decisão do médico, que considera idade, peso, histórico e tipo de crise.
Por isso, evite dar remédios por conta própria ou aproveitar o que sobrou da sua caixinha. A SBCefaleia alerta que a automedicação agrava as dores de cabeça crônicas. Se você notar que seu filho precisa de remédio para dor com muita frequência, converse com o pediatra.
E o tratamento de fundo, para prevenir?
Nem toda criança com enxaqueca precisa de tratamento preventivo. Ele costuma ser discutido quando as crises são frequentes, intensas ou atrapalham a escola e a vida social. Quem avalia essa necessidade é o médico.
As diretrizes atualizadas da Academia Americana de Neurologia e da American Headache Society, resumidas pelo Portal Afya, trazem alguns pontos:
- Os médicos devem orientar a família sobre estilo de vida e fatores de comportamento que podem influenciar a frequência das crises.
- A terapia cognitivo-comportamental (TCC), um tipo de psicoterapia, pode ser eficaz, inclusive combinada com medicamento. Os autores dizem que ela possivelmente funciona também sozinha.
- Crianças e adolescentes com enxaqueca devem ser avaliados para transtornos de humor e ansiedade, porque eles aumentam o risco de a dor persistir.
A SBCefaleia também observa que crianças com dor de cabeça e enxaqueca têm mais ansiedade e depressão, e que crianças com TDAH têm mais enxaqueca. Isso não quer dizer que seu filho "tem algo a mais". Só mostra por que o médico olha para a criança inteira, não apenas para a dor.
Enxaqueca e escola: como ajudar
A enxaqueca pode afetar a vida escolar: faltas, dificuldade de concentração em dia de crise, medo de não conseguir ir à festa ou ao treino. A SBCefaleia disponibiliza o PedMIDAS em português, um questionário validado que avalia o impacto da enxaqueca nos últimos três meses em seis perguntas: faltas e desempenho escolar, tarefas em casa, atividades sociais e esportes. Você pode perguntar ao médico se faz sentido usá-lo no caso do seu filho.
Algumas ideias práticas para conversar com a escola, sempre com orientação do médico:
- explicar que seu filho tem enxaqueca e que as crises podem acontecer de repente;
- combinar um lugar tranquilo para descansar durante uma crise, com aviso aos pais;
- pedir que ele possa beber água e fazer lanches nos horários, já que o jejum é um possível gatilho;
- conversar com os professores sobre provas ou tarefas atrasadas após uma crise forte;
- se o médico indicar, levar um relatório explicando a condição.
Evite também transformar a enxaqueca em motivo de culpa. Seu filho não está "fazendo manha". Se ele percebe que você acredita nele, fica mais fácil dizer quando a dor começa.
Vai passar com a idade?
Essa é a pergunta que quase todo pai e toda mãe faz, e a resposta honesta é: depende, e ninguém consegue prometer. Em algumas pessoas, as crises diminuem ao longo dos anos. Em outras, continuam na vida adulta. A revisão da Residência Pediátrica mostra que a dor de cabeça se torna mais frequente na adolescência, e a SBCefaleia descreve as síndromes periódicas da infância como precursoras da enxaqueca.
Na adolescência, as mudanças hormonais, a rotina de sono desregulada, as provas e o uso do celular à noite podem pesar. Ajudar seu filho a ter horários mais estáveis, comer em intervalos regulares e aprender a lidar com o estresse costuma ser um bom caminho, e conversar sobre isso com o médico ajuda a definir prioridades.
Se você quiser saber mais sobre como evitar crises, também temos um espaço sobre prevenir a enxaqueca.
O essencial para levar com você
- A enxaqueca infantil é comum, e as crises podem ser mais curtas e vir com dor de barriga, enjoo ou vômito.
- Procure atendimento sem esperar se a dor for súbita e muito forte, vier com febre, rigidez na nuca, confusão, fraqueza, convulsão, após batida na cabeça ou se acordar a criança à noite.
- Um diário de crises ajuda o médico a entender o padrão do seu filho.
- Medidas simples, como sono regular, refeições em horários e apoio emocional, fazem parte do cuidado. A escolha de remédios é sempre do médico.
- Converse com a escola, e lembre seu filho de que ele não está sozinho nisso.
Perguntas frequentes
A enxaqueca é comum em crianças?
Sim. Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, uma análise de estudos estimou que cerca de 9,1% das crianças e pré-adolescentes com menos de 12 anos têm enxaqueca. O número é de 10,5% entre as meninas e 7,6% entre os meninos.
Como reconhecer uma crise de enxaqueca em uma criança?
A dor costuma ser moderada a intensa, muitas vezes pulsátil, e vem com enjoo, vômito e incômodo com luz e barulho. Em crianças, a dor aparece com frequência dos dois lados da cabeça e a crise pode ser mais curta. Crianças pequenas nem sempre sabem dizer que estão com dor de cabeça e podem ficar quietas, pálidas ou irritadas.
Quando levar a criança ao médico sem esperar?
Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, alguns sinais pedem avaliação rápida: dor súbita e muito forte, mudança no padrão de uma dor que já existia, dor com febre, rigidez na nuca, confusão, convulsões ou fraqueza, e dor que acorda a pessoa durante a noite. Dor após batida na cabeça também merece atenção imediata.
Que médico procurar para a enxaqueca infantil?
O caminho mais comum começa no pediatra, que examina a criança, ouve a história e avalia se há sinais de alerta. Se necessário, ele encaminha para um neuropediatra ou neurologista com experiência em cefaleias.
A enxaqueca infantil passa com a idade?
Depende, e ninguém consegue prometer. Em algumas pessoas as crises diminuem ao longo dos anos, em outras continuam na vida adulta. O médico pode ajudar a acompanhar a evolução de cada criança.
Fontes
- dor de cabeça na infância e adolescência
- síndromes periódicas da infância
- sinais de alerta nas dores de cabeça
- Ter dor de cabeça é comum, mas não é normal
- Os 10 principais desencadeantes de enxaqueca
- A automedicação agrava as dores de cabeça crônicas
- JÁ ESTÁ DISPONÍVEL O PedMIDAS EM PORTUGUÊS
- Cefaleias na adolescência
- Resumo de Enxaqueca na Pediatria: causas, tratamento e mais!
- Brasil - Enxaqueca na infância: dificuldades diagnósticas Enxaqueca na infância: dificuldades diagnósticas
- ARTIGO Enxaqueca na Infância e na Adolescência
- AAP 2025 - Atualizações em cefaleia na infância - Portal Afya
- Cefaleia na infância: quando realizar exames de imagem? - Portal Afya
- Diretrizes atualizadas sobre prevenção da enxaqueca em crianças e adolescentes - Portal Afya
- Como tratar a enxaqueca na infância? - NeuroSaber
Escrito por Laurine Nicoletti, fundadora da Mellow, que convive com a enxaqueca desde os 21 anos. Saiba mais · Como escrevemos nossos artigos
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